Este texto faz parte da tese de Doutoramento em Antropologia Social de Rita Amaral, Festa à Brasileira - sentidos do festejar no país que "não é sério" defendida junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Brasil, no ano de 1998. Veja como citá-la clicando
“Olha, lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu,
As mulheres cantando, tiram verso
E os homens, escutando, tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu..”
(“Procissão” de Gilberto Gil)
Todas as referências à origem da festa do Círio de Nazaré remetem à lenda do aparecimento da imagem de N. Sra de Nazaré, com poderes miraculosos, achada por um caboclo. Conta-se, em livros, edições especiais de jornais, artigos e outros escritos, que Plácido José de Souza era um caboclo da região, filho de um português e uma índia nativa. Era agricultor e caçador, e possuía um sítio na estrada do Maranhão (hoje Bairro de Nazaré). Num certo dia de outubro de 1700, Plácido saiu para caçar na região do igarapé Murutucu (onde hoje é a Basílica). Depois de muito caminhar pela mata, parou para refrescar-se nas águas do igarapé. Ao levantar a cabeça, enxergou a imagem de Nossa Senhora entre as pedras cheias de lodo. Católico fervoroso, Plácido levou a santa para o barraco onde morava e ali, em um altar humilde, passou a venerar Nossa Senhora.Procurada pelos viajantes que passavam pela estrada do Maranhão, a casa de Plácido tornou-se lugar de culto a Nossa Senhora. Sabendo de seus milagres, muitos devotos iam rezar, pagar promessas e agradecer os milagres alcançados. Uma das passagens mais importantes do história de N. Sra. de Nazaré, constantemente citada como justificativa da construção da Basílica no lugar onde se encontra, diz respeito ao eventos chamados pelo povo de “sumiço da santa”. Diz-se que no dia seguinte àquele em que foi encontrada, a imagem não amanheceu no altar da casa de Plácido. Sem saber o que acontecera, este saiu andando pela estrada indo parar às margens do Murutucu. Para sua surpresa, a imagem estava novamente entre as pedras. Diz-se que a santa sumiu outras vezes, quando retirada dali.
Esta história chegou aos ouvidos do governador da época, que ordenou que se levasse a imagem para o Palácio do Governo, onde ficou sob intensa vigilância. Pela manhã, contudo, o altar estava vazio. Impressionados com o milagre, os devotos concluíram que Nossa Senhora queria ficar às margens do igarapé. E ali foi onde construíram uma ermida, ao lado da qual o caboclo Plácido ergueu sua nova casa. Com o passar do tempo, os milagres foram aumentando, trazendo à cidade gente de vários lugarejos do interior, e a imagem acabou indo parar em Belém.
Naquela época, os viajantes que passavam pela casa de Plácido vinham do Maranhão ou da Vigia (cerca de 200 quilômetros distante de Belém), onde já havia o culto a Nossa Senhora. Talvez algum devoto, após a viagem, tenha parado no igarapé e deixado a imagem da santa nas pedras, mas isto não importa. Depois de um longo processo de reconhecimento dos milagres da santa e da devoção local por parte da igreja, em setembro de 1790, chegou a autorização para a realização de homenagens à santa conforme o Ritual Litúrgico. Foi então que o governador Francisco Coutinho pensou em fazer uma procissão pela cidade. Dias antes da romaria, porém, o governador adoeceu. Prometeu, então, à santa que, caso se recuperasse, ele mesmo levaria a imagem até a capela do Palácio. Restabelecido, cumpriu sua promessa e na madrugada de 8 de setembro de 1790, a Virgem chegou ao Palácio. Ao amanhecer, a população de Belém se preparava para o primeiro Círio de Nossa Senhora de Nazaré.
No mesmo dia, à tarde,após a celebração da missa, o governador carregou a imagem da santa, apresentando-a à população e entregando-a ao capelão do Palácio. Teve início, então, a procissão com a tropa da cidade à frente, seguida pelos esquadrões de cavalaria, batalhões de infantaria, duas filas de cavaleiros em traje de gala, várias seges e serpentinas transportando as senhoras. O palanquim, puxado por bois e ornamentado com flores - que conduzia o padre com a santa percorreu o trajeto cercado por romeiros, o governador, com um grande círio, os membros das Casas Civis e Militar (todos uniformizados e à cavalo) e, por último, as baterias de artilharia. Escrevendo a respeito do primeiro Círio, diz Artur Vianna:
“A imagem foi transportada na véspera d’aquele dia à noite da ermida para o palácio do governo. Pela iluminação de azeite da cidade, escoou-se a multidão que cercava o carro da santa até desembocar no largo da Campina, então sem as suas lâmpadas de arco voltaico, sem o seu belo teatro, sem seus circos e restaurantes, e apenas com seu belo cemitério, lúgubre, onde jaziam cadáveres dos infelizes escravos e dos pobres flagelados pela varíola. [...] No dia seguinte, à tarde, com todo o esplendor possível a uma estréia, desfilou do palácio a romaria; na frente e no couce marchava toda a tropa da cidade” (Vianna, 1904: 237).Desde sua instituição, o Círio era realizado à tarde, prolongando-se pela noite. O costume mudou em 1853 quando, ao atingir o Largo da Pólvora (atual Praça da República), a romaria foi atingida por uma violenta chuva. A imagem da santa foi levada às pressas pela tropa até a ermida, a mando do comandante das armas. Para evitar a possibilidade da chuva, o Círio passou a ser realizado durante a manhã, horário em que raras vezes chove em Belém.Em 1855, baía transbordou às vésperas da procissão do Círio, transformando as ruas próximas em verdadeiros lamaçais. Durante a procissão o carro puxado por bois, que conduzia a berlinda, não conseguia passar. Alguém teve então a idéia de que seria melhor desatrelar os bois, passar uma corda em volta da berlinda e sair puxando até desatolar. Puxada pelos fiéis, a berlinda saiu do atoleiro no alagado do Piri, no Ver-o-Peso, e chegou ao Largo das Mercês. Desse modo foi levada até a ermida. Esta prática foi incorporada e, com o passar dos anos, os romeiros continuaram a usar cordas e a força dos braços para vencer os obstáculos do caminho, até que em 1868, a diretoria da festa decidiu oficializar a corda no Círio. O fato provocou alguns protestos, mas com o tempo se tornou a maior tradição da romaria.
Desde o início, o Círio de Nazaré saía da capela do Palácio do governo, para onde a imagem era levada na véspera, durante a transladação. Em 1882, no entanto, o bispo e o governador da Província, chegaram à conclusão de que a catedral da Sé seria o melhor lugar para a saída da procissão.
Em 1886, a Sagrada Congregação dos Ritos transferiu a festa de Nazaré para o último domingo de outubro. Em 1901, o bispo fixou o segundo domingo como data oficial do Círio. Coube ao poeta maranhense Euclides Farias que vivia em Belém, compor o Hino a Nossa Senhora de Nazaré, no ano do lançamento da pedra fundamental da nova igreja que se decidiu construir, mais suntuosa e ampla. "Vós sois o lírio mimoso" agradou muito aos fiéis e se transformou no Hino Oficial do Círio. Em dez estrofes, o poeta canta as virtudes da Virgem de Nazaré e pede sua benção.
HINO DE N. SRA. DE NAZARÉ(Euclides Farias)“Vós sois o lírio mimoso
do mais suave perfume,
que ao lado do Santo Esposo
a castidade resume.Ó Virgem Mãe amorosa,
fonte de amor e de fé
dai-nos a benção bondosa, [Refrão]
Senhora de Nazaré [Bis]De vossos olhos o pranto
é como gota de orvalho
Que dá beleza e encanto
à flor pendente do galhoSe em vossos lábios divinos,
um doce riso desponta,
nos esplendores dos hinos
nossa alma ao céu remontaVós sois a flor da inocência,
que nossa vida embalsama,
com suavíssima essência
que sobre nos se derramaQuando na vida sofremos
a mais atroz amargura,
de vossas mãos recebemos
a confortável doçura.Vos sois a ridente aurora
de divinais esplendores
que a luz da fé avigora
nas almas dos pecadores.Quando em suspiros e ais
sentimos a vida morta
nessas angústias finais
o vosso amor nos confortaSede bendita, senhora,
farol da eterna bonança
nos altos céus, onde mora
a luz da nossa esperançaE lá da celeste altura,
no vosso trono de luz,
dai-nos a paz e ventura
do nosso amado Jesus.”
Com linhas arquitetônicas seguindo o estilo romano, o templo tem 62 metros de comprimento e 20 de altura. O interior tem a nave central e duas naves laterais, divididas por 36 colunas de granito róseo. As doações em dinheiro feitas pelos devotos, incluindo os romeiros que vinham do interior, foram fundamentais para a construção da igreja. A inauguração aconteceu em outubro de 1941, já com o título de Basílica, que recebeu em 1923. Desde 1920, porém, a imagem da santa está em seu novo altar .
A Festa do Círio como evento total
O Círio é um conjunto ou seqüência de rituais, podendo ser entendido, todo ele, como um ritual complexo (Alves, 1980), com desdobramentos de eventos que combinam os mesmos elementos. Ele mobiliza toda a cidade de Belém e faz dela, durante os quinze dias em que se realiza, o pólo de atração de romeiros de todo o norte e nordeste do país, alcançando, atualmente, também os romeiros de outros estados e ainda turistas de todo o mundo. A festa do Círio de Nazaré já é reconhecida entre as maiores do mundo. Toda a cidade de Belém, portanto, católica ou não, se vê envolvida pela perspectiva da festa, seja em termos sociais (a volta para a festa dos parentes que vivem distantes, a chegada de um enorme contingente de pessoas que ocupam a cidade, os novos conhecimentos etc) ou em termos econômicos (serviços de hotelaria, comércio de artefatos, turismo de todo tipo, transporte, restaurantes e toda infra-estrutura necessária à recepção dos convidados da festa, romeiros e pagadores de promessas) ou mesmo religiosos (mesmo outras religiões devem se posicionar com relação ao Círio, manifestação gigantesca de fé católica, totalizante, que impressiona fortemente os que assistem ao evento). Toda a região entra em movimento a partir da perspectiva da festa.Três eventos, contudo, podem ser entendidos como mais significativos e organizadores dos demais, dentro da festa:
A procissão do Círio, propriamente dita, é evento principal. Ela abre o Círio, que reúne aproximadamente um milhão e meio de pessoas nas ruas de Belém. É um evento prolongado, pois o percurso da procissão ao ser percorrido por milhares de pessoas simultaneamente, demora horas. A festa, entretanto, continua durante quinze dias, especialmente nos eventos localizados no “Arraial do Círio”, montado no Largo de Nazaré.
- As procissões, com a do Círio servindo de paradigma;
- O arraial ou festa propriamente dita, que coloca em relação o sagrado (missas, novenas, romarias) e o profano (um parque de diversões, entretenimento e o arraial no Largo de Nazaré);
- O almoço do Círio.
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O arraial funciona nos quinze dias da festa, com bares, barracas, parque de diversões, comidas típicas regionais e o movimento de pessoas que circulam o dia inteiro pelo largo. No último domingo da quinzena realiza-se outra procissão e, na segunda-feira que se segue, o Recírio.
Como acontece com todas as grandes festas é necessário que seja tomado um conjunto de providências, o que é feito por uma organização formalmente estabelecida . A Festa de Nazaré(como muitas vezes é chamada), do mesmo modo, começa sempre muito anteriormente à data do evento e, no caso do Círio, os responsáveis por sua organização se reúnem no que chamam de “Diretoria da festa”, a quem a Igreja delega poder e que é a responsável pelos contatos com as autoridades locais e estabelecimento da ordem dos festejos.A diretoria da festa é composta por cerca de trinta membros que se dividem em funções administrativas e em comissões. As principais, do ponto de vista da tomada de decisões são:
- presidente: sempre o vigário da paróquia de Nazaré
- coordenador
- dois secretários
- dois tesoureiros
- um diretor de patrimônio.
Os demais membros da diretoria se distribuem em doze comissões:
Comissão do arraial, de procissões, de culto, de divulgação e relações públicas, da barraca da santa, da preparação da berlinda e carros, de instalação dos serviços de som, de organização do programa da festa, de decoração da cidade, de decoração do arraial, de promoção artística, de organização das exposições. Estas comissões, pela quantidade e qualidade das atividades cobrem um campo bastante amplo e implicam relações formais com o poder municipal e estadual. Implicam ainda um alto grau de comunicabilidade, integração e organização entre elas, a fim de que a festa seja bem sucedida. Para isto, são divididas em executivas e especiais às quais se juntam as comissões arrecadadoras que mobilizam todos os diretores para um trabalho de levantamento de fundos em toda a cidade que, para tanto, é dividida em zonas.A diretoria da festa é constituída por industriais, comerciantes, militares, profissionais liberais, altos funcionários públicos e afins. Formalmente, a escolha da diretoria é da competência do Arcebispo de Belém, que segue as sugestões da paróquia de Nazaré. Os diretores e o coordenador fazem as indicações dos demais membros. Alguns nomes permanecem na diretoria por anos seguidos, trazendo assim sua experiência executiva para a realização do evento. Isidoro Alves diz que há uma tendência em manter a grande maioria dos diretores, o que pode significar, de todo modo, um maior grau de coesão (Alves, 1980). A diretoria compatibiliza ainda, no nível organizacional, dois campos de poder concorrentes na festa: o religioso e político. E faz também as mediações entre a ordem que a orientação eclesiástica pretende imprimir à festa e a vontade de manifestação popular, que acontece durante a festa.
“Nem sempre [...]as relações entre a Diretoria da festa e a autoridade eclesiástica foram harmônicas na história da festa. Constituída não nos moldes de agora [1980], mas enquanto Confraria de Nazaré, a direção dos festejos durante a primeira grande ‘questão do Círio’, quando D. Macedo Costa em 1877 a proibiu como uma festa religiosa, foi nitidamente contrária à decisão do bispado. Nesse momento, coloca-se ao lado do poder político que, em época de conflito, disputa mais claramente a consagração com o outro poder concorrente”. (Alves, 1980: 34).
Entre as diversas ações da diretoria está a criação da “Guarda de Nossa Senhora” (ou Guarda da Santa ), uma “corporação de voluntários” aos quais cabe a função de acercar-se da berlinda, que é puxada por eles, pessoalmente e, também, a de zelar pela disciplina na corda e no arraial. A criação da guarda de Nossa Senhora corresponde a uma tentativa da diretoria de organizar um modo de controle sobre as manifestações que geralmente lhe escapam ou que seriam exercidas pela polícia. Como a ação da diretoria não pode se confundir com a ação repressiva, uma vez que ela não recebe ordens do Estado e sua função é equilibrar a ordem religiosa com a manifestação popular, a guarda da santa exerce esta função. A Guarda de Nossa Senhora reúne membros pertencentes às camadas mais pobres na hierarquia social belenense, embora não exclusivamente. Sua ação no arraial também corresponde ao mandato que a diretoria recebe quando a Prefeitura Municipal de Belém lhe transfere o Largo de Nazaré, ou seja, a área da praça em frente à igreja.Durante a festa a diretoria passa a ser a “dona” da praça no sentido de que pode alugar espaços aos que desejem ali se localizar e, conseqüentemente, ordenar o arraial segundo sua vontade, hierarquizando posições, demarcando a circulação através da disposição das barracas e demais eventos. Assim, “na medida em que a Direção da Festa responde pela área que ritualmente representa a ‘cidade’ e para onde converge a atenção da população durante os 15 dias e noites, ela cria um corpo para atuar no nível do arraial, isto é, da manifestação coletiva.” (Alves, 1980: 34).
Segundo Vianna, o primeiro arraial foi uma feira. O capitão-general do Rio Negro e do Grão-Pará, D. Francisco Coutinho autorizou que se inaugurasse no Largo de Nazaré uma grande feira de produtos agrícolas e industriais do Estado à qual pudessem estar presentes todos os agricultores, inclusive os índios.
“ordenava-se que em fins de agosto de cada ano deviam achar-se em Belém todas as canoas que tivessem subido ao comércio do sertão; que os diretores providenciassem de modo a ser facultado a oito ou dez indivíduos de um e outro sexo nas povoações grandes e a quatro ou seis nas povoações pequenas o embarque para a capital, a fim de virem a feira de Nazaré vender seus produtos e os dos outros que lhes desse incumbência de vendê-los”. (Vianna, 1904: 324/25).
Segundo Alves, o arraial do Círio é um local onde se pode encontrar os mais diferentes tipos de comércio. Diz ele que o arraial é o lugar onde acontece, de fato, a festa, como ponto de encontro, diversão e comemoração. É para o arraial que se dirigem as pessoas que participam do Círio nos momentos em que não acontecem as missas, procissões e outras cerimônias religiosas da festa. Com barracas de comidas típicas, jogos, dança etc., pode-se dizer que predomina o caráter de uma grande feira que objetiva, atualmente, vender o que Alves chama de “idéia do desenvolvimento de Belém”, através dos estandes para exposições patrocinadas pelo Governo do Pará e outros órgãos públicos e empresas. (Alves, 1980, Site).
A principal atração do arraial são “brinquedos”, termo que designa o parque de diversão, barracas pequenas e grandes destinadas à venda de bebidas e comidas como o tacacá, pato no tucupi, maniçoba, vatapá etc. E entre as mercadorias do arraial, os brinquedos de buriti, feitos artesanalmente nas cidades do interior do Pará. Os “brinquedos do Círio” são um espetáculo à parte durante as festividades de Nossa Senhora de Nazaré e se tornaram elemento indispensável da “quadra nazarena”. Sãoserpentes, aves, barcos, carrosséis, bonecos, feitos de caranã - a polpa dos galhos de uma palmeira, conhecida por miriti ou buritie pintados com cores fortes. Os brinquedos são fabricados em Belém e outras localidades, mas a maior parte vem do município vizinho de Abaetetuba. A chegada dos brinquedos em Belém já se transformou em mais uma atração da festa. No sábado, chegam as embarcações com os brinquedos e todos os vendedores se reúnem no Largo do Carmo, na Cidade Velha, primeiro bairro da capital, onde os brinquedos são colocados em girândolas. Os vendedores ganham as ruas da cidade, dando um colorido único à festa.
Se as noites do arraial são momentos de encontro, circulação, namoro e várias atividades que por sua própria natureza não podem estar sob o controle da diretoria da festa, algumas delas exigindo, por vezes, a intervenção da polícia e da Guarda da Santa, o universo do arraial não é um universo desordenado, havendo mesmo uma hierarquia das barracas no que diz respeito à sua localização.
“Assim pode-se notar [...]que a Barraca da Santa se localiza ao lado da igreja e todas as noites tem um patrocínio, os noitários [...].À Barraca da Santa acorrem normalmente as camadas mais altas da sociedade, os de maior poder aquisitivo, as autoridades, os altos funcionários. Normalmente as mesas são vendidas com antecedência e na maioria das vezes em caráter ‘compulsório’, como nas noites patrocinadas pela Universidade Federal do Pará, [...] etc, isto é, junto com um convite acompanha o talão da mesa que o ‘convidado’ fica obrigado a pagar em termos da consumação mínima” (Alves, 1980: 77).Nos outros espaços do arraial circulam muito diferentes categorias sociais e, diz Alves, à medida que o espaço do arraial vai se distanciando da igreja é notória a presença de segmentos mais baixos da sociedade paraense.
“Há inclusive uma expressão antiga que denomina a parte final do arraial como o “cu da festa”. Sua localização espacial é ‘marginal’ ao largo” (Alves, 1980: 77/78).
Até 1973 as áreas do arraial eram leiloadas, mas a partir de então, a diretoria da festa decidiu que, ao invés de faria a seleção dos interessados e indicaria a área onde deveriam se localizar, embora mantenham ainda o pagamento. A diretoria da festa requisitou um controle maior sobre o arraial com o argumento de que ele estava se “desvirtuando”. Essa tentativa de maior controle coincide com mudanças na direção da festa e aconteceram quando foi indicado um professor universitário, com uma posição destacada na Universidade local e grande experiência como empresário, para organizar o arraial, tendo este proposto uma maior “racionalização da festa” e dar a ela o que chamou de “nova ordem” (Alves, 1980). Ele e outro diretor da festa, reclamaram contra os desvios do arraial onde, segundo viam, aumentava cada vez mais o número de bares com músicas e até outras festas “verdadeiras sucursais das boates conhecidas na cidade, por onde transitavam prostitutas”. E segundo este, “seria de espantar que numa festa em que se celebrava a Virgem Maria, em pleno arraial, em frente à igreja, a prostituição fosse evidente” (Alves, 1980: 79).Este objetivo já vinha sendo buscado há tempos, pois Vianna, em 1904, já dizia:
“Houve aqui um belo esforço para reformar o Círio e a Festa de Nazaré, expurgando-os da dissolução que os contamina, dando-lhes um cunho de seriedade que não tem, buscando ampliar as demonstrações do culto do povo, reduzindo as exibições grotescas e ridículas, despendendo mais utilmente a soma das esmolas.” (Vianna, 1904: 241).Segundo pude perceber em todos os textos, estes momentos de tensão são constantes na história do Círio de Nazaré e acontecem preferencialmente quando há predomínio dos aspectos considerados profanos, ou seja, da manifestação festiva que foge ao aspecto religioso propriamente dito. Então, a Igreja tenta coibir os comportamentos considerados lascivos e permissivos, contrários aos valores da ética cristã . O mesmo acontece por outro lado, quando opovo percebe que há umexcessivo controle da festa pelas autoridades religiosas (que chegaram a proibi-la , mas que foi realizada mesmo assim), e delas retoma o controle, estabelecendo, contudo um equilíbrio entre os valores estritamente festivos e os religiosos. A festa, diz Isidoro Alves, parece demonstrar uma negociação, “um ‘compromisso’ entre as manifestações mais formais dirigidas pela autoridade religiosa e outras mais informais, onde tem lugar a manifestação popular tal como o povo entende que seja a ‘festa’’” (Alves, 1980: 79).A disputa pelo controle da festa implica tensões de todo tipo, especialmente porque uma festa não acontece sem povo, e é a este povo que tanto Igreja como Estado tentam impor regras e modelos. O “manifesto” de 1974, feito pela diretoria da festa e citado por Alves, e que constava do programa da festa naquele ano, é exemplar da vontade de sua apropriação por uma e outra instância, mas também das dificuldades que devem enfrentar para impor mudanças. Ele diz o seguinte:
Alves diz que neste documento a diretoria da festa reconhece que ela tem, ao mesmo tempo, caráter religioso, recreativo e turístico, e acrescenta que a estas dimensões se junta a educativa, constatando ainda que:“A Diretoria da Festa de N. Sra. de Nazaré, consciente da rápida evolução que vem tendo a sociedade moderna, sobretudo aquelas parcelas mais atingidas pelo impacto das comunicações, decidiu orientar sua atuação no corrente ano, promovendo uma revisão geral da festividade, não só quanto aos princípios que devem nortear o culto à Virgem, mas também quanto à organização de cada um dos elementos ou etapas que a integram. Não se trata portanto de promover ‘transformações’ pela preocupação simplista de inovar, mas sobretudo de uma atitude de busca e aperfeiçoamento que seja capaz de colocar o culto que tradicionalmente o Povo de Deus, no Pará, presta à nossa Mãe de acordo com as diretrizes pastorais pós-conciliares” (apud Alves, 1980: 80).
“as parcelas do povo que mais intensa participação têm na festividade são formadas de pessoas mais simples originárias das camadas mais modestas da sociedade. É indispensável, por isso, que a festa se constitua numa oportunidade extraordinária para a participação do povo na cultura paraense” (Alves, 1980: 80).O documento mostra, depois, que a diretoria tem como estratégia de atuação preservar tudo aquilo que ela julga representar “autênticos valores tradicionais” e excluir tudo que ao longo dos anos foi acrescido ou se imiscuindo na festa. Diz Alves que no conjunto das medidas preconizadas pela diretoria, a partir de 1974, está “uma pesquisa sistemática sobre a festividade como valor religioso, ético e antropológico, visando a definição de uma estratégia de pastoral mais adequada à realidade amazônica”. Entre as proposições da diretoria neste documento encontrava-se a implantação, no Círio, de um sistema de comando único, apoiado num sistema de comunicações que chegue até o romeiro sem interferência. Para tanto a diretoria da festa pensava contar com o sistema de freqüência modulada da Polícia Militar do Estado.
Temos que levar em consideração que estas propostas são apresentadas em plena vigência da ditadura militar no Brasil, e que a tentativa de exercer controle maior sobre a festa corresponde, inclusive, a uma visão que o poder político tinha, à época, sobre as manifestações populares. Nesta época, quando os modelos de gestão autoritária estavam em vigor, eles tentaram controlar também a festa, mesmo a religiosa. A diretoria da festa afirma ainda, no documento, que seu objetivo era o de aproveitar a oportunidade em que se reinia toda a “família paraense” para que os órgãos de Estado informem o povo sobre o que estavam fazendo e que programas pretendiam desenvolver em favor da economia regional. Como resultado disto, foram retirados os bares, os teatrinhos de monstros, e acabou o leilão dos espaços das barracas. Foram mantidos apenas os parques de recreação infantil e as barracas-restaurantes, para fins de beneficência (Alves, 1980).
O que se observou, entretanto, na quinzena do Círio, foi que nem tudo podia estar sob o controle da diretoria da festa. Nas ruas que contornam a praça onde estava montado o arraial desenvolveu-se intenso comércio de quinquilharias, comidas e bebidas. Ao mesmo tempo, nos últimos dias da festa as pequenas barracas já não obedeciam a proibição de se colocar bancas para servir bebidas. Os excessos de bebidas em certos locais, o footing e o trottoir, a pura diversão e completa descontração das pessoas que iam ao largo fugiram ao controle da diretoria. A participação popular efetiva, na festa ,realiza-se, portanto, no sentido oposto ao da ordem e do controle. Do mesmo modo, não é possível um rígido controle sobre o comércio de miudezas que acontece no arraial, apesar das taxas cobradas pela prefeitura. Os pequenos vendedores aproveitam a época da festa para obter alguma renda. A tentativa de “ordenar” o espaço público acaba desagradando.
A história do arraial do Círio é marcada por vários momentos em que diferentes funções e atividades são incorporadas a ele, somando a seu caráter original de feira, o de lazer, diversão. Fala-se muito numa “fase áurea” da festa, que corresponderia a um período em que o lazer assumia o papel principal, refletido nos teatros e companhias teatrais que se apresentavam durante a festa, do mesmo modo que renomados artistas nacionais , o que só voltou a acontecer mais recentemente. Segundo pude inferir, o princípio de organização do arraial não se modificou. Ainda se vê a representação teatral, as performances, e outras manifestações culturais que se mantiveram com o passar dos anos, apesar do constante vaivém entre os interesses oficiais e populares neste espaço da festa. Alguns paraenses com quem conversei declaram que o espaço do arraial não é espaço dirigido pela igreja, e sim o espaço onde os belenenses fazem o lado profano da festa do Círio. Muitos dizem que realmente, em alguns momentos, brigas e “baixarias” nas proximidades da igreja propriamente dita, são constrangedoras, especialmente em se tratando de uma festa cristã, de louvor à virgem. Mas tais fatos são episódicos, dizem. A disputa entre os interesses da Igreja e da diretoria, que incorpora também forças aliadas ao interesse popular, tem permitido o equilíbrio. Todos, entretanto, notam que a verdadeira força que vem surgindo e “mexendo” no Círio é a televisão que, para transmitir a festa, ocupa lugares demais, incomoda os participantes e gera um caráter exibicionista, seja no arraial, seja na grande procissão. Todos também reconhecem que a partir da presença da TV no Círio mais pessoas conhecem não apenas a festa, mas a partir dela, o Pará, e principalmente Belém que, até então, não fazia “parte do Brasil”.
A procissão atualiza o mito do aparecimento da santa, enfatizando a origem do culto. Daí o despojamento nas atitudes e os pagamentos de promessas por milagres recebidos. Ao mesmo tempo, o deslocamento espacial da procissão refaz a ligação iniciada em 1793 entre o Palácio do Governo e a Igreja de Nazaré. Nos primórdios, essa mobilização se fazia da cidade para o interior, uma vez que a cidade, no século XVIII, era apenas um núcleo reduzido. Depois, essa movimentação passou a ser feita no sentido do interior para a cidade, pois os romeiros se deslocam das mais diferentes cidades da região norte para participar do Círio em Belém do Pará.
Segundo Isidoro Alves (1980), o trajeto e representação simbólica da procissão não se modificaram com o passar do tempo. Continua acontecendo a transladação na véspera, à noite, para na manhã seguinte acontecer a grande festa dos paraenses. Segundo ele, é assim que a grande maioria das pessoas que entrevistou (também aquelas com quem conversei), entende o Círio de Nazaré: como uma festa e não apenas como uma procissão. Moreira, citado por Alves, acrescenta que a procissão se destacou por sua extrema popularidade, representando o predomínio de
“uma romaria de origem popular sobre fórmulas tradicionais de origem oficial, as procissões ou festas reais, impostas por leis”. E acrescenta que “o Círio e a Cabanagem são os dois maiores exemplos do poder afirmativo das massas na história paraense” (Moreira, 1971, apud Alves, 1980: 39).A procissão atrai, anualmente, para Belém, romeiros e devotos do interior do Estado ou de outros estados, juntando-se a estes milhares de turistas. O fluxo de embarcações, ônibus, aviões etc. aumenta consideravelmente. As tres principais categorias de participantes do Círio, os romeiros, devotos e turistas, são referidas durante todo o tempo, na mídia. Praticamente toda a cidade se divide nestas tres categorias. E toda a cidade participa, de uma forma ou de outra, da procissão. Mesmo quem fica em casa acompanha a procissão,através das emissoras de televisão e de rádio. Atualmente, todo o Brasil acompanha o Círio, ainda que através de flashes das redes de televisão. Os jornais locais fazem edições especiais com cadernos inteiros dedicados exclusivamente ao evento e imprimem e distribuem posteres coloridos com a imagem de N. Sra. de Nazaré. Nestas edições são reproduzidas mensagens do governador, do prefeito, do arcebispo e de diversas associações, que aproveitam o momento para vincular sua imagem à festa. Toda a publicidade local gira em torno do acontecimento. O nome da santa e o fato de ser aquele um dia especial são constantemente lembrados. Todos os que falam sobre o Círio dizem que o dia da procissão é “o maior dia dos paraenses”, lembrando os fatos que atualizam o mito de origem e permanência do Círio e da Festa.De acordo com Isidoro Alves, a procissão, propriamente dita, do Círio de Nazaré, pode ser decomposta em três espaços em movimento: um núcleo estruturado, constituído pelas autoridades civis, militares, eclesiásticas, políticas, altos funcionários, irmandades religiosas e convidados, todos usando uma pequena flâmula que permite entrar na corda; um segmento intermediário ou liminar composto do grupo de pessoas que seguram a corda e “puxam” a berlinda com a santa e, um terceiro segmento, composto de uma massa compacta e gigantesca de acompanhantes, pessoas que seguem a berlinda ao redor, por todo o trajeto. Assim, o núcleo é o centro da procissão e da consagração, disputado tanto pelo poder político como o religioso e onde as posições são demarcadas antecipadamente, com posições atribuídas a cada categoria participante de acordo com o costume e circunstâncias políticas do momento e interesses em jogo.
Como já disse, historicamente a procissão do Círio tem início com outra procissão, menor, a que chamam de transladação e que é realizada no sábado à noite, véspera do segundo domingo de outubro. Ela sai por volta das dezenove horas do Colégio Gentil Bittencourt que fica quase ao lado da igreja de N. Sra de Nazaré. A berlinda sai puxada pela corda, acompanhada por uma grande multidão levando velas acesas. Sem a presença de autoridades e diretores da festa, a procissão se encaminha para a Catedral, fazendo o percurso inverso ao do Círio. Na manhã do segundo domingo de outubro, então, sai a procissão maior da festa, a qual se chama de Círio .
A procissão do Círio sai pela manhã, por volta das sete e meia da manhã, da Catedral e demora cerca de quatro horas para deslocar-se num percurso de alguns quilômetros até a Basílica de Nazaré. Ela faz inúmeras paradas durante o deslocamento. Uma das razões disso é conseguir um maior controle sobre o deslocamento da massa gigantesca de pessoas que se movimentam ao mesmo tempo. Esse movimento é feito com grande dificuldade e sacrifício pela maior parte dos que acompanham a procissão, especialmente os pagadores de promessa, que costumam acompanhar a santa nas “áreas críticas”, ou seja, segurando a corda, ou nas proximidades da berlinda onde se encontra a imagem da santa. As imagens são impressionantes e mostram um enorme esforço, por parte dos fiéis para não serem esmagados pela pressão da multidão.
No trajeto pelas ruas da cidade a santa recebe homenagens daqueles que esperam sua passagem ou dos que ficam nas janelas das casas. A passagem da santa é um dos momentos de maior emoção para os paraenses de Belém. Os informantes dizem:
“Quando a santa passa eu peço por mim, por todos. Eu rezo e choro” (uma mulher, 40/50 anos, casada, informante de Alves 1980: 54)
“Eu fiquei com a garganta apertada e lagrimei quando vi aquela multidão e a berlinda subindo a Av. Presidente Vargas. Foi uma coisa diferente” (jovem estudante universitária informante de Alves 1980: 54)
“A passagem da Santa é emocionante. Não sei lhe dizer se é mais por causa da santa ou da fé do povo que vai no rumo dela. É lindo ver tanta gente junto” (Alisson, 25 anos, belenense)Em momentos como estes, os participantes, conscientes do significado que envolve o evento ritual, ficam mais sujeitos ao afloramento de suas emoções. As pessoas como que se transformam. Assim, chorar em público, ajoelhar-se no asfalto das ruas, vestir uma mortalha e distinguir-se no meio da multidão, são atos que para algumas pessoas só podem acontecer em tais momentos.
Entre os representantes eclesiásticos e a santa “há um espaço quase vazio onde se situa o que seria o ‘comando principal’ da procissão, que controla o deslocamento da berlinda. Esta, por sua vez, é puxada por um grupo de homens que hoje fazem parte da ‘guarda da santa’” (Alves, 1980: 44). No passado, porém, a berlinda não era puxada pela guarda da santa, que nem existia, mas por homens que pagavam suas promessas. Na verdade, diz Alves:
“Os que seguram o carro com a santa continuam pagando suas promessas mas, com a criação dessa guarda, a Diretoria procurou afastar as pessoas estranhas à devoção católica, como os chamados macumbeiros. Relata-se mesmo o caso de um pai-de-santo da cidade que durante anos pagou sua promessa puxando a berlinda mas que nos últimos anos foi impedido, pois segundo um diretor, ele se aproveitava da situação para fazer suas obrigações, que nada tinham a ver com a procissão, uma festa católica” (Alves, 1980: 44).Próxima à berlinda segue uma densa massa humana que geralmente também está ali para pagar uma promessa. Todos dizem ser um lugar perigoso da procissão. Talvez pela excessiva disposição devocional, que resulta no aperto na multidão, com empurrões, pisões, quedas, desmaios, cortes nos pés e freqüentemente, brigas na disputa por um lugar. O pagamento das promessas de ir junto à corda implica sacrifício do próprio corpo.
Separando o núcleo central com a berlinda existe uma corda, muito grossa, especialmente confeccionada para o Círio, que é segurada principalmente por pessoas que pagam promessas e que puxam por ela a berlinda com a santa. Esse espaço central
“recebe a reverência sacral e se observa nitidamente uma redução em forma de modelo, de relações entre os campos de poder concorrentes como o político, o religioso e o de posição social. Esse centro é o que recebe a consagração através de gestos, acenos, etiquetas formais” (Alves, 1980: 45).Os que estão fora da corda dizem que dentro dela vão as autoridades, o Arcebispo e demais convidados. Os políticos costumam acenar para os que ficam nas janelas, nas ruas em que passa a procissão. Concordo com Alves, quando diz que a presença do poder político,-militar e das camadas dominantes junto com religioso num mesmo plano e num mesmo modelo de relações, concebido pelos que recebem a delegação do poder religioso para dirigirem a festa (a diretoria), indica que se oferece à leitura dos participantes do ritual uma imagem de pacto, de compromisso entre os poderosos políticos e religiosos e os vários segmentos da sociedade belenense.Por ser um lugar onde as pessoas se unem pela promessa que cada uma delas fez à santa, ou seja, o espaço de reconhecimento da fraqueza humana e da dependência da interferência sagrada, a corda é, também, um local de afloramento de uma atitude solidária. A communitas não surge como um fato antiestrutural (Turner, 1974) mas como resposta à ordem que se impõe sob o núcleo hierarquizado da procissão. Quem vai na corda, deve ir de pés descalços, e esta é a mais acabada expressão do despojamento que a situação de sacrifício implícita na promessa implica. É assim que se neutralizam simbolicamente as diferenças, sendo comum ver-se indivíduos que desfrutam de altas posições sociais desempenharem um mesmo papel no ritual que os mais humildes e compartilharem o sacrifício de fazer o percurso da procissão descalços. Numa extensão que pode variar de 120 a 150 metros, a corda constitui uma espécie de parede humana, que circunda o centro da procissão. Só é feita a distinção de gênero. À direita vão as mulheres e à esquerda os homens. Escoteiros com padiolas e medicamentos de emergência atendem os que se machucam ou desmaiam, e muitas pessoas pagam promessa distribuindo água em quartinhas ou garrafas térmicas. “Há também quem distribua bebida alcoólica na procissão, sendo tradicionais as pessoas que carregam na cabeça potes e melancias cheios de cachaça”(Alves,1980: 47). Além disso, existem também atitudes jocosas ou violentas mesmo na própria corda.
“Vimos por exemplo um homem desafiar abertamente um soldado e chamá-lo para fora, o ‘lado de fora’, para a briga, depois de desacatá-lo. Este fato normalmente não aconteceria, mas como os espaços rituais têm seus limites, estes são respeitados. A atitude jocosa em relação às pessoas, às autoridades, inclusive, que antes da procissão sair tomam lugar dentro da corda, era notória. Os comentários giravam sobre as mulheres normalmente bem vestidas, sobre um ou outro político ou figura conhecida na cidade, sempre mostrando um aspecto negativo daquele que na performance ritual vai para uma posição de destaque” (Alves, 1980: 49).
Esta atitude jocosa, resulta do fato de que as pessoas vão na corda descalças, com trajes simples, muitas vezes de bermuda, camiseta ou saias muito simples que contrastam com o cotidiano mais formal, e às vezes até marcial, de alguns convidados que vão dentro da corda. Esta “informalidade”, entretanto, é acompanhada de uma atitude de enorme respeito pela santa. É fundamental, para quem vai na corda, o sentimento de estar pagando uma promessa, através de um ato que exige sacrifício e esforço. Esse fato faz com que as pessoas que vão na corda sejam alvo de respeito por parte dos demais acompanhantes da procissão.
“A promessa paga por quem vai na corda revela uma intersecção de duas dimensões: a individual e a social. Como um pagador de promessa, a pessoa se refere a um pedido individual e seu modo de pagar é o gesto corporal. Mas esse seu gesto se confunde com uma gestualidade coletiva. Individualmente ele busca um estado de purificação necessário às suas relações de solidariedade com os demais que participam do mesmo ato de purificação[...]. O corpo emerge como representação social e sem a atomização que caracteriza um outro tipo de promessa [...]Assim, é a coletividade que experimenta o sacrifício e a purificação. As promessas feitas durante situações críticas são as mais variadas possíveis, a maior parte ligada a crises de vida tais como doenças, aprovação em concursos, obtenção de casas. Tais situações, supõe-se, são comuns às demais pessoas e freqüentes na vida cotidiana. [...] Do ponto de vista individual o ato de promessa expressa de um lado o contrato estabelecido com o poder divino ou sobrenatural e, de outro, como um ato de cognição e controle de fatos que escapam à ação do indivíduo. Este é o caso das situações de doença, quando se faz a promessa visando a cura. Mas no contexto ritual ainda está em jogo o sacrifício auto-imposto pelo devoto representado pela dramatização das dificuldades em encontrar uma posição num sistema estruturado onde o leque de possibilidades é limitado. (Alves, 1980: 50).
Dizem alguns informantes de Alves que a corda “é o elo entre o povo e a santa”. Podemos pensar também que, sendo a corda uma espécie de defesa da santa, e o mesmo tempo aquilo que a move, é como se os fiéis estivessem experimentando uma espécie de inversão. Se a santa protege seus fiéis e os carrega pela vida, provendo sua segurança, no dia da procissão são eles que, na procissão, fazem isso pela santa. E, na volta à sua vida diária provavelmente sentem-se aliviados por seu caráter humano frágil, de precisarem ser protegidos pela santa, e por não estarem em seu lugar, puxando a corda que carrega a humanidade.
A terceira e maior parte da procissão do Círio é a grande massa de acompanhantes que circunda o núcleo composto pela berlinda e contornado pela corda. Uma boa parte destes acompanhantes da procissão caminha descalça e leva ex-votos, geralmente representando partes do corpo ou o corpo inteiro feito em cera ou, ainda, conforme a promessa, casas, livros, telefones, barcos etc. Há ainda o carro dos anjos (crianças vestidas de anjos) e da berlinda com a santa. Juntam-se a eles, as bandas de música das corporações militares da cidade, os escoteiros, bandeiras dos Estados e de diversos países, faixas alusivas ao evento etc. Quando a procissão passa em frente ao sindicato dos estivadores, estes queimam fogos durante muitos minutos, e esta homenagem, diz-se, não encontra paralelo em nenhum dos dias da festa. Diante do Sindicato a procissão pára, e todos voltam sua atenção para este espetáculo de sons. Mesmo quando a diretoria da festa mudou o trajeto da procissão (os sindicatos estiveram numa difícil posição durante a ditadura militar), a queima de fogos continuou acontecendo e atraindo uma multidão enorme.
“Percebe-se claramente que uma categoria social que no dia-a-dia ocupa posição inferior no sistema social é, naquele contexto ritual, objeto de admiração. O fraco e desprovido de poder inverte a ordem das coisas e passa a ser também admirado. Todos acham que é uma das coisas mais bonitas do Círio, a homenagem prestada pelos estivadores e que se torna mais emocionante porque se dá no momento em que ressoa a sirene do antigo edifício do Jornal Folha do Norte, onde hoje se localiza O Liberal. A sirene, soando forte, anuncia a passagem da santa e serve como pano de fundo para a queima de fogos que em seu final recebe os aplausos da multidão“ ( Alves, 1980:72)O comportamento dos acompanhantes da procissão é marcado pela informalidade. As pessoas conversam e podem mesmo parar para tomar um lanche ou comprar um brinquedo ou lembrança da procissão . Não há demarcação de posições nem o pesado sacrifício da promessa dos que vão na corda. Isidoro Alves observa que os gestos e atitudes denotam um clima de festa, ao mesmo tempo em que as pessoas têm atitude de respeito para com o evento.
É comum, ainda, que grupos com uniformes de agremiações como times de futebol também participem da procissão e há, ainda, os que assistem, postados nas calçadas, ou em suas casas, das janelas, à passagem do cortejo de N. Sra. de Nazaré.
“Quando entrevistados, indivíduos que acompanhavam a procissão no meio dessa massa humana, sempre diziam estar cumprindo um dever religioso, ou cumprindo uma devoção, mas isso não exclui outros atos de completa informalidade. Assim, é comum pessoas beberem durante a procissão, pois é incalculável o número de vendedores de comidas e de bebidas localizados em praticamente todo o trajeto da procissão”. (Alves, 1980: 50).Nota-se, portanto, que enquanto o segmento central é marcado pela atitude de respeito e devoção, o segundo pela disposição comunitária e igualdade, no terceiro segmento é possível a informalidade, a inversão e mesmo a desordem. Este jogo corresponderia às disposições engendradas no dia-a-dia, como por exemplo o respeito à autoridade, às posições de domínio na sociedade desempenhadas por certos grupos ou, ainda, os mecanismos de inversão expressos nos modos jocosos de se referir ao poder e aos poderosos. Neste contexto, a presença da santa é fundamental, na medida em que ela se “dispõe” a participar da festa no mesmo nível dos homens. Estes, por sua vez, no momento ritual, apropriam-se de uma dimensão mais profunda, ou seja, a que diz respeito à própria vida. Deste modo, ao pagar uma promessa feita em troca de um emprego, ou compra de uma casa, cura de uma doença etc., o homem reapropria o controle de si mesmo e também sobre o corpo social, uma vez que no dia-a-dia há um conjunto de instâncias e agentes aos quais deve recorrer numa situação de desemprego, compra da casa própria ou recuperação da saúde. Aproximar-se tanto da santa, na procissão implica, ainda, a simplificação da relação com o sagrado, que se torna mais direta, sem a mediação dos sacerdotes da Igreja (Alves,1980).“Trata-se [...]de um momento de intensa emoção, em que as diferenças se diluem, o comportamento não está mais sujeito a regras fixas, a convergência emocional concentra-se em torno da Santa; na medida em que serve como poder aglutinador, propicia a momentânea formação de uma grande comunidade que estará para além do tempo e do espaço, mas que só será possível de ser vivida e revivida no contexto ritual” (Alves, 1980: 51).
Segundo Isidoro Alves, a procissão do Círio de Nazaré coloca em destaque, aspectos cruciais da vida dos indivíduos que são expressos na promessa, nas orações, enfim, naquilo que pedem à santa.
O Círio é um evento aberto, como vimos, que envolve uma cidade inteira e uma quantidade gigantesca de pessoas que ao final se dispersam e se dirigem às suas casas onde tem lugar o “almoço do Círio”, realizado no âmbito familiar, para a consagração das relações de amizade, compadrio e parentesco.
“Nestes momentos a festa se volta para dentro, seja do núcleo em que se situam a Santa, a autoridade política e os representantes das camadas dominantes, seja no âmbito do grupo familiar onde se celebra a festa com um almoço onde as relações de respeito convivem com relações jocosas e mais livres” (Alves, 1980:61).Isidoro diz ainda que o fim da procissão dá aos que a acompanharam um momento de informalidade e relaxamento. Quem não é da cidade vai para o arraial, brincar no parque de diversões ou sentar no chão, comer, beber. Os que têm família em Belém em geral vão para casa, cansados da procissão, para o “almoço do Círio”. Para este almoço são convidados ainda os amigos íntimos das famílias, que ao se encontrarem aproveitam a oportunidade para avaliar a procissão, o crescimento da festa, as personalidades presentes, a organização da festa etc.O almoço reproduz a experiência vivida na procissão. O indivíduo se insere no grupo familiar reunido (parentes distantes que vêm à festa pagar promessas ou simplesmente compartilhar a presença de todos nesta reunião anual). Famílias nucleares e extensas, normalmente distanciadas pela geografia ou pelas atividades diárias, reúnem-se, reconstituindo, ao menos durante o almoço do Círio, seu clã. Depois de muitos “tira-gostos” e aperitivos, durante os quais a euforia das famílias que se encontram é visível, bem como a avaliação do progresso ou não de cada um dos membros (Alves, 1980: 63), o almoço é servido. O cardápio varia, mas dois pratos são obrigatórios e sem os quais o almoço, segundo pude constatar nos contatos que fiz com os paraenses, não pode ser considerado “almoço do Círio”: a maniçoba e o pato no tucupi. Podem ser servidos, também peru, galinha, porco etc. Mas o essencial são os dois pratos típicos paraenses. O clima de alegria é observável pela “quebra de regras” da etiqueta mais formal dos paraenses: os mais novos brincam com os mais velhos, contam-se piadas, dizem-se palavrões no meio das conversas. Atitudes consideradas inadequadas no cotidiano.
“Ao terminar o almoço, volta-se a viver um mesmo clima de distensão e relaxamento, um período nitidamente liminar, no sentido de que todas as ações ficam suspensas, inclusive as de total informalidade. Esse período antecede aos vários momentos em que os membros não-residentes da família começam a se despedir e voltar para suas casas. O retorno significa entrar novamente na rotina, no domínio das relações formais e consagradas, não mais no âmbito familiar, mas no contexto mais amplo da sociedade. (Alves, 1980: 64).A comida, portanto, como em qualquer festa, assume um caráter simbólico extremamente importante pois, dependendo da quantidade e da qualidade, além dos diferentes modos de preparo dos alimentos, o reconhecimento do grupo familiar como capaz de realizar um bom almoço, e conseqüentemente participar à altura da festa do Círio, será maior ou menor. Existe um reconhecimento social belenense de que, no dia da festa, a comida tem que ser especial, diferente, algo da mesma importância e relevância que uma ceia de Natal ou festa de aniversário, quando as comidas obedecem a cardápios obrigatórios, sem o que a festa perderia seu caráter específico e sua identidade. Está em evidência, no almoço do Círio, o grupo familiar, que durante o almoço se reconhece enquanto estrutura na qual a presença de cada um compartilhando o alimento reforça a relação entre os termos. O código culinário do almoço do Círio esclarece a natureza desta reunião.Existe, como pano de fundo, tanto da procissão quanto do almoço do Círio, a prodigalidade, o esbanjamento, característicos da festa. Neste sentido, o código culinário se aproxima do código social. Tal como na procissão, no almoço as “diferenças” são temporariamente suspensas, e isto se expressa também na transformação culinária. O mesmo acontece em todas as festas apresentadas aqui. É importante lembrar, contudo, que no mito de origem da festa do Círio, a comida não aparece em nenhum momento como elemento fundamental. Neste almoço, como na Festa de Nazaré em geral, surge com força a identidade regional. Todos dizem que na festa do Círio, tanto a maniçoba quanto o pato no tucupi são consumidos “tanto na casa do rico como na do pobre”. O que importa realmente é o caráter especial do almoço, marcado por um cardápio específico. É importante lembrar que tanto no aspecto intrínseco quanto no aspecto extrínseco, a comida assume um duplo papel simbólico. Por um lado ela é a expressão de um código culinário voltado para o grupo familiar e, por outro, é a expressão de uma unidade social mais ampla, aparecendo como utopia, como ideal de unificação e confraternização que se opõe à realidade social.“A partir do triângulo culinário proposto por Lévi-Strauss (1968), podemos indicar que o cozimento obedece às transformações fundamentais na medida em que o cru transforma-se em cozido, através do assado e do fervido ao mesmo tempo. Considerando-se, como Lévi-Strauss, que o ‘fervido pressupõe na maioria das vezes aquilo que se poderia chamar de uma endo-cozinha: feita para o uso íntimo e destinado a um pequeno grupo fechado, enquanto o assado pressupõe a exo-cozinha: a que é oferecida a convidados’ podemos dizer que a cozinha do Círio combina ambas as formas e manifestações através de uma multiplicidade de códigos, já que o almoço compreende, de um lado, o grupo familiar e de outro os convidados” (Alves, 1980: 66).
A ultima procissão , que fecha o ciclo de procissões e de desfiles que marcam os quinze dias da Festa do Círio, recolocando tudo na ordem do cotidiano, é chamada pelo povo belenense de Recírio. É a volta da imagem ao lugar de onde saiu. Ela é realizada nas primeiras horas da manhã da segunda-feira seguinte ao último domingo da festa. A procissão do Recírio sai da igreja e vai até o Colégio Gentil Bittencourt, dando a volta ao redor da praça onde está montado o arraial, já que o colégio fica quase ao lado da igreja e é de lá que a imagem sai, na grande procissão. O Recírio segue o mesmo esquema da procissão do domingo, com a santa sendo carregada num andor comum, levado pelos diretores e com a presença do arcebispo que ergue a imagem antes que ela seja levada para a capela, onde ficará até o próximo ano.“No código culinário, a comida assim preparada assume uma dimensão sagrada, e a referência a ela corresponde a um modo específico de se referir ao gosto que presidiu o cozimento. Nesse aspecto, a referência é respeitosa, tanto à qualidade quanto à quantidade (o gosto e a fartura). A comida, com predominância do fervido entre o assado, propõe o predomínio das relações internas do grupo, portanto as relações de “dentro” em oposição ao profano, que fica fora. Mas, como na realidade a vida é vivida lá fora, celebra-se, naquele momento ritual, a solidariedade grupal diluída na ordem profana. A forma de exprimir essa solidariedade é através da criação de mecanismos de ação que suspendem momentaneamente as diferenças entre categorias de parentes, tal como ocorre na procissão realizada antes” (Alves, 1980: 69).
O ciclo de procissões, portanto, é marcado pela entrada e a saída da santa no espaço da cidade, onde se dá sua “performance”. Ao deixar o lugar onde fica o ano inteiro e se tornar parte do “mundo”, ela não apenas traz a este o sagrado, contaminando com ele os espaços que percorre no andor ou na berlinda, como aproxima os homens do sagrado, através dos sacrifícios de cada um ou para a participação na festa, ou para o pagamento de promessas. A devoção da santa pelos homens se coloca ao lado da devoção dos homens pela santa. Sagrado e profano se reúnem temporariamente, para separar-se depois, quando a santa “volta pra casa”. Mas fica a esperança do próximo Círio e de um mundo onde todos os dias serão dias de festa do Círio. Um mundo onde tudo deu certo.“O Recírio é marcado por intensa emoção. É incontável o número de pessoas que choram especialmente no momento de despedida quando lenços são acenados e estringem palmas etc. Para muitas pessoas, acompanhar o Recírio constitui promessa” (Alves, 1980: 55).
Além de todo o aspecto mais claramente simbólico da Festa do Círio de Nazaré como a relação entre a festa e o mito, a profunda devoção popular e a organização destes símbolos de modo a formar um sistema coerente entre simbolismo e sociedade, é preciso salientar ainda os aspectos da festa que raramente são tematizados, como a criação de toda uma estrutura política local, organizada especificamente através da festa, do qual a Diretoria e a Guarda da Santa, são exemplos claros. O aprendizado das instituições a partir de sua vivência nas festas é inestimável, e por se tratar da festa, os antagonismos ou ideologias ficam de certa forma em plano inferior. Toda a relevância da história popular também se mostra na produção da festa, uma vez que todos os elementos a ela se referem e, nela, devido à presença de milhares de visitantes e turistas, os paraenses são chamados a explicar detalhes, discorrer sobre origens e porquês, sistematizando conhecimentos e revendo o processo de transformação da festa e as relações do povo com o poder instituído. A festa do Círio é um fato social total, no mais pleno sentido, pois mobiliza todas as instituições sociais da cidade e é possível notar que a festa move e transforma não apenas os espíritos humanos mas também a sociedade e a economia.
Não se pode esquecer, ainda, todo um mercado de bens simbólicos e materiais criado a partir do referencial da Festa do Círio e que movimenta milhões de reais: velas, imagens, santinhos, escapulários, círios, berlindas, flores, lembranças, artesanato, os famosos brinquedos e “cheirinhos do Pará”, frutas e comidas típicas, mercadorias produzidas durante todo o ano mas que recebe um mercado consumidor capaz de esgotá-las no decorrer dos dias do Círio.
Há também o crescimento da infraestrura da cidade para a recepção dos turistas, gerando empregos não apenas nos quinze dias do Círio, mas durante todo o ano. Restaurantes, hotéis, estacionamentos, serviços de táxi e aluguel de carros, agências de turismo e aéreas, sem contar o que a festa representa em termos de matérias para jornais, rádio e televisão, vídeos, discos, livros e toda uma indústria cultural que cada vez mais encontra nas festas um produto de largo consumo. O fenômeno é significativo e podemos medir suas proporções quando já podemos ler, nos jornais de grandes centros urbanos, notícias sobre o Círio de Nazaré em Belém do Pará.
O sentido de representação do Círio é, portanto, invocar a história, os costumes religiosos, os milagres da santa, reforçando ainda a identidade regional e os laços comunitários ao se apresentar como a festa maior dos paraenses. Neste sentido, ele representa a mediação entre passado e presente, o reviver de momentos decisivos da história do povo paraense e também das histórias pessoais. E, ao fazê-lo, constrói novos momentos a serem lembrados no futuro, uma vez que a produção e realização da festa implicam novos esforços, tão memoráveis quanto os esforços do caboclo Plácido para construir a ermida de N. Sra de Nazaré nos tempos passados. Agora, são os esforços realizados para a realização da festa, que reverte também em benefício da cidade e dos pobres locais, além de tantos outros esforços que serão lembrados sempre em referência à Festa do Círio do ano “tal”.
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