Este texto faz parte da tese de Doutoramento em Antropologia Social de Rita Amaral, Festa à Brasileira - sentidos do festejar no país que "não é sério" defendida junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Brasil, no ano de 1998. Veja como citá-la clicando
"No Brasil tudo acaba em Festa".
Quando se ouvem afirmações deste tipo, freqüentemente indignadas, sobre o caráter nacional, a impressão que se tem é a de que, por trás delas, existe a percepção de uma atitude francamente inconseqüente, por parte dos brasileiros, em relação aos rumos que tomam as ações dos indivíduos, grupos e instituições. No episódio do impeachment sob acusação de corrupção do então presidente da República Fernando Collor de Mello, eram freqüentes as opiniões de que tudo acabaria "em pizza", "em carnaval" ou "em festa", significando que ninguém seria responsabilizado ou punido, como sempre acontece no Brasil. Nestes casos, a associação do caráter brasileiro à festa aponta para a concepção de uma certa alienação, uma certa displicência e tendência ao descaso com a lei e a ordem, imediatamente referidas ao Carnaval (notadamente um rito de inversão) e às inúmeras festas aqui realizadas, significando que um mundo às avessas nos é familiar ou pelo menos aceito sem maiores problemas. Somos considerados, no exterior, o "país do carnaval" (e o dicionário registra que a palavra carnaval também significa “confusão, desordem, trapalhada”). O país das festas. Da inconseqüência e alegre irresponsabilidade. "O Brasil", teria afirmado o presidente da França Charles De Gaulle, "não é um país sério". No entanto, se a festa é, de fato, um forte elemento constitutivo do modo de vida brasileiro, não devemos esquecer que ela se dá de modos e com fundamentos diferentes para os vários grupos que a realizam. É preciso, então, compreender do que estamos falando quando dizemos que no Brasil tudo acaba em Festa, como se ela fosse sempre o objetivo a ser alcançado ou, na perspectiva mais negativa, o final inevitável a que geralmente chegamos, apesar de nossos esforços e sacrifícios para que tudo nos saia bem. Devemos entender de que tipo de festa se está falando, como é produzida e com que finalidades e, mais ainda, qual o significado dela para os que a produzem e para o povo brasileiro que, de fato, quantitativamente, realiza muitas festas, conforme se pode notar nos calendários .
A hipótese da qual parti, neste trabalho, é a de que as festas ocupam um espaço privilegiado na cultura brasileira (entendida como um conjunto de valores compartilhados em todas as regiões do país) adquirindo, no entanto, significados particulares. Tendo sido, desde o período colonial, um fator constitutivo de relações e modos de ação e comportamento, ela é uma das linguagens favoritas do povo brasileiro. Para ela são traduzidas muitas de suas experiências, expectativas de futuro e imagens sociais. Ela é capaz de, conforme o contexto, diluir, cristalizar, celebrar, ironizar, ritualizar ou sacralizar a experiência social particular dos grupos que a realizam. É ainda o modo de se resolver, ao menos no plano simbólico, algumas das contradições da vida social, revelando-se como poderosa mediação entre estruturas econômicas, simbólicas e míticas e outras, aparentemente inconciliáveis. O festejar brasileiro, por suas características peculiares pode ser considerado até mesmo, contrariamente à idéia de “alienação” que o envolve, como uma dimensão de aprendizado da cidadania e apropriação de sua história por parte do povo.
A segunda hipótese diz respeito à análise das potencialidades da festa brasileira resultantes da relação entre sua produção constante e as práticas que ela enseja. Minha tese é a de que, longe de ser um fenômeno de distanciamento da realidade, fuga psicológica etc., cujo resultado seria negar ou reiterar o modo pelo qual a sociedade se encontra organizada, nossas festas são capazes de estabelecer a mediação entre a utopia e a ação transformadora, pois através da vontade de realização da festa muitos grupos se organizam, em nível local, chegando até mesmo a crescer política e economicamente, ainda que em modo local. A organização para a festa tem visado, inclusive, muitas vezes, atingir finalidades específicas, de ordem social, passando esta organização primária a existir como instituição oficial. Os exemplos da Festa da Achiropita em São Paulo, da Oktoberfest em Blumenau e do Círio de Nazaré em Belém (e muitas outras) demonstram isso. A festa "à brasileira" não apenas não nega exclusivamente os valores sociais, podendo celebrá-los, inclusive, como também não os reitera, apenas, como querem as principais teorias sobre festas. Sendo, antes, a mediação entre ambas intenções (e muitas outras), nega os aspectos da sociedade em que ela se mostra deletéria à vida humana, ao mesmo tempo em que reafirma muitos valores do povo brasileiro, como projeto social ou como utopia.
A terceira hipótese é a de que as festas vêm se tornando um excelente negócio. O forte apelo turístico que lhes é peculiar, especialmente quando elas apresentam particularidades regionais, mitos religiosos ou simplesmente a vontade de dançar, cantar e beber, tem se mostrado capaz de gerar milhões de dólares em divisas, conforme os relatórios da Embratur, que vem desenvolvendo projetos de incentivo ao desenvolvimento de festas em pequenas cidades carentes de recursos. Portanto a festa adquire tríplice importância: por sua dimensão cultural (no sentido de colocar em cena valores, projetos, arte e devoção do povo brasileiro), como modelo de ação popular (no sentido de que ela tem sido, em muitas ocasiões o modo de concentração e investimento de riquezas - investimento feito em benefícios sociais, como creches e escolas) e como espetáculo, produto turístico capaz de revigorar a economia de muitas cidades, como tento demonstrar aqui.
Na primeira parte do trabalho, elenco as principais idéias e teorias que têm sido discutidas em relação às festas em Antropologia e defendo a tese de que a festa “à brasileira” constitui uma mediação entre diferentes dimensões culturais, categorias e símbolos. Deste modo ela também é mediação entre os dois principais modelos antropológicos de entendimento deste fenômeno. Sugiro, então, ler a festa como síntese de mediações.
Como as festas se referem em geral à história e aos mitos (celebrações de datas cívicas, colonização, ou ainda a fenômenos religiosos, como o aparecimento de santos, milagres etc.), é praticamente impossível falar nelas sem recorrer a estes temas. Especialmente no Brasil, formado por uma riquíssima diversidade cultural, o tema festa inevitavelmente nos remete à sua gênese, no período colonial, como festa de caráter singular, composta por contribuições negras e indígenas que se somaram ao modelo de festa (religiosa, processional) que os colonizadores portugueses implantaram como modo de estabelecer a mediação entre a Coroa e os novos, e extremamente diferentes, súditos. Sendo mediação privilegiada por conter em si a síntese de mediações diversas, a festa se mostrou, no período colonial, como tradução, ponte forte entre culturas, já que todas elas conheciam e compreendiam, apesar da diversidade, este termo universal. Na festa, como tento mostrar no capítulo II (a partir basicamente do trabalho de Mary Del Priore - minha fonte principal por ser um dos trabalhos mais informativos sobre o período em questão - , da literatura dos viajantes do período colonial e folcloristas), a sociedade brasileira constituiu-se estabelecendo trocas que se revelam importantes até hoje. Remonta a esta época, portanto, o interesse geral dos brasileiros pela festa, momento de liberdade e ultrapassamento de limites, já que tanto negros escravos, índios e outros grupos menos privilegiados participavam dela, descobrindo ou forçando pequenos espaços para sua inclusão e a de seus valores na cultura em formação. Tento mostrar também que os brasileiros foram aos poucos se apropriando da festa (que era controlada basicamente pelo Estado e a Igreja) de modo particular, captando e fazendo uso do seu sentido de construção, elaboração da identidade e solidariedade entre os diferentes, a ponto de fazer dela um modo de ação e participação particularmente marcante na história dos brasileiros.
Para demonstrar minhas afirmações de que a festa é capaz de se mostrar como apreensão do sentido da cidadania, por meio do aprendizado da história do país ou de grupos particulares, proporcionando um despertar da consciência dos direitos e deveres, do relacionamento com a burocracia de Estado e do sentimento de brasilidade em suas múltiplas facetas, escolhi cinco grandes festas ou ciclo de festas, distribuídas pelas cinco regiões brasileiras. A escolha foi feita tomando como base o poder de atração de algumas festas nas regiões em que acontecem (sua popularidade, portanto), e o tempo de sua realização. Todas as festas escolhidas duram cerca de quinze dias, com exceção da Festa do Divino que, apesar de se realizar durante uma semana, já apresenta eventos festivos pelo menos quinze dias antes disso, quando a Bandeira do Divino percorre as cidades para arrecadar recursos. Deste modo ela se une às demais em duração, sendo todas marcadas por vários acontecimentos que pontuam o tempo da festa.
Começo pela região sul, por acontecer ali uma festa de origem recente, profana e que nasceu exclusivamente da iniciativa popular. Principal festa da região sul, a Oktoberfest de Blumenau (SC) tornou-se o pólo de atração das populações de Estados e municípios vizinhos no mês de outubro. Apesar de ser uma cidade do interior, recebe milhões de pessoas de todas as regiões do país nos quinze dias em que realiza sua festa do chope, que se tornou poderoso evento turístico e transformou a cidade, constituindo-se, inclusive, num modelo que vem sendo seguido por outras cidades de sul, que também criaram festas do mesmo estilo a fim de angariar recursos para diversas atividades.
Na região sudeste as festas paulistas de Nossa Senhora de Achiropita, na capital, e a de Peão Boiadeiro, em Barretos, demonstram o processo de criação de duas festas e suas razões. No primeiro caso, a construção de uma igreja, tendo a impulsioná-la a religiosidade e a afirmação da identidade cultural italiana no Brasil e, no segundo, a deliberação pela festa como modo de ação para angariar recursos a serem investidos em atividades sociais beneficentes, já a partir da constatação de que ela é um meio de concentração e redistribuição de bens e valorização de uma versão regional da identidade “rural”. Ambas também são capazes de mostrar o aprendizado da negociação com o Estado, os patrocinadores e o paulatino aprendizado de sofisticadas instâncias de negociações a partir da participação no processo de produção da festa. O caso da Achiropita mostra ainda o tipo de investimento feito a partir dos recursos angariados na festa: prioritariamente em obras sociais, área em que o Estado se mostra mais deficiente e ausente. A partir das duas festas se criaram creches, asilos, postos de saúde, escolas e centros de apoio. Optei por não abordar o Carnaval como objeto de análise nesta região, onde ele se mostra como um excelente exemplo de organização popular para a festa, em primeiro lugar por considerar que é uma festa nacional, e não regional, sendo intensamente festejado em toda parte. Além disso, há também os carnavais fora de época, que não implicam exatamente o mesmo tipo de organização que uma escola de samba ou um bloco de afoxé, frevo ou maracatu. Como já foi exaustivamente discutido por vários autores, sob diferentes ângulos (organização, simbolismo, relações raciais etc.), optei por não discorrer sobre ele senão com respeito ao fato de oferecer diversos elementos de refência para as demais festas, como será possível notar.
No nordeste, as festas juninas são milhares, acontecendo com euforia e apego, e escolhi representá-las especificamente através do São João de Caruaru (Pernambuco), que se intitula “o maior São João do Mundo”, (o que Campina Grande, na Paraíba, também proclama a respeito de sua festa junina, gerando uma competição que faz as duas festas crescerem ano a ano). Este evento revela não apenas a capacidade de organização regional para a festa, mas a transformação de uma tradição extremamente popular num poderoso evento turístico, com características particulares, que o tornam especialmente atraente. No mês de junho acontece um verdadeiro refluxo da migração, com nordestinos chegando de todas as partes do Brasil para as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro. O São João de Caruaru é ainda um forte exemplo da transformação pela qual a festa vem passando. Ao mesmo tempo em que é modo de ação, homenageia os santos, revigora tradições e é capaz de ser extremamente divertida e lucrativa, atraindo atualmente milhões de turistas de todo o país que vão à “capital do forró” dançar durante quinze dias ao som de sanfonas e zabumbas.
Na região norte, o Círio de Nazaré, em Belém do Pará, conhecido também como “carnaval devoto” é a grande festa, capaz de atrair durante os quinze dias em que se realiza, a população dos estados vizinhos, da região nordeste e atualmente até do sul país. A população amazônica em geral se dirige à grande festa de Belém, a fim de participar das várias e gigantescas procissões, uma delas com mais de um milhão de pessoas nas ruas, e que termina com um grande almoço em que toda a cidade come o mesmo prato típico, embora cada família o faça em sua casa. Esta festa mostra as mediações simbólicas entre sagrado e profano e, ainda, que ela é capaz de proporcionar o aprendizado da burocracia e de instâncias políticas (em nível local, regional e nacional), das relações entre poder da igreja e poder de pressão dos leigos, das hierarquias, da resolução de conflitos entre vontades e perspectivas e, principalmente, revela o poderoso caráter lúdico da parte profana da festa para a Virgem. O Círio de Nazaré é capaz, ainda, de render milhões aos cofres da igreja e da prefeitura que podem então investi-los na melhoria da cidade e das condições de vida popular. É uma festa capaz de demonstrar claramente o caráter de fato social total das festas deste porte.
O centro-oeste brasileiro não chega a ter uma festa de mesmas proporções, resultado, talvez, de sua fraca densidade populacional, urbanização recente e do tipo de atividade local, em geral a pecuária de grandes extensões. Porém, o conjunto de comemorações da Festa do Divino, que acontece em quase todos os municípios da região, permite vê-la como uma única festa em vários lugares. Ela parece ser o contraponto da festa com potenciais turísticos, embora em algumas cidades, como Pirenópolis e Mossâmedes, já seja tida como evento atrativo de turistas, especialmente para assistirem às populares Cavalhadas. A procissão, entretanto, ainda parece ser coisa para os moradores locais. Mas nem assim a festa perde seu potencial construtivo e passa a ser unicamente devoção ou divertimento. As Festas do Divino são importantes fontes de prestígio político local, de micro-políticas sutis e de aprendizado democrático. E, fundamentalmente, são capazes de revelar o potencial de organização e solidariedade fundamentais à organização de uma festa e de um grupo social.
Em cada uma destas festas, foram sublinhados certos aspectos (organização, micro-política local, economia da festa, investimentos dos recursos, simbolismo), a fim de evitar que o texto se tornasse repetitivo e cansativo.
Dadas as características da pesquisa, a abordagem que se mostrou mais adequada, foi a interpretativa. Comparando os dados e interpretando-os foi que cheguei à conclusão de que a festa brasileira não pode ser vista sob o ângulo da mera “alienação, do desperdício ou da “irresponsabilidade”, mesmo quando estes adjetivos são presumidamente utilizados “a favor” do amor brasileiro pelas festas. Nossa festa, além de ser uma linguagem capaz de expressar simultaneamente múltiplos planos simbólicos é, ainda, uma mediação capaz de tornar compreensível a vida num país em que as contradições de todos os tipos são realçadas diariamente. E, finalmente, a festa pode ser entendida até mesmo como um modo de ação coletiva que pode responder à necessidade de superação das dificuldades dos grupos e das regiões onde se inserem e, mais ainda, tem se revelado um grande e lucrativo negócio, razão para que as festas cresçam mais e mais.
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