Este texto faz parte da tese de Doutoramento em Antropologia Social de Rita Amaral, Festa à Brasileira - sentidos do festejar no país que "não é sério" defendida junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Brasil, no ano de 1998. Veja como citá-la clicando
“Veio Mané da Consolação
Veio Barão de lá do Ceará
Um professor falando alemão
Um avião veio do Canadá
Monsieur Dupont trouxe o dossiê
E a Benetton topou patrocinar
A Sanyo, garantiu o som
Do baticum, lá da beira do mar
[...]
Zeca falou: antes que era bom
Mano cortou: brother, o que é que há
Foi a G.E. quem iluminou
E a Macintosh entrou com o vatapá
O JB fez a critica
E o cardeal deu ordem para fechar
O Carrefour, digo o baticum
Da Benetton, não, da beira do mar
Aquela noite
Quem tava lá na praia viu
E quem não viu jamais verá
Mas se você quiser saber
A Warner gravou
E a Globo vai passar”
(Baticum, de Chico Buarque e Gilberto Gil)
O sudeste do país, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro, por ser a região de maior desenvolvimento econômico e concentração populacional do Brasil, abriga uma maior diversidade cultural e nela os problemas sociais surgem de modo mais gritante, pedindo soluções urgentes que pouca vezes o Estado tem demonstrado interesse ou capacidade de oferecer. É neste contexto que festas como as de Nossa Senhora da Achiropita, São Vito e outras como a de Peão Boiadeiro em Barretos (SP) podem ser vistas como modo de ação popular, interferindo efetivamente nos problemas e minorando-os ou resolvendo-os. Ao mesmo tempo, como acontece em todo o resto do país, fazem a história real do Brasil, embora não escrita nos livros oficiais, em que o povo não assiste “bestializado” às ações das elites mas é ele quem age, contando com seus próprios esforços e recursos.
O mais conhecido exemplo é o do Carnaval carioca, ao qual não parece necessário fazer longas referências ou explicar do que se trata. Festa brasileira por excelência, e cada vez mais tornando-se um produto de exportação por sua poderosa força de atração turística, o Carnaval é “modelo de” e “modelo para” (Geertz, 1978) a maioria das festas brasileiras. É necessário lembrar, contudo, que o modelo do Carnaval é o modelo processional, presente já nos primórdios da festa brasileira, cuja base do processo de simbolização é o deslocamento. Neste processo, a parte fundamental é a transmudação ou a passagem de um ou vários elementos, de um domínio para outro. A idéia de ver o deslocamento como mecanismo crítico nas transformações de objetos em símbolos é básica também para entender a natureza do rito, já que permite ver o ritual como algo que se constitui e não mais como um tipo acabado de ação social. Ou seja: o deslocamento processional, presente na maioria das festas brasileiras permite perguntar como determinado objeto ou elemento que se desloca no espaço se tornou um símbolo e em que condições um dado conjunto de ações sociais se torna um rito (Da Matta, 1978). Tanto no processo de simbolizar quanto no de ritualizar (que não se separam, como notou Turner, 1974) temos um fenômeno de consciência, isto é, de atenção plena. A partir disto podemos compreender por que, tanto ao simbolizar como ao ritualizar, nas festas, é fundamental deslocar um objeto de lugar, seja este um lugar social ou geográfico. Ao fazer isto, o deslocamento agudiza a percepção da natureza do objeto, suas propriedades, origem, adequação. Por esta razão, um dos elementos fundamentais do Carnaval é o desfile, do mesmo modo que as procissões são caminhadas deslocando um objeto sagrado. Os deslocamentos conduzem a uma conscientização de todas as objetificações do mundo social, no que elas têm de arbitrário tanto como no que têm de necessário. É neste sentido que o Carnaval é o “modelo das” festas brasileiras e o “modelo para” as festas brasileiras, especialmente na forma que elas vêm tomando atualmente. Até mesmo o São João nordestino já conta com desfiles em avenidas e percorre distâncias envolvendo milhares de pessoas.
O Carnaval também é obra de arte popular e “mise-en-scène” da cultura brasileira, do personagem povo no drama social, seja em modo de rebeldia ou submissão, conforme se dirija o olhar para cada um dos aspectos que o envolvem. O Carnaval pode mesmo ser compreendido como um grande desfile cívico, similar ao 4 de julho americano ou o 14 de julho francês. Toda a história, do ponto de vista popular, é contada nas grandes avenidas do país por onde se deslocam todas as classes sociais, raças, categorias, todos os sexos, todos os símbolos nacionais. Não parece, portanto, necessário, depois dos vários estudos já feitos sobre o Carnaval (Da Matta, 1978;Eneida, 1958; Goldwasser, 1975; Leopoldi, 1978; Queiroz, 1992; Risério, 1981; Rodrigues, 1984e outros) descrevê-lo. Basta lembrar que a participação no Carnaval foi capaz de gerar várias agremiações que por sua vez vêm se constituindo em verdadeiras ONGs, com reivindicações e ações sociais bem definidas, como as realizadas pela comunidade da Mangueira no Rio de Janeiro, Olodum em Salvador, Vai-Vai em São Paulo e outras, que mantem centros de apoio a pessoas carentes, escolas e projetos de conscientização da população que adere ao Carnaval, além de gerar empregos e todo um mercado específico, que vai desde tecidos, lantejoulas, fantasias, até instrumentos musicais e discos com sambas-enredos ou marchinhas para carnavais de salão.
Do mesmo modo que o Carnaval, outras festas podem ser entendidas como modelos populares de ação social e até mesmo política (Caldeira, 1984). A organização primária, que se dá com vistas à realização da festa, pode vir a ultrapassar os limites do tempo de sua produção, estendendo-se por outros campos de ação no cotidiano. Especialmente nas grandes metrópoles, onde a experiência do agrupamento e da associação, pode revelar-se construtiva de laços afetivos, relações diretas e personificadas e reforço da capacidade de ação. Como a tudo que engloba, a cidade e a imensa diversidade cultural que lhe é peculiar, dão à festa muitos sentidos. Em lugares como São Paulo, onde a convivência de diversos grupos obriga à reelaboração de conceitos, também as festas têm diferentes faces a serem vistas. Mais que mera "válvula de escape", mais que ser "contra" ou "a favor" da sociedade tal como se encontra organizada, podem também ser o modo próprio de expressão dos grupos de origem, raciais, étnicos, religiosos ou ideológicos, instrumento político destes. Podem ainda ser um modode ação social, uma vez que boa parte das festas mobiliza grande contingente de pessoas e recursos com finalidades filantrópicas, no sentido de cumprirem um papel de apoio à comunidade e seus membros ou de outros grupos. Esta atitude muitas vezes termina por gerar uma consciência da associação como modo de fortalecimento e dando origem a organização, como as de bairro, de mães, de leigos na igreja, ou ainda os Centros de Tradição, como o Nordestino, em São Paulo (Rigamonti, 1997).
Um dos exemplos contundentes deste potencial da festa no Brasil, entre as inúmeras festas paulistanas, talvez seja o ciclo das chamadas “festas italianas”, atualmente compartilhada por outros grupos de origem. No interior de São Paulo, um bom exemplo é a Festa de Peão Boiadeiro que tem se expandido de Barretos para muitas cidades.
Na capital paulistana, o ciclo de festas italianas é composto pelas festas de N. Sra. da Achiropita, San Genaro, São Vito Mártir, Santo Emídio e N. Sra. de Casaluce. São todas festas católicas, que prestam homenagem aos santos (como o Círio de Nazaré e as Festas do Divino), mas também, ou principalmente, festas étnicas . As colônias napolitana, calabresa e cirignolana, tradicionalmente rivais, enfrentam-se nestas festas, disputando quem é capaz de oferecer a melhor homenagem aos seus santos prediletos. As comunidades envolvidas nelas, composta majoritariamente de imigrantes e descendentes destes , de classe média (alta ou baixa), zelam com severa disciplina pelos costumes herdados dos pais e avós, boa parte deles fundados na religião e, segundo alguns participantes, ainda em vigor nos países de origem.
A exemplificação destas festas e principalmente da de N. Sra. da Achiropita, que é o modelo de todas as outras, parece suficiente para demonstrar o modo pelo qual se organizam os grupos de origem ou ascendência italiana nos Bairros do Bexiga, Brás, Vila Prudente e Mooca.
A Associação São Vito Mártir realiza anualmente, há 75 anos, a festa de São Vito no bairro "italiano" do Brás, festa que acontece durante sete semanas, a partir do começo de junho. Além de festejar São Vito, a festa tem como objetivo arrecadar fundos para a construção e manutenção de uma escola e uma creche mantidas pela associação.
O mesmo acontece com a Festa de Santo Emídio, realizada durante cerca de três semanas pela população de Vila Prudente, na capital de São Paulo. A paróquia de Santo Emídio homenageia o santo há 53 anos, durante todo o mês de agosto e a principal atração da festa, além da procissão, são as massas, comida típica italiana. Canelones, pizzas, lasanha, rondelli, entre outras, com molhos variados, fazem parte da tonelada de massas "oferecida" durante a comemoração. Para fazer toda essa comida, cerca de quinhentos casais da comunidade se reúnem para arrecadar dinheiro através de outras festas, doações dos comerciantes, bingos, rifas e do auxílio de instituições públicas, como a Administração Regional do Bairro e a ELETROPAULO. Uma das participantes conta que em 1993 foram necessários cerca de trezentos e vinte mil dólares para que a festa fosse realizada.
Conseguidos os recursos (geralmente através da realização de bailes, bingos, rifas e bazares nas casas dos organizadores, nos quais os prêmios e prendas são oferecidas pelos moradores e comerciantes do bairro) para a compra dos ingredientes das massas, molhos etc., a comunidade passa a dedicar todo seu tempo à execução dos pratos, que são vendidos nas ruas dos bairros, em barracas ou galpões, prontas ou cruas, com acompanhamentos diversos. Além das massas, há também espetáculos musicais de artistas da própria comunidade e todos os domingos, a partir das 13 horas, são realizados shows com uma orquestra.O lucro auferido nestas festas fica sempre em torno de 20% do dinheiro investido em sua organização. É um lucro alto, considerando-se que o investimento na festa é feito coletivamente, tornando mínimas as contribuições individuais que, somadas aos patrocínios e o apoio do Estado compõem o total do investimento. Em 1993 foram conseguidos cerca de seis mil dólares, todos eles destinados à assistência social no próprio bairro. Nos 53 anos de existência da festa de Santo Emídio, já foram construídas creches, asilos para idosos e a própria igreja matriz do bairro, e as verbas arrecadadas com a festa de 1993 tinham como destino a construção de quatro salas de aula para crianças carentes da região.
A Festa de N. Sra. da Achiropita
Estas festas costumam seguir o modelo (não apenas em termos da festa, mas também da preparação e realização), desenvolvido originalmente pelos moradores do bairro do Bexiga, famosos cultuadores de N. Sra. da Achiropita, cuja festa, estudada por Maria Coimbra (1987), é uma das mais populares e tradicionais da capital paulista. São ao todo dez noites de festa italiana, sempre aos sábados e domingos, no período que geralmente vai do começo de agosto ao começo de setembro.
“A festa no Bexiga ocorre em agosto, tendo seu momento culminante próximo ao dia 15, quando é realizada a procissão. Mas os preparativos iniciam-se em abril e talvez já no término da festa anterior. Enquanto se vive a lembrança da festa que passou cultiva-se a expectativa da próxima. Em seu primeiro momento, a entrega da bandeira para o festeiro do ano seguinte marcava simbolicamente o início da próxima festa. A festa, de certa forma, não se interrompe.”(Coimbra, 1987: 53).A origem do culto a N. Sra. da Achiropita, segundo a Igreja, se dá em 580 d.C., quando um capitão chamado Maurício chegou por engano a uma aldeia calabresa e um monge local profetizou que ele havia sido mandado para lá por Nossa Senhora, que ele se transformaria em imperador e naquele vilarejo construiria um templo. Dois anos depois, Maurício, já imperador, seguiu as palavras do monge e mandou erguer um santuário dedicado a Nossa Senhora. Porém, a imagem que era pintada durante o dia desaparecia à noite. Em uma dessas noites, uma senhora visitou o templo. Quando o vigia entrou no santuário, preocupado com a mulher que demorava a sair, encontrou a imagem de Nossa Senhora pintada na parede. O guarda chamou as pessoas que passavam na rua, gritando "Achiropita!", palavra que significa, "não pintada” (pela mão do homem). O culto a N. Sra. da Achiropita se espalhou entre a comunidade italiana de São Paulo, e só existem duas igrejas dedicadas a ela em todo o mundo.
Para a festa são instaladas, na rua 13 de Maio, no quarteirão da igreja, quinze barracas que funcionam das 18 às 24 horas. Estas barracas oferecem os pratos típicos italianos, como as pastas (macarrões), as fogaças e pizzas, bebidas etc. Elas são gerenciadas por pessoas do bairro, que prestam contas à Associação, no final da noite. Na "Cantina Madonna Achiropita", além da grande mesa com pratos frios e quentes, há música italiana típica, ao vivo, com diversos cantores, danças, leilões e sorteio de brindes. Ali são servidas, também, deliciosas comidas italianas, preparadas carinhosamente pelas "mammas" (mães italianas, ou que dominam a preparação dos quitutes italianos) da comunidade. A partir das terças-feiras, em todas as semanas, as “mammas” se envolvem em tempo integral na preparação de pratos como fogaça, fricazza, espaguete à moda Achiropita, polenta, antepastos, peperoni al forno, melanzana al forno, sfogliatelli e canolli, entre várias outras especialidades bastante disputadas. Os preços na Cantina são mais altos que os da rua, e muitos participantes da festa dizem que na Cantina a comida é, também, melhor.
Para atender às mais de 100 mil pessoas, que costumam comparecer à festa, são consumidos por volta de cinco toneladas de farinha de trigo, três toneladas de espaguete, 2500 latas de óleo, 3500 quilos de muzzarela, dez mil litros de vinho à granel, 15 mil litros de chope e 15 mil litros de refrigerantes. Colaboram também para a festa, doando materiais ou concedendo desconto especiais de seus produtos, a Antártica, a Etti, a Adria e a J. Macedo. Igualmente a Escola de Samba Vai-Vai, reduto de sambistas paulistanos, dá sua contribuição, participando das festividades com muito samba (Folha de São Paulo, 03/08/1997; Site, 1996; Coimbra, 1987).
A festa ainda tem atrativos como as danças e canções napolitanas, a apresentação de grupos folclóricos e a "linha de produção" da fogaça, com mais de cem pessoas sob o comando de “seu” Vicenzo e dona Neuza. A preparação dos alimentos insere-se em parte na estrutura de economia tradicional, pois apresenta aspectos de mutirão, artesanais e o falatório que descontrai e ameniza o esforço dos que trabalham, além de envolver os clássicos segredos culinários. A participação de famílias, cujos membros trabalham em conjunto e não isoladamente, também é comum. Entretanto, a festa cresceu de tal forma que se tornou impossível preservar todas as características artesanais do preparo dos alimentos. Foi necessário confiar a uma padaria do bairro a preparação da massa da fogaça. O macarrão também é industrializado, embora os molhos continuem a ser preparados artesanalmente pelas “mammas” (Coimbra, 1987).
Outro costume da festa é o gigantesco queijo provolone com dois metros de comprimento e cerca de cem quilos, um dos prêmios mais cobiçados da festa, entre inúmeros outros, sorteado entre os que freqüentam as barracas.
Na igreja, durante todo o período da festa, há visitação à Santa, paralelamente às orações e bênçãos. É costume a igreja ficar completamente lotada de fiéis e nas horas das bênçãos, a demonstração de fé à N. Sra. da Achiropita é mais intensa.
A parte profana da festa desenvolve-se paralelamente às atividades religiosas, entre elas a tradicional Novena da Achiropita, que acontece durante a semana, sempre às 20 horas, com a animação de corais especialmente convidados. Em 1996, a Novena relembrou a cada dia um momento da história da paróquia, que comemorava então 70 anos de existência, embora os italianos do Bexiga afirmem comemorar N. Sra. da Achiropita há pelo menos 90 anos.
"A festa de Nossa Senhora da Achiropita é a mais tradicional do bairro, sem dúvida.[...] a festa tem quase 90 anos. Antes era uma capela, não era reconhecida pelo clero, não tinha padre e todo casamento ou batizado tinha que ser feito na Igreja do Divino Espirito Santo, na rua Frei Caneca [...]. No dia 19 de março de 1926, o clero reconheceu aqui como Igreja graças ao esforço do coronel Nicolau dos Santos. Então hoje a turma da Achiropita fala dos 68 anos de festa, mas eu tenho depoimentos que desmentem isso, inclusive do "seu“ José Scaramuzza [...]. Ele era um grande festeiro e eu tenho o depoimento dele dizendo que em 1906 já existia a festa, maior do que hoje. Vinham até bandas da Itália tocar” (Seu Armandinho do Bexiga, apud Moreno, 1996).
A procissão em louvor à Nossa Senhora Achiropita, pelas ruas do bairro (com a costumeira homenagem dos alunos da Escola Maria José, que confeccionam o tapete de flores da rua Manoel Dutra), é também esperada e minuciosamente preparada, do mesmo modo que a Festa da Apoteose, no encerramento, com atrações especiais na rua e na cantina da Madonna, onde o espírito comunitário aflora. No tapete, feito de flores, tampinhas de garrafa e serragem, as inscrições feitas pelos jovens demonstram suas preocupações. Em 1997 uma delas lembrava o sociólogo Betinho, outra recomendava o uso de camisinha no combate à AIDS e outra mais exaltava o futebol.
Ainda hoje é possível ver, nas janelas de alguns prédios, toalhas e lençóis estendidos, para saudar a santa, como era comum nos velhos tempos. Este costume servia, inclusive, para sublinhar as distinções entre os ricos e os pobres do bairro. Atualmente esta prática incorporou-se aos símbolosda festa, depois de reconquistada pela ação dos moradores, que a haviam abandonado durante alguns anos em razão do desânimo que a intervenção excessiva da Igreja, ditando regras e “organizando” a seu modo o evento, causou.
“Essa era uma hora também de mostrar o potencial econômico. A filha do fulano ia com aquela seda; o do pobre ia com cetim, sei lá. E a segunda coisa para mostrar o potencial financeiro da pessoa, que eram os quiaquiarones, eram as colchas na janela. Toda casa punha uma colcha na janela. Você passava na casa dos Biondi, dos Pórrio, dos Tenaglia, por exemplo, era aquela colcha de seda. Passava na casa do meu avô, era colcha vagabunda. Eles faziam questão de mostrar, pela colcha, quem cada um era. E era uma homenagem que se prestava à santa. Em 1982 tinha morrido isso. Então, a comissão da União do Bixiga (era eu e o Walter Taverna), antes da procissão, fizemos uns cartazes e fomos entregando de casa em casa, de prédio em prédio onde ela ia passar, pedindo para todo mundo voltar a colocar colcha na janela. Foi a coisa mais bonita que já vi! Uns 60% das janelas, dos prédios, tinham uma toalha (jogavam papel picado), tinha até toalha de rosto, nos cortiços etc. Mas tinha. Tem uma foto lá no museu que mostra a colcha e o altar da família Scarlatto. Eles colocavam na janela. Até hoje eles fazem” (Seu Armandinho do Bexiga, apud Moreno, 1996).A retomada da organização da festa, segundo Coimbra (1987) foi de fato uma conquista dos moradores do bairro, que conseguiram estabelecer uma mediação entre seus interesses na festa e os da igreja. São eles, inclusive, que decidem, atualmente, de que modo será aplicado o lucro obtido com ela.Como acontece na Festa do Divino e muitas outras ainda hoje, a Festa da Achiropita, no princípio também era promovida por um festeiro anual, escolhido por sorteio entre os candidatos ou por promessa. Atualmente esta figura se tornou coletiva, uma vez que toda a comunidade se responsabiliza pela festa.
”Alguns informantes contam que, para angariar prendas, a comissão de festeiros contratava uma banda, que percorria as ruas do bairro com um estandarte e a imagem da santa, indo até o largo de Piques. Os festeiros acompanhavam a banda, arrecadando bebidas, cabritos, leitões e perus, que depois de assados seriam leiloados . Realizavam-se muitos leilões, mas não se montavam barracas de comida.”(Coimbra,1987:71).Eram os comerciantes donos de armazéns que davam as grandes prendas, que eram levadas das casas numa carroça que a comissão possuía. Para angariar fundos para a construção da igreja, a comissão angariou dinheiro, objetos de ouro e mesmo utensílios de uso doméstico (como panelas) oferecidas à Santa por seus devotos. Ainda hoje é com doações dos moradores e comerciantes que se conseguem as prendas das festas, embora já não se use uma carroça (Coimbra, 1987).“É tradição de quase todas as padarias do bairro oferecerem pães italianos. [...] O proprietário de uma churrascaria do bairro dá toda a carne e lingüiça necessários ao consumo da barraca de churrasco; uma família de origem italiana, residente no bairro, doa as flores para enfeitar o andor. Para angariar fundos, meses antes da festa a igreja lança a campanha de mensalistas. [...] Para contribuir as pessoas [que têm conta bancária] vão ao banco e assinam uma carta autorizando a fazer um desconto mensal de uma determinada quantia [...] Muitas empresas também colaboram, fornecendo, por exemplo, aventais, guardanapos, copos ou o programa da festa, sempre com o símbolo (marca) da empresa doadora” (Coimbra, 1987: 134).A comida também foi introduzida, mais tarde, na festa, que até então seguia o estilo de quermesse. A descoberta do interesse do público em geral pela comida das “mammas" resultou em que ela fosse introduzida na festa, em barracas, o que afinal acabou se tornando tradição.“No início [1910] a festa era na rua com algumas barracas, não tinha comida. Depois a festa foi para o pátio da igreja e só em 79 ela volta para a rua. Os italianos faziam a festa para eles e a paróquia começou a pegar o dinheiro que eles arrecadavam. Aí acabou o entusiasmo. Antes de 1926 a festa não era só para construir a igreja. Era também por causa da confraternização”(Sr. A, informante deCoimbra, 1987: 104).
Os organizadores não cansam de repetir que o sucesso da festa se mede pelo crescente público que prestigia o evento, fruto do trabalho voluntário de seiscentos membros da comunidade do Bexiga."É um trabalho por doação, que busca aliar a alegria, inerente às festas típicas italianas, à fé em Nossa Senhora Achiropita", diz Eustachio Zuardi, mais popularmente conhecido como "seu Nino". Ele e a esposa, dona Nancy, formam um dos cinco casais responsáveis pela coordenação do evento. "A festa de Nossa Senhora Achiropita tem crescido em importância, a cada ano, em razão da aplicação social de seu resultado financeiro", lembra padre Toninho, o atual pároco. Para ele, "Jesus Cristo buscou na imagem das festas a melhor maneira de explicar, na utopia cristã, o prenúncio do Reino do Céu" (Site 1997).
O investimento social dos recursos arrecadados na festa
A arrecadação obtida através da festa pela Igreja Nossa Senhora da Achiropita, é toda revertida para as obras assistenciaisdos fiéis da santa. Entre os projetos desenvolvidos estão o Centro Educacional Dom Orione (CEDO) e a Casa Dom Orione, que recebem e abrigam crianças e adultos carentes. Desde 1989, quando foi criado, o CEDO abriga 320 crianças carentes com idade entre 7 e 15 anos. Lá elas recebem aulas de reforço escolar, treinamento profissional e participam de atividades culturais. O CEDO surgiu a partir da constatação e preocupação com a exploração dos menores carente do bairro, moradores dos cortiços, por pessoas vindas de outras regiões na cidade. Assim, o primeiro objetivo do CEDO foi orientar estas crianças para a vida profissional. “Quando cheguei à paróquia, era comum ver crianças na rua com pedras nas mãos para roubar toca-fitas de carros [...] Precisávamos fazer algo para que as pessoas parassem de usar as crianças”, diz padre Toninho (Site, 1997).
Em outubro de 1996, as Obras Assistenciais Nossa Senhora da Achiropita e a PETROBRÁS assinaram um convênio para que os adolescentes apoiados pela comunidade ao completarem 14 anos possam fazer um estágio de dois anos na empresa. Por meio deste convênio os alunos do CEDO poderão entrar em contato com o ambiente de trabalho e conhecer como funciona uma grande empresa, aprender métodos e linguagem de trabalho, computação e capacitando-se para o mercado.
A Casa Dom Orioni também acolhe mulheres e homens de rua, oferecendo roupas, alimentação e local para tomar banho. Atualmente ela recebe diariamente 120 pessoas, todas cadastradas pela entidade. Foi criado, ainda, a partir da experiência de organização da festa, o “Grupo de Terceira Idade”, com atividadesde lazer e integração social para maiores de 60 anos. Além disso, a igreja presta serviços de assistência médica, psicológica, odontológica e jurídica para os carentes do bairro. Carmem Cinira Macedo observa que :
“Fazer festa é [...] também uma forma de prestígio e prover uma relativa redistribuição de bens. As festas contribuem para renovar os vínculos de sociabilidade tanto quanto definem um campo de relativa competição social” (Macedo, 1985:45).Em sociedades de grandes diferenças sociais e extrema concentração de renda, este tipo de ação propicia aos pobres ajudarem os próprios pobres, pois é da concentração de pequenas quantias doadas por muitas pessoas, que se faz o total a ser redistribuído.Para aumentar o número de obras sociais e preencher os vazios deixados pela falta de ação social do Estado, a festa deve crescer a cada ano assim como seus objetivos. Com este crescimento também aumenta anualmente a necessidade da colaboração de empresas e entidades que ao promoverem eventos paralelos em homenagem à N. Sra. da Achiropita, acabam por interferir nela, nem sempre de modo bem vindo pelos que participam da festa. Walter, um assíduo freqüentador das festas da Achiropita, há pelo menos 10 anos, diz que tem se tornado excessiva a quantidade de publicidade inserida na festa, descaracterizando-a. Mesmo a comida, diz ele, já tem perdido a qualidade, dado o ritmo de produção em que é preparada com o intuito de servir a todos os convidados em tempo recorde.
A festa vem sendo divulgada em jornais, rádio e televisão, e este é também um dos fatores de seu progressivo e quase incontrolável crescimento. Em 1996 foi inaugurado o site do Bexiga na Internet, para comemorar os 70 anos da paróquia e divulgar ainda mais a festa e seus resultados.
As pessoas que participam do processo de produção da festa estabelecem ainda uma espécie de “carreira” na política da festa e da igreja, como é o caso de Dona Daisy, sobre a qual Maria Fernanda Vomero, jornalista que “milita” na Festa da Achiropita (já foi bandejeira e já fez parte da “barraca da fogaça”, vendendo-as), diz que:
“Construiu uma família unida e uma sólida caminhada em comunidade. Começou como diretora social da Festa d’Achiropita e membro do Encontro de Casais com Cristo (ECC). Já passou também pela pastoral do batismo. Hoje, é catequista, Ministra da Eucaristia e Coordenadora do Apostolado da Oração. Não pretende abandonar o bairro e, muito menos, a paróquia”. (Maria Fernanda Vomero, 1997, grifos meus).Além disso, a participação e a ascensão, através do trabalho coletivo, não apenas no que diz respeito aos cargos mas também em relação ao prestígio que se consegue, têm o sentido da efetiva ação em termos da realização de anseios por uma sociedade melhor e mais justa. Neste tipo de ação, é necessário aprender a lidar com vontades divergentes, diferentes estilos e possibilidades de ação, verbas, conceitos religiosos, mazelas do cotidiano, dificuldadesburocráticas, legislaçõesmunicipais, estaduaise federais, tudo isto podendo ser compreendido como um aprendizado de cidadania, mesmo se podemos dizer que ela ainda é muito “paralela”. O exemplo de Rita de Cássia Melita, citado por Maria Fernanda Vomero no site da Achiropita é esclarecedor do significado e tipo de compensação que é possível extrair da participação na festa:“Rita ingressou na Festa de N. Sra. Achiropita graças a um convite da sogra, que a chamou para esticar massa de fogazza. Dona Sofia, italiana legítima, era tão dedicada e atuante que impressionava até mesmo os parentes. "Posso dizer que ela deu a vida por essa comunidade", conta. O exemplo da avó, já falecida, marcou os três filhos de Rita [...] que, incentivados também pelo empenho da mãe, participam ativamente da paróquia desde pequenos. Hoje, os quatro estão trabalhando juntos na equipe do Visual da Festa, responsáveis pela decoração da cantina. São 19 anos, dos seus 40 de vida, dedicados à quermesse de agosto. Rita já esticou fogazza, coordenou a barraca de doces e a da fogazza na rua, vendeu souvenir, foi responsável pelo almoxarifado e por um setor da cantina. Quando começou a participar da Festa, o prédio das Obras Sociais, que hoje abriga o Centro Educacional Dom Orione, não existia ainda. "Mas era um sonho das pessoas que trabalhavam aqui. E eu senti que comecei a fazer parte deste sonho", recorda-se, com carinho. "Cada vez que você estica uma fogazza, joga farinha e frita, que você oferece um doce ou um prato de macarrão, seu ato vai concretizando esse sonho conjunto". Por isso, foi gratificante para ela alguns anos mais tarde ser efetivada como monitora do C.E.D.O. e poder também dar aula de catequese às crianças de lá. Atualmente [...] coordena, inclusive, o grupo da Terceira Idade, que funciona na Casa Dom Orioni; outro fruto daquele sonho conjunto. "Este sonho foi realizado, mas a gente quer que o projeto continue, que o sonho não se perca nunca". A caminhada não pode parar. Pensando nisso, Rita constata, feliz, a dedicação de seus filhos [...] à Festa d’Achiropita, è às obras da comunidade. "Estamos vivenciando o trabalho juntos", diz.”(Site, 1997).