Maria Isaura mostra o carnaval vivido a partir de uma busca na história dos carnavais, que percorre até chegar aos nossos dias, analisando a vivência dos grupos que produzem o carnaval brasileiro. Isto lhe permite demonstrar que não existe, nem nunca existiu, um Carnaval passível de ser pensado como festa de essência única, como querem alguns autores. Pelo contrário, diz ela, o carnaval deve ser estudado levando-se em conta principalmente as condições sócio-econômicas e culturais de cada povo, de cada grupo que o realiza, para que seja possível apreender seu sentido.
Comparando o Entrudo e o Carnaval portugueses com o Entrudo e o Carnaval Brasileiros, ela mostra que os paralelismos da estrutura e dos grupos que organizavam os divertimentos nos dois países se revelam insignificantes quando se percebe o afastamento progressivo dos caminhos que cada uma das festas percorre no tempo em razão das transformações sociais. No caso brasileiro as transformações têm como base fundamental o surgimento de uma bem definida burguesia que em tudo pretende se distinguir do resto da população. Surgem assim as sociedades carnavalescas onde se reúne a "elite" brasileira, tendo como elemento nucleador a festa chamada de Grande Carnaval (o carnaval da burguesia) versus o Pequeno Carnaval, festa popular que reúne operários, funcionários, pequenos comerciantes etc. Diferentemente do que acontece em Portugal, no Brasil o carnaval incorpora as camadas urbanas mais pobres, que passam não apenas a participar dele mas, também a produzi-lo. Na mesma época (por volta de 1940) o carnaval português começa a desaparecer. A razão disto é que enquanto Portugal perdia contingentes populacionais que emigravam para outros países da Europa em busca de melhores condições de vida, e enviava seus recursos para as colônias buscando incrementar produções que gerariam recursos para a metrópole decadente, o Brasil expandia-se economicamente, desenvolvia sua indústria e crescia demograficamente.
Com isto, no Brasil, em breve morreria o carnaval burguês dos coros, surgindo em seu lugar o Carnaval Popular, o carnaval das escolas de samba, que reunia o povo em suas agremiações. Tendo mostrado que a festa de carnaval sofre uma forte influência dos contextos sociais em que está inserido, Maria Isaura encaminha sua crítica à concepcão de que o carnaval é uma festa onde as desigualdades desaparecem, momento em que a sociedade se "transforma" e em que os valores e posições sociais se invertem. Seu interlocutor principal é, então, Roberto Da Matta, que discute amplamente esta questão no trabalho já clássico sobre o carnaval brasileiro "Carnavais, Malandros e Heróis". Tendo já demonstrado que a inversão nunca aconteceu no passado no nível vivido, a autora mostra de modo cuidadoso e detalhado que ela continua não acontecendo realmente. Para isso estuda os carnavais das escolas de samba (a "guerra entre as escolas, suas relações com os bicheiros, a participação das classes mais altas no desfile etc), os carnavais de rua (com a formação de grupos que têm como referência as redes de sociabilidade pré-estabelecidas em outras esferas da vida dos indivíduos e as relações destes com os patrocinadores interessados na promoção do turismo) e os carnavais de salão (onde existe uma clara divisão social dos espaços, prevalece o machismo, busca-se a projeção através da auto-promoção, fomentada pelas redes de televisão e revistas etc.) apontando inclusive a presen;ca ostensiva, em todos eles, da polícia, garantia da manutenção da ordem.
Então, conclui novamente, nada muda, nada se transforma, nada se inverte. Segundo sua análise, a visão, reforçadora do mito popular do Carnaval como um mundo "às avessas", seria fruto da perspectiva adotada pelo pesquisador, que se deteria no discurso sobre o carnaval feito pelos informantes em termos de emoções, sensações e não daria a devida atenção ao que realmente acontece (ao "vivido") em termos da estrutura social e econômica que informa e rege os comportamentos. Quanto a isto muitos antropólogos poderão torcer o nariz. Primeiro porque o vivido não teria sentido se não fosse representado. Mais do que a experiência em si, importa aquilo que se pensa dela, o sentido que os homens atribuem às suas ações. Depois porque esta afirmação dá a entender que existe grande distância entre o vivido e o mito, especialmente ao falarmos em ritual de inversão. É preciso lembrar que o rito tem forte conteúdo dramático e é uma linguagem, resultado de aspectos combinatórios de vários momentos da vida cotidiana. Como mostrou Leach, a matéria-prima do ritual é a mesma da vida diária representada. A diferença entre ambas não é de qualidade, mas de grau. É assim que a inversão é possível no plano simbólico. Além do mais, se tivéssemos uma inversão real das estruturas sociais estaríamos realizando uma revolução, em vez de um rito.
É ao conjunto de discursos sobre a pretensa igualdade, liberdade e inversão existentes no carnaval, seja este discurso feito pelo povo ou pelos intelectuais, que Maria Isaura chama de "mito do Carnaval". Este mito "fala" da sociedade ideal que um dia virá a se instaurar (o que ainda não aconteceu devido à imperfeição do homem) cujo protótipo seriam as festas de carnaval. Elas seriam o rito que realiza este mito. A autora reconhece que utiliza uma "concepção ampla" de mito, muito parecida com a idéia de utopia. Prefere, contudo, usar o termo "mito" porque estes, diz ela, diferentemente das utopias "agem sobre o real". Sem dúvida. Mas também, e principalmente, sobre o simbólico, criando uma boa quantidade de outros mitos. Um deles, que não escapa à autora, é o da "tradição", o de que o Carnaval retém a essência da "brasilidade", armazenando a memória nacional, pois tudo que não deve ser esquecido incorpora-se ao Carnaval, como já notara Roger Bastide. Mas, acrescenta a autora, isto só é possível com o "aparecimento do Carnaval popular, revelando a aceitação das camadas inferiores como integrantes de fato e de direito, tornando possível a integração de traços culturais". O que faz com que surja, muitas vezes, uma idéia errônea da tradicionalidade" do Carnaval como festa popular, ao induzir a uma pretensa idéia de "antigüidade" presente em seus costumes como, por exemplo, sugere a "ala das baianas" que segundo dizem alguns carnavalescos, rememora a participação dos negros no carnaval. Maria Isaura mostra que isto não é verdade e que a proposição deveria ser invertida: "É porque, por uma ou outra razão, determinado comportamento ou maneira de ser é rodeado de respeito e afeição que ele se conserva através do tempo, protegido do desaparecimento por meio do conceito mágico de tradição". Este conceito, segundo pensa, teria o efeito de uma espécie de "cimento", que uniria os diferentes, contraditórios e variados elementos muitas vezes de origens também diversas. E isto só seria possível porque todo o conceito de "tradição" é "simples representação do espírito e não constitui um dado da realidade". Assim, o uso dos aspectos "tradicionais" do Carnaval para apontar as qualidades da "brasilidade", como faz Da Matta, deve ser melhor avaliado.
Maria Isaura conclui seu ensaio observando que, por reunir mito e realidade o carnaval ultrapassa em muito as possibilidades de apreensão. Sendo constituído pela realidade, ele não se reduz a ela e nem ao mito. Mas, muito mais do que à exuberância barroca da festa, é importante ver a vida por trás dela, pondo "em relevo a parte importante da realidade social em seu desenrolar, sem esquecer o que se deve ao mito" e sem ignorar as contradições entre mito e realidade. Afinal, é verdade que vivemos num país onde há um povo subordinado e oprimido pela pobreza mas que segue em frente cantando que "o importante ‚ ser fevereiro e ter Carnaval pra gente sambar"