As Festas Juninas
Rita Amaral
Aulas Particulares de Formulação de Projetos Acadêmicos
Ciências Humanas e Biológicas
Rita Amaral  ritaamaral@pobox.com
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Este texto faz parte da tese de Doutoramento em Antropologia Social de Rita Amaral, Festa à Brasileira - sentidos do festejar no país que "não é sério" defendida junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Brasil, no ano de 1998. Veja como citá-la clicando aqui

O forró corria solto,
Sem problema e sem vexame
Quando o chefe da quadrilha
Decretou changedidame [...]
E foi doente com doutor
Era indigente e protetora
Foi aluna com professor
O perigoso bandoleiro
Zé Durango, El Justicero
Fez beicinho pro promotor
(Mas faça o favor!)
O forró estereofônico
Estava mesmo um barato
Muita música na praça,
Muita dança lá no mato [...]
E este ano, como todo ano
Uma vez por ano
Tem quadrilha no arraial
E este ano, como sempre,
Salvo chuva e salvo engano,
A satisfação é geral
(ninguém leva a mal)”
(“Quadrilha”, de Chico Buarque)
 
 
 

Três santos são efusiva e intensamente comemorados em junho, em todo o Brasil, desde o período colonial: Santo Antônio, São João e São Pedro. No nordeste brasileiro principalmente, estes santos são reverenciados e pode-se dizer que a importância destas festas, para as populações nortista e nordestina, ultrapassa a do Natal, principal festa cristã, e que elas são, historicamente, o evento festivo mais importante destas regiões, tanto cultural como politicamente.

Acredita-se que estas festas têm origens no século XII, na região da França, com a celebração dos solstícios de verão (dia mais longo do ano, 22 ou 23 de junho), vésperas do início das colheitas. No hemisfério sul, na mesma época, acontece o solstício de inverno (noite mais longa do ano). Como aconteceu com outras festas de origem pagã, estas também foram adquirindo um sentido religioso introduzido pelo cristianismo, trazido pela igreja católica ao Novo Mundo.A comemoração das festas juninas é certamente herança portuguesa no Brasil, acrescida ainda dos costumes franceses que a elas se mesclaram na Europa.

O ciclo das festas juninas gira em torno de três datas principais: 13 de junho, festa de Santo Antônio; 24 de junho, São João e 29 de junho, São Pedro. Durante este período, o país fica praticamente tomado por festas. De norte a sul do Brasil comemoram-se os santos juninos, com fogueiras e comidas típicas.

É interessante notar que não apenas o dia, propriamente dito, mas todo o mês, é considerado como tempo consagrado a estes santos na região e, principalmente, as vésperas , que é quando se realizam os sortilégios e simpatias, a parte mágica da festa típica do catolicismo popular. Inúmeras adivinhações a respeito dos amores e do futuro (com quem se vai casar, se se é amado ou amada, quantos filhos se vai ter, se se vai morrer jovem ou ganhar dinheiro etc.) são feitas nas vésperas do dia dos santos, em geral de madrugada.

A primeira das festas do ciclo junino é a de Santo Antônio. A véspera deste dia, significativamente, foi escolhida oficialmente como Dia dos Namorados, no Brasil.

Imgem de Santo Antonio vendida em Bom Jesus da Lapa, Bahia. Foto de Adenor Gondim, 2000O culto de Santo Antônio é, como o de São João, herança portuguesa. Sendo um santo português, nascido em Lisboa, era também um dos mais populares e cultuados tanto em Portugal quanto no Brasil-Colônia. Segundo os portugueses, a ação de Santo Antônio era fundamental na guerra e seu nome funcionava como arma contra perigos imbatíveis. No Brasil seu papel de militar foi importante, também, dadas as inúmeras guerras e revoltas durante as quais era invocado. E tanto fez ao lado das forças armadas brasileiras que recebeu patente e mesmo soldo em várias companhias do exército brasileiro. Recebeu ainda, por esta razão, o apoio dos militares, com dinheiro e prestígio, às suas igrejas, obras e festas. É incontável o número de homenagens a Santo Antônio, igrejas construídas em seu louvor, nomes de ruas, praças, pessoas etc., na história e geografia brasileiras.

Atualmente Santo Antônio já não é mais cultuado como militar e sim como casamenteiro e deparador de coisas perdidas. Cascudo (1969) cita um trecho de um sermão do padre Antônio Vieira no Maranhão, em 1656, em que são relevados os maravilhosos poderes deste santo na resolução de vários problemas da vida humana:

Se vos adoece o filho, Santo Antonio; se vos foge o escravo, Santo Antônio, se mandais a encomenda, Santo Antônio, se esperais o retorno, Santo Antonio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se aguardais a sentença, Santo Antônio, se perdeis a menor miudeza da vossa casa, Santo Antônio; e, talvez, se quereis os bens alheios, Santo Antônio.” (Padre Antonio Vieira, apud Cascudo, 1969: 128).
Segundo Gilberto Freire (1995) a escassez de portugueses na colônia sublinhou o valor do casamento ou mesmo da procriação (com ou sem o casamento), o que tornou populares os santos padroeiros do amor, da fertilidade, das uniões e instaurou uma grande tolerância para com toda espécie de reunião que resultasse no aumento da população no Brasil. Estes interesses abafaram não apenas os preconceitos morais como os escrúpulos católicos de ortodoxia.

Assim, os grandes santos nacionais tornaram-se, à época, aqueles aos quais a imaginação popular atribuía milagrosa intervenção capaz de aproximar os sexos, fecundar mulheres e proteger a maternidade, como Santo Antônio, São João, São Pedro, o Menino Jesus, N. Sra do Bom Parto etc.. A crença de que Santo Antônio se “devidamente” invocado, perturbado com pedidos de todo tipo e até mesmo “torturado”, arranja casamento mesmo para a mais sem graça das moças é muito difundida, e é esta a qualidade mais prezada do santo durante as festas juninas. São João também já teve estas funções e também São Gonçalo (que continua sendo invocado com esta finalidade através de danças, no interior do Brasil) como mostra Freire:

 
Uma das primeiras festas, meio populares, meio de igreja de que nos falam as crônicas coloniais do Brasil é a de São João já com fogueiras e danças. Pois as funções deste popularíssimo santo são afrodisíacas; e ao seu culto se ligam até praticas e cantigas sensuais. É o santo casamenteiro por excelência. [...] As sortes que se fazem na noite ou na madrugada de São João, festejado a foguetes, busca-pés e vivas, visam no Brasil, como em Portugal, a união dos sexos, o casamento, o amor que se deseja e não se encontrou ainda. No Brasil faz-se a sorte da clara de ovo dentro do copo de água; a da espiga de milho que se deixa debaixo do travesseiro, para ver em sonho quem vem comê-la; a da faca que de noite se enterra até o cabo na bananeira para de manhã cedo decifrar-se sofregamente a mancha ou a nódoa na lâmina; a da bacia de água, a das agulhas, a do bochecho. Outros interesses de amor encontram proteção em Santo Antônio. Por exemplo, as afeições perdidas. Os noivos, maridos ou amantes desaparecidos. Os amores frios ou mortos. É um dos santos que mais encontramos associados às práticas de feitiçaria afrodisíaca no Brasil. É a imagem desse santo que freqüentemente se pendura de cabeça para baixo dentro da cacimba ou do poço para que atenda às promessas o mais breve possível. Os mais impacientes colocam-na dentro de urinóis velhos. São Gonçalo do Amarante presta-se a sem cerimônias ainda maiores. Ao seu culto é que se acham ligadas as práticas mais livres e sensuais. Atribuem-lhe a especialidade de arrumar marido ou amante para as velhas, como São Pedro a de casar as viúvas. Mas quase todos os amorosos recorrem a São Gonçalo”. (Freire, 1995: 246).


As danças de São Gonçalo, conhecidas como “são gonçalinho”, visam propiciar o casamento, do mesmo modo que as simpatias com a imagem de Santo Antônio, que são até hoje populares no interior do nordeste brasileiro (Dantas, 1976a; Martins,  1954; Queiróz, 1958). A festa de São Gonçalo descrita por La Barbinais no XVIII e citada por Gilberto Freire, mostra características de orgias rituais e lembra mesmo os festivais pagãos. Uma festa de amor e fecundidade:

 
Danças desenvolvidas ao redor da imagem do santo. Danças em que o viajante viu tomar parte o próprio vice-rei, homem já de idade, cercado de frades, fidalgos, negros. E de todas as marafonas da Bahia. Uma promiscuidade ainda hoje característica das nossas festas de igreja. Violas tocando. Gente cantando. Barracas. Muita comida. Exaltação sexual. Todo esse desadoro - por três dias e no meio da mata. De vez em quando, hinos sacros. Uma imagem do santo tirada do altar andou de mão em mão, jogada como uma peteca de um lado para o outro. Exatamente - notou La Barbinais - ‘o que outrora faziam os pagãos num sacrifício especial anualmente oferecido a Hércules, cerimônia na qual fustigavam e cobriam de injúrias a imagem do semideus’” (Freire, 1995: 248)
Para Freire, estes são sinais de uma festa já influenciada, na Bahia, por elementos orgiásticos africanos que teriam sido absorvidos no Brasil. Mas o “resíduo pagão” teria mesmo sido trazido pelos portugueses, com seus “cristianismo lírico”, suas festas de procissões alegres em que apareciam, como já vimos, tanto Nossa Senhora fugindo para o Egito, como Mercúrio, os Ventos, os Continentes (deuses gregos e romanos), o Menino Deus, ninfas, anjos, sátiros, patriarcas, reis, imperadores etc..
“Um catolicismo ascético, ortodoxo, entravando a liberdade aos sentidos e aos instintos de geração teria impedido Portugal de abarcar meio mundo com as pernas. As sobrevivências pagãs no cristianismo português desempenharam assim importante papel na política imperialista. As sobrevivências pagãs e as tendências para a poligamia desenvolvidos ao contato quente e voluptuoso com os mouros” (Freire, 1995:250).
Freire também observa, portanto, a capacidade das festas de estabelecerem, através do desregramento possível, ou da inserção nela de múltiplas regras, a mediação entre as culturas e movê-las em direção ao objetivo comum de construção da sociedade brasileira. E neste sentido, tanto a festa de São Gonçalo, como as juninas e outras parecem ter desempenhado papel preponderante. No nordeste, contudo, as festas juninas prevalecem como as mais atrativas e de maior investimento popular.
 
 

Bandeirolas Bahia
Foto de Adenor Gondim. 1999

Atualmente comemora-se Santo Antônio do mesmo modo que se comemora São João e São Pedro embora as intenções das festas sejam diferentes. E apesar da religiosidade envolvida, a maior atração, que faz com que todos se reúnam (mesmo os não-católicos) para comemorar as festas juninas são, de fato, as fogueiras, batatas-doces assadas, canjica, quentão, milho verde assado, pipocas, quadrilhas, bumbas-meu-boi, simpatias, fogos de artifício, bombinhas e brincadeiras, enfim, toda a alegria que envolve estas festas. Talvez porque no Nordeste, ainda se mantêm rígidos padrões de comportamento, quebrados temporariamente durante as festas juninas quando, “salvo chuva e salvo engano, a satisfação é geral”.
 
 
 
 

O São João como fato social total

Quadrilha de São JoãoNo nordeste brasileiro, a perspectiva das festas juninas transforma as cidades e o espírito das pessoas, que parecem sentir uma irresistível atração e afinidade pela festa. Muitos nordestinos que se encontram fora de seus estados costumam economizar dinheiro, comprar presentes e voltar com eles para sua cidade natal na época das festas juninas, a fim de comemorar os santos. No sudeste é comum que nordestinos abandonem seus empregos, faltem por toda uma quinzena, peçam licença ou ofereçam-se para trocar o período do Natal por alguns dias de folga em junho, ou ainda negociem suas férias para gozá-las no meio do ano e poderem estar presentes às festas juninas, em sua terra. O mês de junho é um mês do refluxo migratório e as companhias de transporte rodoviário e aéreo atestam este fato. Os que não voltam para suas cidades a fim de participar da festa podem encontrar alternativas nas festas juninas realizadas nos grandes centros urbanos sob iniciativa das Secretarias de Cultura .
 

O “São João” (modo pelo qual se referem os nordestinos ao ciclo de festas do mês de junho), principalmente, adquire tal importância na vida social nordestina que não apenas é fonte de preocupação durante todo o ano (quando se poupa dinheiro a ser investido na participação na festa ou se organizam eventos a serem apresentados nela), como ainda move interesses políticos e econômicos que poucas vezes se imagina. De acordo com as informações dos jornais, televisões e rádios, de todo o Brasil, a festa de São João esvazia o Plenário do Congresso, em Brasília. Para se ter uma idéia da importância do São João nordestino, basta saber que em 1993 promessas de cargos e de não cortar algumas emendas de deputados durante a reprogramação orçamentária não foram suficientes para ajudar a aprovar o IPMF e o governo só conseguiu a participação geral no plenário no dia 22 de junho de 1993 porque prometeu a cada um dos deputados nordestinos que eles teriam reservas nos aviões para retornarem a seus Estados antes das festas de São João, que começariam no dia 23 de junho à noite. A deputada Roseana Sarney (PFL-MA) declarou:

“As pessoas do Sul do país podem não acreditar, mas as festas de São João são tão importantes para o político nordestino que poderiam impedir a votação do IPMF”. (Folha de São Paulo, 21/06/1993).
O deputado Gustavo Krause (PFL-PE), acrescenta:
“Eu sou um caso raro de político nordestino que não deverá passar o São João com suas bases, porque vou a São Paulo, mas por conta disso minha família está rompida comigo”.(Folha de São Paulo, 21/06/1993).
Já José Carlos Aleluia, (PFL-BA), era um dos casos dos muitos deputados que se jogam de cabeça nas festas de São João:
“Viajo nesta quarta feira pela manhã para a Bahia, passo o São João no carro, visito os arraiais e quadrilhas em cerca de dez municípios distribuídos por cerca de 2.000 km do interior [...] se eu não for, não me reelejo”. (Folha de São Paulo, 21/06/1993).
O deputado federal Tony Gel (PRN-PE) preferiu passar o São João em Caruaru (PE).
“Deveria estar em Brasília, mas o São João em Caruaru é o maior de todos os tempos este ano e é impossível ficar longe dele”.
Tony Gel disse ainda que votaria pela aprovação da regulamentação, mas:
“Não vejo a votação como importante. É sempre mais um imposto e acho que não é fundamental para o país” (Folha de São Paulo, 21/06/1993).
Para o deputado, a festa é mais importante. Ela é que é do interesse popular em junho e o distanciamento entre a política oficial (a do Estado) e a política “paralela” (local e da festa) se revela em seu comportamento, uma vez que ele percebe que o povo não o reelegerá se ele não participar da festa. Seu discurso sugere que seus eleitores não se importam tanto se sua ausência no plenário ajuda a aprovação de mais um imposto. Seu lugar, em junho, é na festa de São João, mais que no Plenário do Congresso. A política da festa local adquire assim, maior relevância que a nacional.

Com o desenvolvimento dos meios de comunicação e a descoberta das festas como produto turístico a partir dos carnavais carioca, baiano e pernambucano, as grandes festas populares brasileiras ganharam espaço na mídia e, a partir disso, recursos do Estado para sua implementação como evento oficial. O crescimento das festas juninas de Caruaru e Campina Grande é significativo das transformações pelas quais a festa tradicional vem passando e do modo como vem se inserindo na modernidade. Ela tem absorvido elementos novos sem abandonar suas principais características e mediando as relações entre tradição e modernidade, urbano e rural, entre muitas outras, de todas as festas.
 
 
 

O “Maior São João do Mundo”

Talvez o melhor exemplo do crescimento e importância que o São João vem adquirindo na região nordeste possa ser expresso pela festa de Caruaru, em Pernambuco, que compete pelo título de “Capital do Forró” com Campina Grande, na Paraíba. Caruaru retém, atualmente, o mais conhecido São João do Brasil, embora, se diga que em grandeza está ao lado do de Campina Grande. Os caruaruenses não concordam com isso:
 
 

‘Campina Grande é uma cidade ridícula a maior parte das ruas não é nem sequer calcimentadas [pavimentada]. Porém é uma cidade industrial e com isso o dinheiro lá entra mais fácil que em Caruaru que é comercial. Mas Caruaru tem mais estrutura para festa” (Eder, 29 anos, habitante de Caruaru).
Toda a infra-estrutura da festa em Caruaru denota que ela se prepara para ser uma nova fonte de renda da cidade, talvez a principal, logo depois das famosas feiras que durante a festa se incorporam a ela. Localizada às margens da BR 232 e distante 132 quilômetros da capital pernambucana, Caruaru é internacionalmente conhecida pela sua feira de artesanato, produtos típicos e, atualmente, pela sua festa de São João. Com pouco mais de 250 mil habitantes, um clima ameno, inesperado para a região, e uma população tida como bastante acolhedora, é a cidade líder na região e um dos mais importantes centros de atividade econômica e cultural do interior nordestino. Lá se encontra o que a UNESCO reconhece como “o maior centro de artes figurativas das Américas” - O Alto do Moura - uma comunidade com mais de mil artesãos que representam no barro o dia-a-dia do homem nordestino, divulgando até mesmo no exterior a arte iniciada há quase um século por Mestre Vitalino e vendida na feira de Caruaru e no próprio Alto do Moura.

Durante todo o mês de junho, noite ou dia, os acordes das sanfonas, dos triângulos e das zabumbas, arrastam milhares de pessoas de todo o país ao longo das ruas, nas palhoças e palhoções e por todo o pátio de eventos. São mais de duzentas ruas ornamentadas com bandeirinhas e balões para o forró e o passeio das quadrilhas.

Reunindo pequenas feiras, algumas delas de destaque nacional como a Feira do Gado, a rica Feira de Artesanato, a curiosa e famosa feira do Troca-Troca ou ainda a preciosa Feira de Antigüidades, Caruaru tem a fama de “maior reunião brasileira de folclore”. E há alguns anos, durante o mês de junho, Caruaru se torna um gigantesco arraial.

Toda uma cidade cenográfica foi criada, visando trazer para o centro de Caruaru o “clima da roça”. Toda a cidade cenográfica é enfeitada para receber os turistas que começam a chegar nos lotados “trens do forró”, vindos de Recife para dançar quadrilha e participar da festa que não pára durante todo o mês de junho.

O Trem do Forró é uma das maiores atrações da festa. Ele parte de Recife, percorrendo diversas cidades onde novas pessoas vão entrando e se integrando à festa dentro do trem. No interior do Trem o forró não para de ser tocado, dançado e cantado e todos os vagões são animados por bandas. A partir da entrada do município, no distrito de Gonçalves Ferreira, até a parada final, as pessoas que ficam próximas à linha férrea, formam um verdadeiro cordão humano acenando para os passageiros do Trem durante os 130 quilômetros que separam Recife de Caruaru.

Todo começo de tarde de sábado e domingo de junho, centenas de pessoas esperam pelos turistas do Trem na estação da RFFSA em Caruaru. A cada viagem mais de 600 turistas chegam a Caruaru e a festa fora do Trem, que começa na estação ferroviária, parte para o “Pátio de Eventos Luiz Gonzaga”. Enquanto o Trem do Forró faz a festa para os caruaruenses, estes recepcionam os turistas que chegam, comparecendo em massa e proporcionando animação e calor humano característicos da terra. Ao todo chegam em Caruaru, em junho, dez Trens do Forró, ou seja, seis mil pessoas apenas por via ferroviária.

O próximo momento da festa, depois da chegada do Trem, é o forró dançado no Pátio de Eventos, constituído de uma grande área para shows e da Vila do Forró, a cidade cenográfica. A área dos shows possui um grande palco de 800 m2, que possibilita ao público assistir às atrações musicais de qualquer ponto do Pátio. Durante todo o tempo em que acontecem os eventos, um locutor explica, em inglês, francês e português, os acontecimentos da festa, orientando também os turistas.

Na Vila do Forró tenta-se reproduzir, para que os visitantes possam conhecer e vivenciar, o clima e cultura material de uma “verdadeira cidade do interior” em tempo de festa na menor das cidades. A Vila é uma réplica de um arruado, com casas simples e coloridas, posto bancário, posto dos Correios, delegacia, sub-prefeitura, mercearia, igrejinha, forrós pé-de-serra e restaurantes. Entre as casas, há a casa da rainha do milho, da rezadeira, da parteira, da rendeira, de apresentação de mamulengos e outras personagens do interior. São 1.500 m2 de área cenográfica construída para oferecer, durante o ano todo, um pouco do São João de Caruaru aos turistas, embora a festa mesmo só aconteça em junho. Para a construção da Vila do Forró foram pesquisados nos povoados da zona rural da região os traços arquitetônicos e as cores utilizadas pelos pedreiros, “sem orientação acadêmica” conforme os organizadores afirmam. Algumas casas da Vila , por esta razão, não possuem reboco. (Site, 1997).

A Vila do Forró tem, inclusive, “habitantes”. Atores encenam, de forma bem humorada, o cotidiano de personagens típicos da região como o padre, as beatas, a parteira, o soldado de polícia, o poeta, o prefeito e a primeira-dama, entre outros. O Coronel Ludugero e sua amada Filomena são personagens de destaque na Vila. Estes personagens passeiam pela Vila do Forró e pelo Pátio de Eventos como se fossem reais. Os turistas que vão à Vila do Forró participam, portanto, de uma especial encenação teatral interativa que é mais uma das diferenciadas atrações do São João da “Capital do Forró”.

Outra atração muito popular do São João de Caruaru é a “Caminhada do Forró”, que sai do Pátio de Eventos no dia 9 de junho e é um dos grandes momentos dos festejos juninos de Caruaru. Verdadeira procissão dançante, cantante, de alegria, a caminhada tem como destino final o Alto do Moura, local onde viveu Mestre Vitalino.
 
 

A maior pamonha do mundo
A maior pamonha do mundo





O objetivo final da caminhada de quinze quilômetros é a degustação, ao final do percurso, do “Maior Cuscuz do Mundo”, oferecido gratuitamente aos brincantes. O cuscuz, prato típico do nordeste, é servido com leite de cabra e guisado de bode. Depois de servido o cuscuz, dança-se forró pé-de-serra na palhoça permanente do Alto do Moura. O “Maior Cuscuz do Mundo” é cozinhado em uma cuscuzeira gigante, que tem capacidade para 700 quilos de massa e mede 3,3 metros dealtura e 1,5 metros de diâmetro. O cuscuz consome 300 quilos de massa de flocos de milho, 20 quilos de farinha de mandioca, 5 quilos de sal e 10 quilos de margarina. A edição de 1997 do Guiness Book, cita o “Maior Cuscuz do Mundo” que em 1995 teve 600 quilos.

Outro dos momentos esperados da festa, que confirma o modelo processional do carnaval alcançando uma festa que até há pouco tempo estava excluída dele, é o Desfile Junino, que acontece na noite de Véspera de São João em Caruaru. São dez mil figurantes na rua promovendo uma mostra de todos os personagens folclóricos que fazem do Ciclo Junino uma das maiores festas regionais do país. Seguindo o consagrado modelo processional, presente também em quase todas as festas brasileiras, mais de vinte carros alegóricos reproduzem cenas do cotidiano do homem nordestino, retratando a riqueza da cultura popular da região. Em cada carro a história e os valores do interior pernambucano enriquecem a noite de São João. Os carros são considerados a “versão matuta” das alegorias carnavalescas.

BacamarteirosAlém dos carros alegóricos, há carroças ornamentadas, casamentos matutos, quadrilhas tradicionais e estilizadas, grupos folclóricos, Bacamarteiros, bandas de pífaro, artistas e figurantes e um grande espetáculo pirotécnico. Participam do desfile entidades de classes, alunos da rede escolar, instituições públicas, grupos de comerciantes e a população em geral (Site). O Desfile Junino começa às 20 horas do dia 23 de junho e percorre os três quilômetros da Av. Agamenon Magalhães seguindo em direção ao Pátio de Eventos, acompanhado por uma multidão.

Os Bacamarteiros são outra atração dos festejos juninos. Com os seus “poderosos” bacamartes eles atiram para festejar o Santo Antônio casamenteiro, o nascimento de São João Batista e São Pedro. Por ter em suas origens raízes militaristas, os Bacamarteiros se apresentam divididos em "batalhões", sob as ordens de um "comandante", e vestidos com roupas iguais de “azuarte” (espécie de brim, azul índigo, parecido com jeans). O harmônico de oito baixos, o triângulo, a zabumba de couro curtido e os pífaros animam as apresentações dos batalhões de Bacamarteiros (Carneiro, 1974; Souto Maior & Valente, 1988 e outros). A tradição dos Bacamarteiros é centenária e passa de pai para filho. É tão importante e tão levada a sério que, quando o pai morre e não há filhos homens na família, é a filha ou esposa quem toma seu lugar no batalhão, mantendo o costume. Os bacamartes são, em sua maior parte copiados de modelos de antigas granadeiras usadas pelas tropas sertanejas que lutaram na Guerra do Paraguai. Com a arma na mão, homens simples, como vaqueiros, agricultores e artesãos,  transformam-se em milícias de senhores do trovão, senhores dos sons. Para os Bacamarteiros os bacamartes não são armas. São vistos como seres de estimação, nomeados como se fossem pessoas. São os próprios Bacamarteiros que fazem a pólvora seca que provoca o "espetáculo ribombo fumacento". É em Caruaru que se concentra o maior número de Bacamarteiros de toda a região. Dizem alguns que foi neste município que a tradição começou (Bastos, 1977; Prado, 1977; Barreto, 1990 e outros). O grande desfile dos Batalhões de Bacamarteiros costuma acontecer no dia 24 de junho e vai até o Pátio de Eventos, onde há demonstrações de tiros e o Forró do Bacamarteiro. (Jornal do Commércio, 30/10/1997).

Já se repete há alguns anos, nas noites de junho em Caruaru, a queima daquela que é considerada a “Maior Fogueira do Mundo”, de mais de dezessete metros de altura e que é acesa no Pátio do Convento dos Capuchinhos. São necessárias pelo menos 48 horas para a queima da fogueira. Enquanto ela queima, forrozeiros caruaruenses e turistas animam o arraial do Convento. Ao mesmo tempo, os foguetes e balões fazem festa no céu.
 
 

A maior fogueira do mundo, em Caruaru
A maior fogueira do mundo, em Caruaru







O Festival Nordestino de Fogueteiros e Baloeiros é realizado no dia 8 de junho em Caruaru. Há apresentações de grupos folclóricos e bandas regionais. Após os folguedos, tem início o show pirotécnico. São fogueteiros e baloeiros de todo o país, com fogos de todos os tipos e feitios, sempre com temas juninos. A abertura do show pirotécnico é marcada pela queima de uma girândola de 1.200 dúzias de fogos no alto do Morro Bom Jesus, que demora cerca de meia hora para estourar inteira. Após o espocar da girândola, fogueteiros de todo o Brasil exibem no gramado do estádio as mais recentes novidades em shows pirotécnicos (Jornal do Commércio, 30/10/1997). No São João de 1995, a queima dos fogos foi assistida por 20 mil pessoas no Estádio do Central e por outras milhares em diversos pontos da cidade.
 
 

Balõe de São João, em Campina Gtande, Paraíba









As quadrilhas - tradição e modernidade

As quadrilhas são o espetáculo por excelência do São João de Caruaru e de qualquer São João do Brasil. Elas adquirem a mesma importância e lugar na festa que os blocos de afoxé baianos e que as escolas de Samba do Rio de Janeiro e vão se tornando competitivas e especializadas.
 
 

Sapadrilha, a quadrilha só de mulheres







Dança típica das festas juninas, a quadrilha é considerada uma herança do folclore francês acrescida de manifestações típicas da cultura portuguesa. Ela é inspirada na contradança francesa e sua origem, no Brasil, está na chegada da corte real portuguesa, no começo do século passado. Com D. João VI, que fugia do avanço das tropas de Napoleão Bonaparte, além de artistas franceses, como Debret e Rugendas, vieram também os modismos da vida européia, dos quais um dos favoritos era a quadrilha, dirigida por mestres franceses da contradança. Muitas das ordens desta dança transformaram-se em comandos típicos da quadrilha “caipira”, como os termos "anarriê" (en arrière, que significa "para trás”) ou "anavã" (en avant, que significa "em frente”), "changedidame" (changer de dame, ou seja, "trocar de dama"), "chemandidame" (chemin de dame, “caminho de damas”) ou "otrefuá" (autre fois), ”outra vez”. Ela foi a grande dança dos palácios do século XIX e abria os bailes das cortes em qualquer país europeu ou americano, tendo se popularizado reinterpretada pelo povo, que lhe acrescentou novas figuras e comandos, constituindo o baile em sua longa e exclusiva execução, composta de cinco partes ou mais, com movimentos vivos e que terminava sempre por um galope.

Na época da Regência a quadrilha era enorme sucesso no Rio de Janeiro, trazida por mestres de orquestras que tocavam músicas de Musard e Tolbecque, os “pais” das quadrilhas. Foi adotada pelos compositores nacionais que lhe deram um “sotaque” brasileiro. Assim disseminou-se por todo o Brasil e a partir dela apareceram muitas variações no interior do país, como a “quadrilha caipira” no interior paulista, o “baile sifilito”, na Bahia e em Goiás, a “saruê” (que dizem ser corruptela de soirée) do Brasil central e a “mana-chica” (Pinho, 1942; Cascudo, 1969; Almeida, s/d). Atualmente só é executada nas festas juninas, das quais se tornou a música símbolo (Almeida, s/d).

As festas juninas, especialmente no nordeste, vêm se transformando, atualizando-se em função das expectativas dos participantes, demonstrando a grande capacidade adaptativa das tradições, capazes de se reinventarem sempre que necessário e, assim, as festas juninas estão sendo redescobertas não apenas pelas populações locais como modo de identidade, mas também pela mídia, pelo turismo e pelos turistas. A partir das quadrilhas comuns, em Caruaru já surgiram a Gaydrilha, a Sapadrilha e a Trokadrilha.

A Gaydrilha foi fundada em junho de 1989, quando um grupo de amigos comentavam sobre as quadrilhas matutas tradicionais da cidade. Daí surgiu a idéia de se criar uma nova atração para animar ainda mais o São João da “capital do forró”. Foi criada, então, uma quadrilha diferente onde só homens dançavam, vestidos de matutos e matutas e de personagens típicos da festa. Naquele ano, 23 “casais” saíram pela primeira vez, dando início ao que viria a ser o mais irreverente evento junino de Caruaru. Com o passar dos anos, a Gaydrilha foi se tornando cada vez maior e mais animada. Em 1995, a quadrilha contou com cerca de mil “casais”, um trio elétrico de forró e arrastou uma multidão de cerca de 40 mil pessoas, desde a concentração até o Pátio de Eventos. As inscrições por casal custaram R$ 20,00 e a Gaydrilha saiu à tarde da Estação do Forró. O dinheiro pago para a inscrição foi investido em som, apoio, chapéus etc.. O “passeio” da quadrilha pela cidade vai até o anoitecer. Em 1996 e 1997 a televisão já transmitia ao vivo flashes da Gaydrilha na Vila do Forró, caricata e entusiasmada, levando desse modo mais turistas ao local.

Como alternativa feminina da Gaydrilha surgiu a Machadrilha que depois mudou de nome para Sapadrilha, também conhecida como o “grande pé quente do São João de Caruaru” A Sapadrilha é uma quadrilha só de mulheres, vestidas de matutos e matutas. As mais de mil integrantes da quadrilha enchem de irreverência e alegria as principais avenidas da cidade. Também acompanhadas por um trio elétrico tocando quadrilhas, as meninas da Sapadrilha tem também um camarote móvel e carro de apoio. A Sapadrilha desfilou em 1997 pela primeira vez e arrastou milhares de pessoas já em sua estréia. Sua extensão era tão grande que ocupava todas as ruas do Pátio de Eventos e da Vila do Forró. O grande desfile da Sapadrilha foi no dia 16 de junho, à tarde, e as inscrições por “casal” custavam R$ 15,00. A rede Globo de televisão também transmitiu flashes da dança da Sapadrilha (Jornal do Commércio, 28/06/1997 e Site)

Juntamente com a Sapadrilha, surgiu a Trocadrilha, onde os homens se vestem de mulheres, as mulheres de homens e dançam juntos, irreverentemente, mostrando que os aspectos de inversão também se fazem presentes nesta festa, do mesmo modo que no Carnaval. No entanto, as quadrilhas tradicionais ainda são o maior sucesso.

parque_eventos.Espontaneamente, são formadas quadrilhas nas ruas, bairros, escolas, empresas e grupos diversos. Valorizando este costume e incentivando a divertida brincadeira, a Fundação de Cultura e Turismo de Caruaru promove, anualmente um concurso de quadrilhas, aberto à participação inclusive de grupos de outras cidades. Isto mostra que paralelamente à programação oficial do São João de Caruaru, não deixam de ser introduzidas novas brincadeiras e novos elementos na festa, independentemente do controle desta pela prefeitura, e que se tornaram imediatamente um sucesso. As “quadrilhas irreverentes”, como são chamadas a Gaydrilha, Sapadrilha e a Trocadrilha, são a maior prova disso. Hoje há várias destas quadrilhas na cidade, nas quais dançam caruaruenses e turistas.

Com o crescimento do São João de Caruaru, toda uma infra-estrutura já se criou a fim de receber os turistas adequadamente, como hotéis de qualidade, locadoras de automóveis, agências de turismo, restaurantes sofisticados etc. Tudo para a festa, porque, de acordo com os habitantes:
 

“Caruaru é excelente na época junina e na época religiosa. No resto do ano... ierght” (Eder, 29, habitante de Caruaru).


Segundo Eder, Caruaru só é uma cidade interessante e divertida no período das festas juninas e da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, cidade vizinha de Caruaru, onde os muitos turistas que vão assistir à encenação da Paixão se hospedam. Quando perguntei a ele por que razão considerava a Paixão de Cristo divertida, respondeu que a grande quantidade de pessoas que vão à festa de São João e assistir à Paixão movimenta a cidade, possibilitando conhecer novas pessoas, fazer novos amigos e namorar. Durante o resto do ano, diz ele, a cidade é estagnada em termos de vida social.

Novamente a festa representa para os jovens de cidades mais distantes dos centros urbanos, a possibilidade de renovar as relações, estabelecer contato com modos de vida diferentes, atualizar o repertório de comportamento, como já vimos a respeito da Oktoberfest de Blumenau. Neste sentido, até mesmo um evento religioso como a apresentação teatral da Paixão de Cristo, por possibilitar a presença de muita gente diferente, adquire conotações de divertimento.
 
 
 
 
 
 

O Boi-Bumbá de Parintins

Outra festa junina que se tornou conhecida nacionalmente a partir dos últimos quatro anos foi o “Boi de Parintins”, cujo ápice acontece nos dias 28, 29 e 30 de junho, na ilha de Tupinambarama, a quatrocentos quilômetros de Manaus, no Amazonas. A ilha faz parte da cidade de Parintins, situada na selva amazônica. Nos três dias de festa a cidade é transformada em arena onde dois grupos de boi-bumbá - o Caprichoso  e o Garantido  - disputam o título de campeões do Festival Folclórico de Parintins, nome oficial da festa.

A disputa se espalha por toda a cidade, dividindo-a em duas metades opostas, uma azul e branca e outra vermelha e branca, conforme se torça pelo boi Caprichoso (boi preto) ou pelo Garantido (o boi branco).
 
 






A festa do Boi de Parintins, é um enorme espetáculo de cunho teatral onde se apresentam os dois grupos (Bois) no "bumbódromo" (um estádio aberto com a arquitetura representando a cabeça de um boi estilizada). Dentro do bumbódromo os grupos dançam, cada um por sua vez, com alegorias com cerca quinze metros de altura e colorido de plumas nas fantasias, sendo talvez, por isso, chamada de "Carnaval da Amazônia".
 
 

bumbódromo






A partir de um dado enredo, 2.500 "brincantes" do Boi Garantido e 4.000 do Caprichoso mostram lendas da Amazônia encenadas por “tribos indígenas”, sobre cobras gigantes e onças de fogo, pássaros que trazem a noite etc.., além da lenda do boi, fixa para ambos os competidores. Cada grupo apresenta seu enredo durante três horas, constituindo seis horas diárias de espetáculo.

A cada noite, trinta e cinco mil pessoas ocupam o bumbódromo. Cada grupo ocupa uma metade do bumbódromo, com as cores do grupo a que pertence. Não se usa a cor azul na “banda” do Garantido e nem a vermelha na “banda” do Caprichoso. Os torcedores não devem ultrapassar os limites de cada “banda” sob pena de serem hostilizados ou vítimas de violência. Sequer se pronuncia o nome do Boi adversário e, em caso de extrema necessidade, diz-se “o Contrário” ou “o Boi Contrário”, como se ao negar ao adversário um nome se estivesse realizando uma espécie de magia que faz com que o adversário desapareça, perca a existência, a personalidade. Mesmo a Coca-Cola, principal patrocinadora da festa, teve que verter seu tradicional logotipo vermelho e branco para azul e branco, a fim de poder mantê-lo na banda do Caprichoso, de onde a televisão faria flashes.

Na década de 60 a polícia chegou a proibir a festa devido aos muitos enfrentamentos entre torcedores dos dois Bois nas ruas, que destruíam o boi (a figura do boi, feita em papel machée ou outros materiais) adversário, provocando violência generalizada. Mesmo atualmente, casais que torcem por Bois adversários se separam, pais brigam com filhos e a reconciliação só ocorre após a festa. Para evitar os conflitos, algumas famílias decidem se separar antes do início da festa, indo cada membro para a casa de algum amigo do Boi de sua predileção, movimentando desse modo toda a estrutura social da cidade.

A "alma" da festa, dizem os organizadores e os observadores, é o ritmo, baseado nas batidas de surdos de um metro de diâmetro, chamados de toadas. O estilo do ritmo pode ser decifrado pelo nome dado ao surdo: "treme-terra". Fortes e graves sons percussivos. A toada não tem a cadência do bumba-meu-boi do Maranhão e os entendidos dizem que a razão está na mistura. Quando o ritmo do bumba-meu-boi - segundo dizem, inspirado na música tocada nos antigos salões de festa franceses - foi introduzido por nordestinos na floresta amazônica, ganhou a influência dos ritmos indígenas e novos instrumentos como o “pau-d'água”, feito com bambu e que produz barulho de chuva, e o xeque-xeque, espécie de maraca.

No boi-bumbá de Parintins, apesar da importância dos bois, o que mais chama atenção parece ser o colorido da festa dado pelas tribos. A “tribo” é composta por "brincantes" que carregam nas costas cocares de cerca de oito metros de altura e cerca de vinte quilos. O “amo-do-boi” improvisa versos relacionados com o enredo e o cantador levanta a toada que é cantada pelos torcedores do grupo. Quando o Garantido está se apresentando a “galera” adversária fica em absoluto silêncio, sem absolutamente nenhum tipo de manifestação a respeito do boi “contrário”. Nem aplausos, nem vaias. Silêncio apenas. A mesma regra é seguida pelo Caprichoso. Tudo acontece ao som de trezentos músicos, misturando tambores, repinique e palminhas, instrumento feito com dois pedaços de madeira. (O Estado de São Paulo, 24/06/1996, Folha de São Paulo, 20/06/1995, Site). As toadas exaltam os valores do Amazonas, as lendas e a cultura indígena, como esta toada, do Boi Garantido:
 
 

A MORTE DO SOL
(I.Medeiros/T. Medeiros/J. Melo/E. Machado)

“Tupana, Tupana Ê, Ê..Á
Chorava a nação tupi
A morte do sol em pleno meio-dia
Feitiço de um poderoso Pajé
Clamava a grande nação
A tupana adormecia nos braço de Yaci
Magia de um Ahiang Mawê
Tupana, Tupana ê, ê ê
Guerreiros declaram guerra contra escuridão
Guerreiros disparam flechas pra acender o sol
E Tupã atendeu o clamor da grande nação
Sete mágicas remadas
Purantinadas bem dadas
Destruíram a forá do tinhoso pajé
É a aliança sagrada de Tupana
Com valorosa nação Mawê
Tupana Wako
Tupana Wako
Tupana Kaható”


Ou esta, do Boi Caprichoso:

 
EXALTANDO O BOI DE PARINTINS
(I. Porto/ E. Franco/ C. Ponte)

Ecoou na floresta
O grito de guerra
Do meu Boi-Bumbá
Boi-Bumbá de Parintins
Caprichoso
A floresta em festa
Exalta o belo
E o nobre de tradição
Tradição de Parintins
Caprichoso
Meu povo traduz em festa
As crenças perdidas
As tribos banidas
Pela fúria dos brancos
As vidas ceifadas
Em solo manchado de sangue
E a mata suplica: eu quero
Viver
Ô Ô Ê Ô Eraué Eraué”


 
 

A lenda do boi-bumbá e a representação coletiva

A apresentação dos Bois, em sua origem, narra a história de um casal de negros (Pai Francisco e mãe Catirina) do qual o marido comete um crime ao matar o boi de seu amo (senhor de escravos, patrão), para satisfazer o desejo da esposa grávida que quer comer a língua do boi. Por esta razão, é condenado à morte e só é salvo porque um padre e um pajé ressuscitam o boi de seu amo (estes personagens variam, podendo ser uma feiticeira, uma mãe-de-santo, ou qualquer outro que tenha o domínio da magia). Estes são o tema e os personagens principais da dramatização posta em cena pelos Bois. É claro que não sendo possível congelar tradições, novos elementos vão sendo introduzidos no drama. Segundo os organizadores da festa:
 

Elementos novos foram acrescidos ao Festival, com intuito de ajustar cada vez mais ao nosso contexto regional. Prova disso é que hoje enfocamos mais as culturas indígenas, mostrando as tribos que aqui vivem ou viveram, seus hábitos e seus rituais, que são o ápice do espetáculo. As inúmeras tribos apresentadas demonstram de maneira bela e cuidadosa a diversidade cultural amazônica” (Site).




Atualmente o chamado “conjunto folclórico”, uma série de pré-requisitos iguais para os dois grupos, equivalentes aos critérios usados para o julgamento das escolas de samba, é composto dos seguintes itens, que recebem notas individualmente dos jurados, que não podem ser da cidade, condição de imparcialidade do julgamento:

Apresentador:
Pessoa encarregada de dar sentido às alegorias, tribos, rituais e entrada de músicas, explicando aos espectadores do bumbódromo o significado de cada item ou detalhe importante na apresentação do evento durante as três horas em que ele se encontra em cena. É o apresentador quem se encarrega, também, de animar a torcida (galeras) de Boi que representa.

Levantador de toadas:
Encarregado de cantar ou puxar as toadas (música), equivalente ao “puxador de samba” nas escolas de samba

Amo do Boi:
O dono da fazenda. Repentista (improvisador de versos), que em alguns momentos canta versos e exalta o Boi.

Boi-Bumbá:
É todo o conjunto, incluindo o próprio Boi confeccionado em pano, que é carregado pelo “tripa-do-boi”, pessoa que carrega esta armação e faz a evolução do boi-bumbá na arena (a verdadeira vida do boi, por isso chamado de “tripa”).

Sinhazinha da Fazenda:
Representa a filha do dono da fazenda.

Pai Francisco:
Empregado (geralmente negro escravo) da fazenda, o mesmo que mata o boi para satisfazer o desejo de sua mulher (Catirina) grávida.

Mãe Catirina:
Mulher de Pai Francisco.

Cunhã-Poranga:
Cunhã (moça), poranga (bonita) na língua indígena, representada como a índia mais bonita da apresentação do boi-bumbá.

Pajé:
Índio feiticeiro, muito respeitado pelas tribos, que faz coreografias diversas, individualmente ou no ritual, e é uma das figuras mais importantes da apresentação.

Vaqueirada:
Representa os vaqueiros da fazenda.

 
Tuxaua -luxo e Tuxaua-originalidade:
Representa um chefe de tribo. Apresentando-se com magníficos cocares, eqüivale a muitos destaques das escolas de samba do sudeste. Com o passar dos anos estabeleceram-se duas categorias de Tuxaua: luxo e originalidade. O Tuxaua luxo se apresenta com toda a vestimenta ornamentada com dezenas de plumas de diversas cores, chegando sua fantasia pesar às vezes cinqüenta quilos. O Tuxaua originalidade utiliza alegorias com menos brilho e mais elementos da natureza, como sementes em lugar de lantejoulas ou pérolas, palha em lugar de tecido etc.

Galera:
É a torcida organizada do Boi-Bumbá, responsável pelo item animação.

Tribos masculinas e tribos femininas:
Grupos de homens e grupos de mulheres com vestimentas indígenas, fazendo coreografias, divididos em tribos.

Batucada:
É a “bateria” do boi. Composta por aproximadamente 500 pessoas que tocam instrumentos diversos, dos quais os principais são os de percussão, responsáveis pelo ritmo da toada.

Porta Estandarte:
Pessoa que conduz o estandarte, a bandeira do Boi, com o seu símbolo e slogan.

Rainha do Folclore:
Representa, segundo dizem os organizadores, os folclores branco, negro e o índio.

Ritual:
É o ápice da festa, momento em que o pajé comanda o ritual de ressuscitação do boi, evitando a morte de Pai Francisco.

Lenda Amazônica:
É uma das partes principais da apresentação, acrescida à trama original do boi-bumbá. Trata-se de uma lenda da tradição popular amazônica dramatizada a partir da interpretação de artistas locais.

Alegorias:
São peças fundamentais do festival, geralmente figuras extraordinárias e míticas, com temas amazônicos que revelam ao grande público o aspectos mágicos da cultura amazônica (Botos, Sucuris Gigantes, Curupiras, Pássaros etc.). Em geral são peças com muitos metros de altura, que podem ou não ser compostas também com pessoas dançantes, como nos carros alegóricos do Carnaval.

Figura Típica Regional:
Personagem que representa as lendas e o folclore, com trajes regionais.

Toada (letra e música).
A música enredo da apresentação. As toadas concorrem ao prêmio de melhor letra e música. (Site; Folha de São Paulo, 25/06/1997).


Todos os papéis, representados por habitantes de Parintins, atribuem prestígios aos “atores” e extravasam os momentos da apresentação. Ser “Pai Francisco”, “Dono da Fazenda” ou “Pajé”, entre outros, significa ser importante na festa e no conceito da sociedade local.
 
 
 
 

A festa como integração

Como conseqüência da divulgação e da popularidade que a festa alcançou, sua música, conhecida como “boi” passou a ser tocada nas emissoras de rádio de todo o país e outras festas do mesmo estilo, como os bois-bumbás do Maranhão, ganharam espaço paralelo na mídia. O crescimento da festa projetou ainda os compositores desses grupos que têm, hoje em dia, suas músicas gravadas, apresentadas em shows e programas de televisão, vendendo milhares de discos e tornando-se conhecidos além dos limites dos próprios grupos. Tendo se projetado nacionalmente, as músicas da festa de Parintins tornaram-se meios para a obtenção de prestígio nacional, fator que possibilita uma certa mobilidade social. Principalmente porque os integrantes desses grupos fazem parte de um segmento economicamente desprivilegiado da sociedade, para o qual tais oportunidades de ascensão permanecem escassas.

Com a divulgação da grandiosidade da festa de Parintins e o conseqüente interesse turístico que despertou, a cidade vem sofrendo enorme transformação visando dotá-la de infra-estrutura para a recepção dos turistas que, em 1996 e 1997 invadiram a cidade de modo massivo, hospedando-se, por falta de hotéis e acomodações, nos grandes barcos ancorados à beira do rio Amazonas (Folha de São Paulo, 30/06/1997).

Não é preciso dizer que a partir do crescimento de suas festas, Caruaru e Parintins viram suas bases econômicas e culturais sofrerem grandes mudanças. E nota-se que este desenvolvimento tem um ritmo particular, sustentado pelos interesses turísticos e econômicos, mas também pelo incentivo da população local, que participa ativamente, introduzindo inclusive novos elementos na festa. Pode-se portanto observar ao menos uma conseqüência dos fatos que vimos aqui: a da introdução de novos valores no sistema da festa (estéticos, econômicos, de prestígio etc.) que coloca em questão, para alguns, os valores comunitários e mais precisamente, a relação de seus membros com as novas presenças nas festas, sejam elas a dos turistas, da mídia, das empresas interessadas no consumo que a festa desperta ou outros. Assim, a festa vai transformando inclusive o critério de “pertencimento” que ela mesma proporcionava e que constituía uma de suas forças principais. As festas eram das famílias, dos parentes que chegavam, que se uniam ao redor das fogueiras ou dos bois para compartilhar as comidas típicas e os valores em relevo no período da festa. A leitura das festas era feita principalmente referindo-se a um contexto local, familiar, original, da qual ela retirava seu sentido. Atualmente todo este universo vem sendo ressignificado e embora alguns lamentem a “invasão”, outros vêem nela um elemento positivo, que permite a inserção das comunidades locais no contexto nacional da qual se consideravam distanciadas.
 
 





As brincadeiras e atividades descritas acima são todas, atualmente, folclorizadas pela mídia em vários aspectos, senão em sua totalidade, com vistas a atrair turistas. Mas são manifestações sociais que foram produzidas num contexto cultural de tipo comunitário, no qual elas encontravam seu sentido e significação (constituindo ao menos parcialmente um expressão mítica, ou uma praxis gestual  com a intenção de transformar os conteúdos que exprimem).

Estas brincadeiras originais ou pelo menos partes delas são então transformadas em espetáculo, tornando-se verdadeiros shows. O resultado da transformação, do ponto de vista do sentido, pode sugerir uma dessemantização da festa, tornando-a apenas um objeto de consumo, quando ela originalmente era uma história que a comunidade contava a si mesma, a história de seus espectadores e atores, que teria perdido seu sentido. Isto, contudo, não é verdade, pois a população não deixa de manter o controle da festa e participar criativamente de tudo que a envolve. Por outro lado, a festa dos turistas não é a festa dos habitantes, que vêem nela os sentidos profundos por dominarem um código que o turista não alcança, por jamais ter vivido ali. No entanto, todos prezam e se orgulham do crescimento de sua festa e da presença cada vez maior de turistas, o que significa a valorização de suas práticas tidas até então como coisas de “matutos”, “caipiras”, “paus-de-arara”, “bugres”. A festa realiza, desse modo, novas mediações, aproximando os diferentes e estabelecendo códigos novos, compreensíveis para os dois lados. Caruaru já não é mais uma cidade do sertão de Pernambuco, mas a “Capital do Forró”, internacionalmente conhecida, do mesmo modo que Parintins, tem “A Maior Festa da Amazônia”.


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