Festa à Brasileira - sentidos do festejar
no país que "não é sério"
Rita Amaral


Este texto faz parte da tese de Doutoramento em Antropologia Social de Rita Amaral, Festa à Brasileira - sentidos do festejar no país que "não é sério" defendida junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Brasil, no ano de 1998. Veja como citá-la clicando aqui
 

Notas

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Os antropólogos foram, desde Morgan, mais cuidadosos em buscar o sistema e o código das sociedades arcaicas do que em examinar os momentos incomuns de sua existência costumeira. Eles parecem ter, consciente ou inconscientemente projetado sobre as civilizações alheias seu desejo de persuadir seus contemporâneos de que os grupos estudados não eram, como se pensava, bárbaros desprezíveis, já que uma sociedade é respeitável quando ela apresenta uma ordem. E esta “ordem” a antropologia parece ter encontrado no mundo inteiro. No entanto, talvez exatamente por este cuidado em recompor sistemas, ela parece não ter visto na festa senão o contrário da organização cotidiana. A festa desapareceu, portanto, da análise. Ou só aparece como parte dos sistemas rituais.

O uso de aspas se deve ao fato de que poucos são os estudos que efetivamente teorizam sobre a festa. Geralmente teoriza-se sobre religiosidade ou sobre diversos aspectos sociais. Nestes estudos, a festa comparece como elemento componente da análise e não propriamente como objeto sobre o qual se teoriza.

Huizinga, em "Homo Ludens" (1951) diz que existem atividades humanas que não correspondem a nenhuma função e que não visam nenhum objetivo eficaz. Ele inclui entre eles a estética e a festa. Mas a festa não se define por seu caráter inútil ou não funcional. Esta "não-funcionalidade" teria uma função estrutural, segundo os tipos de sociedades onde ela aparece.

Agitação do espírito; excitação, exaltação; comoção, perturbação, movimento; bulício; inquietação.

O mesmo acontecendo, guardadas as devidas proporções, na festa.

A respeito dos processos miméticos em sociedade, ver o excelente trabalho de Taussig (1992). Nele, Taussig esboça uma teoria antropológica que coloca em evidencia as implicações entre a imitação (mímesis) e diferença, ou o self e o outro (alteridade). Ele ainda mescla etnografia latino-americana e história  colonial com insights de Walter Benjamim, Adorno e Horkheimer, buscando aprofundar a compreensão da etnografia, o racismo e a sociedade.

Recentemente a TV Cultura de São Paulo apresentou uma série de documentários sobre as festas típicas da América Latina onde isso fica claramente demonstrado. A festa, ainda que incorporando elementos não tradicionais até o momento, mantém-se como ponto de contato das culturas com suas raízes e são extremamente valorizadas pela maioria da população.

Nas festas de candomblé, por exemplo, em que se louvam os deuses (orixás) ou o “nascimento” (iniciação, conversão) de um novo adepto, sempre há preocupação com a decoração, com a comida, um bolo confeitado, lembrancinhas, coisas típicas das festas profanas. Há, inclusive, terreiros que contratam bufês (Amaral, 1992) como de resto acontece em muitas festas ditas profanas.

A noção de fato social total refere-se a determinado tipo de trocas cerimoniais-materiais e simbólicas que acionam de maneira simultânea diversos planos (religioso, econômico, jurídico, moral, estético, morfológico) de uma sociedade. Do ponto de vista analítico, os fatos sociais totais seriam mais que temas ou elementos de instituições; mais que instituições complexas ou mesmo sistemas de instituições religiosas, jurídicas, econômicas ou outras. Os fatos sociais totais representariam o próprio sistema social em funcionamento. Expressariam o conjunto de relações, a dimensão social total, que une os atores sociais no interior de uma sociedade. Outro aspecto decisivo no conceito de fato social total é sua dimensão de obrigatoriedade: tribos, clãs e fratrias, da mesmo forma que cada ator social membro desses grupos sociais são constrangidos nestas situações, não só a aceitar o que lhes é oferecido como a retribuir com acréscimo o que recebem. (Mauss, 1974).

Do latim commemorare que significa “trazer à memória, lembrar”.

É importante constatar que a festa aparece como a ressurreição de uma atividade dinâmica que entranha a sociedade inteira num ato de inovação. Como um tipo de história em vias de se fazer e consciente de sua pulverização. “É como se, antes de "pensar a história" e buscar suas leis, os homens houvessem vivido esta história na festa “ (Ozouf, 1986).

Não parece exagerado afirmar que mesmo quando a festa é mais restrita e supostamente de fruição, divertimento,   tem a capacidade de abrir a percepção individual para o significado da vida em grupo.

Duvignaud (1976, 1983) lembra sempre que a maior parte das condutas rituais eram também defesas da vida coletiva contra as grandes instâncias que a ameaçam de destruição e desordem - a morte, a fome, a sexualidade, o fim. Trata-se de condutas rituais que se poderia qualificar de mágicas. E poderíamos ver no conjunto dos rituais uma imensa conjuração da natureza.

Da alucinação simbólica convém notar que ela corresponde à vontade de impor uma ordem mística e simbólica, diferente da realidade social estabelecida. Podemos pensar aqui nas festas religiosas, nos Mistérios da Idade Média européia que postulavam a igualdade dos homens diante da morte e diante de Deus contradizendo, durante todo este período, a realidade desigual da sociedade (Cox, 1969).

O termo festa, foi usado, pela Igreja com diferentes sentidos, conforme os contextos. Raphael Bluteau, padre jesuíta que escreveu o Vocabulário português e latino, no século XVII, explica que o termo festus, de origem latina, aplicava-se à “celebração e ao culto dos falsos deuses”.. Entre elas cita as festas religiosas dos judeus e as maometanas, sublinhando, porém, que as “festas dos cristãos na Igreja Católica são sabidas de todo o fiel cristão”: as dos patronos, as dos mártires - como São Policarpo e outros - e as da Epifania. Ressalva, todavia, a existência de festas profanas. (Bluteau apud Del Priore, 1994:18).

Planta ornamental, arbustiva, de folhas pouco numerosas e flores amarelas, de cheiro agradável.

Antiga festa popular portuguesa, realizada no Algarve nos primeiros dias de maio. Ao redor de uma grande boneca de palha de centeio, farelos e trapos, vestida de branco e colocada no meio da casa no 1º de maio, os algarvios dançavam e cantavam. Câmara Cascudo diz, citando L. Gonzaga dos Reis que existiam ainda as maias naquele município maranhense. “No dia 1o de maio, os moradores enfeitam a fachada das casas, engrinaldando as janelas e as portas com flores naturais, silvestres ou cultivadas, como singela oferenda à deusa desconhecida Flora, no que dão inequívoca prova de bom gosto, ao mesmo tempo que festejam a primavera” (Cascudo, 1969:132, v.2).

Conhecidas atualmente como cantigas populares do dia de ano-bom.

A respeito da pompa e longos preparativos para a festa de “Entrada” de Tereza Cristina de Bourbon, princesa vinda de Nápoles ao Brasil a fim de contrair núpcias com o jovem D. Pedro II, e também da “Entrada” de D. Leopoldina, ver Rodrigues, 1996.

Na Bíblia o próprio Deus ordena: “E na tua festa te regozijarás, tu, teu filho e tua filha, teu servo e tua serva, e o levita, o peregrino, o órfão e a viúva que estão dentro das tuas portas. (Deuteronômio 16:14)”. Portanto, todos os que estivessem próximos a uma família deveriam participar da festa, sem exceções.

Como ainda acontece em diversas festas promovidas por grupos que antagonizam em disputas, desde o carnaval das escolas de samba, até festas como a de Peão Boiadeiro em São Paulo, ou o Boi de Parintins, no Amazonas.

De acordo com James Frazer (1911, 36/46), que estudou a presença destes mastros em diversas festas e rituais da Europa e outras regiões, os mastros representam uma reminiscência dos cultos fitolátricos e de tudo que pode ser representado pelas árvores. O objetivo deste costume seria atrair o frutificante espírito da vegetação, recém desperto da primavera. Ver também D’Abeville (1945), Cascudo (1969) e Araújo (s/d).

“[É] costume plantar uma árvore pelos três santos de junho (Santo Antônio, São João e São Pedro) e pendurar-lhe frutos, flores, enfeites de papel, ao som dos cantos. Nalgumas partes o mastro recebe as mesmas honras votivas. As premissas da colheita são dispostas nessas árvores, replantadas em cantos especiais e, depois da festa, queimadas e guardado um tição que tem efeito mágico conta tempestade [...]. A intenção proclamada é que a terra dará melhores e mais abundantes frutos depois dessas árvores e mastros enfeitados, muitos com sua história desaparecida e reduzidos a manter a bandeira do santo. Essas árvores e mastros votivos são reminiscências dos cultos agrários, homenagens propiciatórias às forças vivas da fecundação das sementes, ocorrendo especialmente no solstício do verão, junho, correspondendo ao do inverno para nós do Brasil.” (Cascudo, 1969:179/189).

Iluminação por motivo de festa ou de regozijo público.

As festivas luminárias eram pequenas panelas de barro com azeite de mamona e um pavio de algodão retorcido que se acendia na época de festas e procissões. Elas também podiam ser feitas de cascas de laranja com o mesmo azeite e pavio, ou ainda com sebo. Elas aparecem a partir do século XVI e foram o enfeite de muitas festas nas cidades até o começo do século XIX.

Relação das faustíssimas festas que celebrou a Câmara da Vila de Nossa Senhora da Purificação e Santo Amaro da comarca da Bahia pelos augustíssimos desponsórios. Lisboa, 1762.

Também conhecidos como “corações” os “pães-por-deus” eram mensagens escritas em papel colorido, recortado na forma de caprichosas filigranas e pacientes rendilhados, alguns exigindo paciência e habilidade até mesmo para abri-los. No interior, em uma ou duas quadrinhas, o remetente pede ao destinatário um pão-por-deus, que deve ser uma dádiva qualquer. Esta prática precedia o Natal, e o momento de circulação destas mensagens eram os meses de outubro e novembro, ficando o destinatário na obrigação de enviar até o Natal um presente ao remetente (Cabral, 1949). Plácido Gomes (1949:14) transcreve duas quadrinhas típicas: “Sois bonita, delicada/ Foi dote que Deus vos deu/ Mais bonita sereis decerto/ Se me deres pampordeus”. Ou : “Aqui vai meu coração/ Nas asas de um passarinho/ Vai pedindo pampordeus/ Ao meu único amorzinho”.

Rugendas, em visita ao Brasil no início do século XIX, espantava-se com o numero exagerado de festas, assim como Ewbank. “Tão excessivo”, diz ele, “que absorvem mais de cem dias por ano” (Rugendas, 1972: 89). Confirma-se, assim, a longa duração do espírito que mesclava festas profanas e religiosas.

A morte de Tancredo Neves, por exemplo, deu ocasião, como mostraram Montes & Meyer (1985), a um tipo de manifestação que tinha todos os elementos da festa, exceto a alegria, do mesmo modo que o enterro do piloto brasileiro de Fórmula 1 Airton Senna.

Tereza Caldeira, em A política dos outros mostra claramente que para entender que é na política que se constróem e destroem cadeias significantes, é necessário conceber a política em termos mais amplos, como uma relação de forças, sem mediação obrigatória de instituições e aparelhos ligados ao Estado. Através deste jogo de forças podem ser criadas novas identidades que se liguem à idéia de participação política (diferentes da de trabalhador, católico e não-católico, homem ou mulher com papéis previamente determinados) e novos conteúdos para a noção de direito, que alarguem continuamente sua abrangência. As creches e escolas surgidas a partir da realização de festas são um bom exemplo disso. Caldeira observa ainda que mesmo que um destes conteúdos venha a se tornar hegemônico num dado momento e para um dado grupo, as repercussões disto não são previsíveis, pois quem aprende a esperar reconhecimento de seus direitos pode agir como cidadão por caminhos conservadores, liberais ou revolucionários. Ao aprendizado da noção de cidadania podem se juntar diferentes razões e experiências, produtos de histórias diversas (Caldeira, 1984).

O conceito de etnia que uso aqui é o proposto por Cohen (1978: 117): “Um grupo étnico é uma coletividade de pessoas que partilham alguns padrões de comportamento normativo, ou cultura, e que representam uma parcela de um grupo populacional mais amplo, interagindo no quadro de um sistema social comum como por exemplo o Estado. O termo etnicismo se refere especificamente ao grau de conformidade existente em relação a essas normas coletivas no processo de interação social”.

Apesar do cardápio e do ethos da festa, as comunidades não são formadas apenas por italianos. Segundo uma das responsáveis pela festa de Santo Emídio, da Vila Prudente, o bairro é um "cadinho" de miscigenação de imigrantes. "Aqui temos descendentes das mais diversas regiões do mundo: espanhóis, japoneses e, é claro, italianos" comenta .

Esta quantia representa um cálculo aproximado dos gastos gerais, não tendo sido arrecadada apenas em dinheiro mas também em mercadorias como farinha, ovos, vinhos etc., recolhidos pela comunidade. Soma-se, neste cálculo, o equivalente ao que cobram os artistas para a realização dos shows.

No ano de 1920 o padre responsável pela paróquia, por seu lado, relatou a festa ao vigário geral, dizendo que ela era apenas um pretexto para tirarem esmolas do povo, sem vantagens para a religião (Coimbra, 1987:80).

Segundo Mauss, a obrigação de dar é importante e recusar-se a dar, deixar de convidar ou recusar-se a receber eqüivale a declarar guerra; é recusar a aliança e a comunhão (Mauss, 1974).

Construído especialmente para abrigar a Festa, o Parque do Peão, oferece toda estrutura necessária para a realização de um evento deste porte. O recinto, cujo projeto leva a assinatura de Oscar Niemeyer, foi inaugurado em 1985, e já tem projetos para uma nova ampliação. Com muitos atrativos, o Parque abriga a maior arena de rodeio do mundo. Localizado no km 428 da Rodovia Brigadeiro Faria Lima, o Parque tem uma área de 1,3 milhões de metros quadrados e capacidade para 35.000 pessoas sentadas. Tem ainda um estacionamento de 121.000 metros quadrados, uma área de camping de 21.000 metros quadrados, onde os que vêm à festa podem dormir em barracas, a área do Memorial do Peão, com 1.600 metros quadrados e a da Queima do Alho, com 1.500 metros quadrados instalados em uma reserva florestal de 24.200 metros quadrados. Há ainda ranchos particulares de alguns “independentes” que somam 12 construções e 24.200 metros quadrados, o Berrantão, um pavilhão coberto de 1.800 metros quadrados, onde acontece o concurso de berrantes. (Folha de São Paulo 12/08/1996).

O público que comparece à festa é sempre maior que o estimado. A avaliação é do presidente do clube "Os Independentes" ,Mauri Abud Wohnrath, organizador do evento. Por isto, a festa obriga a cidade a manter infra-estrutura de hospedagem que ela nem sempre pode garantir. O aluguel das casas, em 1994, variava entre 70 e 100 dólares por dia, o camping Parque do Peão cobrava 250 dólares por pessoa e mais 300 por veículo para o final de semana. Nos hotéis duas estrelas um apartamento. para 3 pessoas custava 450 dólares por 4 dias e um de luxo para duas pessoas 500 dólares. Campeão de investimentos na Festa do Peão Boiadeiro de Barretos, o Bradesco chega a ser considerado o "patrocinador oficial do evento". Investiu 120 mil dólares na festa de 1996. O passatempo dos peões acabou se tornando um negócio milionário. Em 1994, 282 estandes foram alugados a preços que variavam entre 20 e 50 dólares o metro quadrado. A área média de cada estande é de 100 metros quadrados. Entre os expositores estavam McDonalds, Scânia, Toyota, Peugeot, Hering e Wrangler. A Brahma, única cerveja distribuída no parque, usou a festa como inspiração para criar uma lata de cerveja exclusiva que é vendida na região de Barretos desde esta época.(Folha de São Paulo, 06/08/1995).

E m 1994 a Festa do Peão de Barretos declarou sua independência, deixando de ser a etapa final do Circuito Espora de Ouro de Rodeios para se tornar um torneio de etapa única, onde os peões entram "zerados" (sem pontuação) na batalha pela vitória. "A festa agora está solteira", diz Emílio Carlos dos Santos o diretor de eventos do clube "Os Independentes" Sem exigir pontuação prévia a competição pôde incluir caubóis estrangeiros, o que no mínimo aumenta a expectativa com relação à performance dos peões brasileiros nas montarias em touros. Os peões de cavalos escaparam da concorrência internacional por uma questão técnica, já que as regras adotadas no Brasil diferem das aplicadas nos países de origem dos caubóis convidados. O prêmio em naquele ano, em vez dos disputados carros 0 km, foi a quantia de 120 mil dólares. (Folha de São Paulo 21/07/ 1994)

O Berrante é um instrumento feito de chifre de boi com detalhes em couro. Utilizado pelos peões, ele emite sons agudos e graves, e cada toque é uma senha, avisando a hora do almoço, o toque de recolher, toque de perigo e orienta o “sinueiro” (boi que comanda a boiada, boi experiente, esperto). Hoje, embora pouco utilizado para esta finalidade, o berrante ainda encanta turistas e visitantes da festa. Conseguir tirar um belo som do berrante exige muita habilidade do berranteiro.

No Yon Kippur, judeus confraternizam no bairro do Bom Retiro. Os irlandeses e seus descendentes realizam nos pubs paulistanos Finnegan's e Cocktail Factory (em Pinheiros e no Brooklin, respectivamente) a festa de Saint Patrick, santo do qual são muito devotos. Os portugueses se reúnem na festa "Abril em Portugal", realizada na Casa de Portugal ou no Centro Trasmontano, em que comem peixe e bebem vinho português, ao som de fados e viras. Os japoneses fazem festas religiosas e profanas (como o “Tanabata” - Festa das Estrelas) nas ruas decoradas com bambus e iluminadas com lanternas de papel, no bairro da Liberdade. Os norte-americanos e as escolas de inglês introduziram recentemente no calendário paulistano uma festa tipicamente americana: o Haloween, bastante apreciado pelas classes média e alta, que festejam em clubes, dançando fantasiadas. Os nordestinos de São Paulo comemoram efusivamente São João, Santo Antônio e São Pedro e têm realizado, atualmente, em junho, também o "tambor-de-crioula" e o "bumba-meu-boi" em suas casas, especialmente os maranhenses e paraenses. Eles também realizam festas no Centro de Tradições Nordestinas (CTN), no Bairro do Limão, ponto aglutinador deste grupo de migrantes em São Paulo. Grupos religiosos também fazem grandes festas com finalidades assistenciais e comemorativas: os umbandistas festejam Iemanjá (N. Sra. da Conceição ou dos Navegantes), deusa das águas, nas praias brasileiras, o orixá guerreiro Ogum (São Jorge) no Ginásio do Ibirapuera e, em várias ruas da periferia, São Cosme e São Damião. São Judas Tadeu, Santa Rita de Cássia e Santo Antônio também são comemorados em toda a cidade (Amaral, 1996).

Mello Moraes Filho diz que para as festas de São João eram realizados inúmeros intróitos. “Antecipadamente, viam-se nas ruas pretos de ganho com cestos carregados de foguetes e fogos de todo gênero, de canas e batatas-doces, de carás e milhos verdes, de galinhas, ovos e perus, de tudo enfim que dizia respeito à folia da noite aos lautos jantares e ceias que então se davam. Os fazendeiros despendiam boas somas, vestiam de novo a escravatura, matavam reses em obséquio dos convidados da corte. Em casa da Baronesa de Sorocaba, do Barão de Meriti, do Amaral e do Marquês de Abrantes, preludiavam-se os regozijos da noite desejada; no Palácio de São Cristóvão, as princesas recomendavam às companheiras de infância que comparecessem bem cedo; em vários pontos da cidade, os pais de família dispunham da lenha para as fogueiras, colocavam sobre a mesa os livros de sortes, encordoavam os violões para os descantes. As rodinhas, as pistolas, os foguetes, busca-pés, chuveiros, rojões, cartas de bichas, girassóis, traques de sete estouros, bombas e uma diversidade de fogos, alastravam as massas, entupiam as mangas de vidro, atravancavam as gavetas. De par com tudo isso, as donas de casa atropelavam as escravas, arrumando as provisões, ralando o milho verde e o coco para a canjica, fazendo deliciosos bolos de S. João. Nas antevésperas, na intimidade do lar, as moças reuniam-se à luz do candieiro, e os meninos, descendo aos pulos do sofá da sala, acercavam-se da avó, que tremendo os lábios, rolando nos dedos as contas do rosário, narrava, sentada numa esteira, a lenda do Batista e das fogueiras”.(Moraes Filho, 1979:77).

Câmara Cascudo anota que Santo Antônio recebeu patente, em Portugal, como capitão, em “Fortaleza da Barra, em 1706, alferes no bairro da Mouraria, em 1800, [...], sargento-mor em 1810 e tenente-coronel em 1814, com soldo [....] até 1907. Em São Paulo foi coronel. Capitão em Goiás. Soldado na Paraíba e Espírito Santo. Tenente-coronel no Rio de Janeiro em 1814. Capitão de cavalaria em Vila Rica (Ouro-Preto, Minas Gerais). Tenente no Recife [...] Vereador em Iguaçu, Pernambuco. Grão-cruz da Ordem de Cristo em 1814, dada pelo Príncipe regente D. João. Na Igreja de Santo Antônio na cidade de Natal (anterior a 1763) existe uma imagem do orago com o tratamento popular de capitão, embora desacompanhado de documentos.” (Cascudo, 1969; 126). Daí, deduz-se a extrema popularidade de Santo Antônio no Brasil, vindo especialmente da parte dos militares, que incentivavam seu culto.

A vinda de muitos nordestinos para o sudeste e o crescimento da presença da festa na mídia, que a descobriu como espetáculo, implicou num crescimento do São João também nesta região. Não apenas em Centros de Tradição, como o CTN de São Paulo (Centro de Tradições Nordestinas) ou CTG (Centro de Tradições Gaúchas), e bairros de periferia, mas, no caso de São Paulo, através da iniciativa dos próprios governos estadual e municipal, que incorporaram os eventos juninos à programação cultural oficial. Na capital paulista tem havido já ha alguns anos, no Vale do Anhangabau, uma festa junina promovida pela Secretaria Municipal de Cultura, que geralmente conta com a presença duplas sertanejas e artistas "regionais" como Sivuca, Renato Borguetti e o Quinteto Violado, Chitãozinho e Xororó e outros.. A festa começa numa sexta-feira (independentemente da data ser ou não dia de algum santo, pois o critério levado em conta é o fim da semana de trabalho e a possibilidade de se ficar acordado até tarde em função da festa) às 19 horas (para que aqueles que saem do trabalho às 18 também possam assistir), com a celebração da Missa do Vaqueiro - tradicional em Pernambuco, que revive a história de um vaqueiro que teria sido assassinado por um adversário. Durante a missa milhares de velas são acesas no Anhangabau e a missa encerrada por um show pirotécnico que dura cerca de 8 minutos. Nos dois dias a festa é "encerrada" com a apresentação de músicos de forró. As pessoas dançam no Vale, a maioria nordestino que vivem em São Paulo. De acordo com as informações da Secretaria Municipal de Cultura, comparecem à festa cerca de 35 mil pessoas por dia. A segurança do evento é feita por 200 guardas civis metropolitanos e permanecem à disposição quatro ambulâncias e um posto fixo de saúde.

A Oktoberfest de Blumenau tem muito a ver com esta perspectiva, pois é a partir de seu sucesso que se descobrem as festas típicas do país como produto cultural a ser oferecido aos turistas.

Pernambuco é, ao lado da Bahia, um dos estados mais festeiros do nordeste brasileiro, como atesta sua programação oficial (ver página 339 e seguintes deste trabalho). Em junho, esta programação é particularmente extensa.

O Caprichoso surgiu em função de uma promessa feita a São João, pelos irmãos Cid em troca de prosperidade. Atendidos pelo santo criaram o Boi-Bumbá Caprichoso em 20 de outubro de 1913. Por ser um boi de cor preta, foi denominado de "Diamante Negro", sendo simbolizado pelas cores azul e branca. Estas cores são utilizadas por seus adeptos como forma de filiação ao Caprichoso que só usam estas cores no tempo de festa, tanto no vestuário como em objetos pessoais, cores das casas, faixas, fitas etc..(1996, Site).

Em 1913, Lindolfo Monteverde fundou, em 12 de junho, o boi-bumbá Garantido. Tendo adoecido, mais tarde e feito uma promessa a São João Batista, de brincar com seu boi nas ruas no dia 24 de junho. Tendo recebido a graça, o Garantido passou a sair sempre nesta data e se tornou conhecido como o Boi da Promessa. Ao contrário do Caprichoso, o boi Garantido é de cor branca (Site).

As relações sociais e simbólicas envolvidas podem ser melhor avaliadas em termo dos acontecimentos da festa do que meramente em afirmações ou números sobre eles. Por esta razão, apesar de descrever os momentos mais importantes das festas, deixo de lado detalhes dos eventos descritos por diversos autores, extremamente saborosos à leitura (Brandão, 1952, 1973, 1976, 1977, 1989; Willems, 1940).

O mesmo autor diz que do “primitivo Círio como da primeira feira, nada resta” e reclama da “turbamulta dos devotos que enxameam ridiculamente em volta à santa em desrespeitoso desalinho, num atropelo e aglomeração pouco decentes e numa vozeria ensurdecedora” e diz ainda que, “a disputa dos logares faz-se violentamente aos encontrões, à viva força muitas vezes, entre homens e mulheres promiscuamente, sem recato e sem respeito” (Vianna, 1904: 327).

  José Salvio Leopoldi (1978: 49), em sua análise da organização das Escolas de Samba, estabelece uma distinção entre organização formal e organização carnavalesca. A primeira diz respeito à burocracia, à administração da Escola e, a segunda, vinculada à apresentação do desfile de carnaval em si. A Diretoria da festa de Nazaré desempenha, segundo Alves (1980), essas funções mais formais, no sentido de elaborar e dirigir o programa da festa e exerce também papel importante em sua realização. A diferença seria que no Carnaval tem-se uma organização que desfila competindo com outras, enquanto que na festa de Nazaré o conjunto da população que se movimenta. A preparação para a festa, por parte da população, acontece independentemente de sua administração oficial pela “Diretoria” e num sentido oposto. Isto é, enquanto a Diretoria coordena os eventos, as pessoas se preparam para viver a festa, o clima religioso e festivo, informal, de maior liberdade de ação, da recepção de turistas e renovação de relações.

Segundo Alves (1980), um coordenador foi o responsável, a partir de 1973, por uma série de medidas que diziam respeito à retomada de um maior controle sobre os eventos da festa. Nos dois anos anteriores predominou o que foi considerado pela direção dos festejos uma excessiva desordem e conseqüente desequilíbrio nas forças que movem o ritual. “A tentativa de dar novos rumos a festa [...] incorporou um modo de gestão [...] tecnocrata [que] objetiva racionalizar um acontecimento que em sua performance tende justamente ao contrário. Ao mesmo tempo, a gestão tecnocrata, reconhecendo o aspecto popular da festa procura exercer um controle através de medidas que chama de educativas e que nada mais são do que o engajamento, na festa, das manifestações da chamada ‘cultura erudita’ ou consagradas como manifestações intelectuais, e transformar o arraial também num ‘locus’ para demonstrações da ‘nova’ racionalidade político-econômica, através das exposições de órgãos públicos ou que congregam instituições privadas.” (Alves, 1980:33).

A Guarda da Santa foi criada para disciplinar o arraial sem usar ostensivamente um tipo de repressão policial. Esta preocupação foi expressa por um diretor da festa, diz Alves (1980: 83), que inclusive citou o fato de não “ficar bem”, num dia de Círio, o excesso policial contra os que vão na corda, local onde se prevê um certo nível de desordem, devido aos empurrões e à força da multidão em movimento. Diz ele: ”Eu vi, um ano, um pobre homem ser espancado junto à corda por policiais. As pessoas que fazem parte desta guarda [de N. Sra], têm a incumbência de evitar que alguém abuse de alguém. Dar um certo enfoque no sistema de policiamento, fiscalização e controle”.

Sidney Silva (1997), em seu estudo sobre a comunidade boliviana em São Paulo, mostra que este comportamento da Igreja não mudou muito, pois mesmo aceitando algumas das festas religiosas nativas deste grupo, tenta dele expurgar os aspectos considerados impróprios, como a ingestão bebida alcóolica.

O bispo Dom Antonio Macedo Costa, em 1879 publicou uma portaria proibindo o Círio e a festa que segundo seu modo de ver teriam se tornado “fonte perene de corrupção para o povo, de graves lástimas e desordens para as famílias, como eram as saturnais do paganismo”(Vianna, 1904:241).

Não inteiramente reproduzido por Alves.

Essa época corresponde às décadas de 40 e 50 sob o patrocínio de um dono de cassino, quando o jogo ainda era legal no Brasil. Felix Rocque construiu teatros, promoveu uma Grande Feira de Amostras do Pará e empresariou artistas como Orlando Silva, Gilda de Abreu, Vicente Celestino, a dupla Jararaca e Ratinho e outros (Rocque, 1974, apud Alves, 1980),

Historiadores da festa, como Artur Vianna (1904), o padre Florêncio Dubois, Ernesto Cruz (1945, 1952, 1967 citados por Alves, 1980) e outros, sempre procuram ressaltar a origem portuguesa da festa. Eidorfe Moreira mostra com mais clareza, contudo, e com uma visão antropológica mais ampla, os aspectos regionais e peculiares da festa. O termo Círio, entretanto, se transformou num termo que designa a procissão/festa de qualquer santo padroeiro de qualquer localidade no Estado do Pará. Assim, existe não apenas o Círio de Nossa Senhora de Nazaré em Belém, mas também outros Círios pelo interior do Pará, como o Círio de Nossa Senhora do Carmo, Círio de Nossa Senhora do Rosário, Círio de Nossa Senhora da Conceição etc. Estas procissões, diz Eidorfe Moreira, provocam intenso movimento demográfico no interior do Pará (Moreira, 1967).

Alves já observava, muito antes de o Círio se tornar o evento turístico que se tornou nos anos 90, que era possível encontrar pessoas as mais diferenciadas em todos sentidos, acompanhando a procissão. Segundo ele, as ocupações iam desde a doméstica, o pedreiro, operário, até o profissional liberal. Constatou ainda a participação de pessoas não-católicas ou que se declaravam atéias e algumas que, embora se definindo como católicas, usavam roupas de filhos-de-santos ou típicas do culto umbandista. Portanto, se no nível do espaço em que se movimenta a santa na procissão é possível o controle por parte da diretoria da festa quanto à participação dos macumbeiros, isso é impossível, ainda mais quando estas pessoas se dizem católicas e devotas de Nossa Senhora de Nazaré (Alves, 1980).

Acontecem outras procissões, menores durante os quinze dias, como a procissão náutica, a do domingo da festa e o Recírio.
 


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