Este texto faz parte da tese de Doutoramento em Antropologia Social de Rita Amaral, Festa à Brasileira - sentidos do festejar no país que "não é sério" defendida junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Brasil, no ano de 1998. Veja como citá-la clicando
“Bebe, bebe, irmãozinho, bebe!
Deixe as preocupações em casa.
Evite as amarguras e evite a dor
e aí a vida será uma brincadeira!
Não devemos deixar de beber
o beber é que move o mundo,
e nem ter raiva daquele
que encomenda sua bebida.
Seja cerveja, vinho ou champanhe,
vamos beber sem nos gabar.
Pois já houve quem tomou champanhe
E depois não pôde pagar”
(Canção da Oktoberfest)
A experiência brasileira da festa como linguagem e como "artefato" popular, como um modo de ação diante dos mais variados problemas e contextos, encontra expressão exemplar na Oktoberfest de Blumenau, Santa Catarina. Esta Oktoberfest brasileira é cheia de significados particulares e a compreensão de sua gênese pode ajudar a entender seus múltiplos sentidos e por que ela vem se tornando um modelo de festa no Sul do Brasil e em várias outras regiões brasileiras (Fishfest de Mato Grosso, a Cajufest de Fortaleza, e a própria Oktoberfest de Garanhuns, Pernambuco, para citar um exemplo curioso).
A Oktoberfest blumenauense surgiu em 1984. Mesmo assim, já faz parte do calendário turístico da EMBRATUR como a segunda maior festa brasileira, sendo considerada pela população local como uma espécie de carnaval do Sul. Alguns catarinenses dizem mesmo:
"Quem disse que carnaval sempre tem que ter samba e marchinha e ser em fevereiro? Se você for a Veneza, vai ficar espantada com as músicas do Carnaval de lá. A Oktoberfest é o Carnaval do Sul."(Max, 19 anos).Considerando-se certos aspectos, de fato, pode-se pensar na Oktoberfest como um Carnaval, já que inclui elementos característicos deste, como as fantasias, os desfiles, os carros alegóricos, as festas de clube e de rua e representa um momento em que aquilo que os blumenauenses mais valorizam é incorporado aos desfiles nas ruas, do mesmo modo que acontece no Carnaval. Este modelo, inclusive, parece ser o modelo brasileiro de festa, reproduzindo-se freqüentemente tanto em festas religiosas como em festas profanas.
A história e os valores dos blumenauenses são encenados nas ruas de Blumenau do mesmo modo como a história e os valores do povo brasileiro são representados nas alegorias e enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, pelos devotos do Círio de Nazaré e das festas do Divino Espírito Santo ou, pelos “matutos” do São João de Caruaru.
A Oktoberfest de Blumenau foi um sonho acalentado durante anos pelos grupos originários da Alemanha, que ali viviam. Sempre se comentava como seria gratificante e importante realizar uma festa como a alemã, que acontece na Bavária , especialmente porque Blumenau já tinha toda a arquitetura condizente com o espírito da festa, além do gosto pela cerveja, herança alemã. Tanto pelo fabrico quanto pelo consumo (a maior parte dos blumenauenses sabem fabricar sua própria cerveja, embora poucos o façam atualmente). Este gosto pela cerveja introduziu a primeira indústria dela em Blumenau, inaugurada em 1858 por um dos colonos trazidos pelo Dr. Blumenau .Heinrich Mosang abriu sua cervejaria na casa que ainda hoje existe na rua São Paulo. Durante anos, entretanto, a Oktoberfest foi apenas um projeto, marcado pela vontade de reforçar a identidade alemã dos habitantes (Sasse, 1991).
A marcante influência da cultura germânica em Blumenau se revela ao primeiro olhar: na arquitetura, no fenótipo do povo, nos hábitos, nos restaurantes, em tudo se revela um certo jeito europeu, do qual os blumenauenses muito se orgulham, embora se considerem profundamente brasileiros. Chalés de madeira envernizada, casas caiadas, telhados construídos para receber neve (que representam mais uma referência que uma necessidade), letras góticas nos anúncios e o idioma alemão, falado pelas ruas por muitos dos habitantes. Pode-se dizer que Blumenau se fez uma cidade brasileira sem ter perdido a “germanidade”. Daí o anseio por uma festa que representasse essa identidade e tudo de visão de mundo particular que significa. Uma festa que fizesse explodir numa tradução brasileira o orgulho de descender de alemães (Bonatti, 1992).
O destino, contudo, se encarregou de impulsionar o projeto. E impulsionou com as águas descontroladas das enchentes do rio Itajaí-Açu, em cujo vale se localiza Blumenau. Não era a primeira vez que acontecia, (a primeira grande enchente aconteceu em 1895) mas em 1983, Blumenau foi quase totalmente destruída pelas águas do rio. Inundadas até os telhados, na vazante as casas eram apenas restos enlameados das até então belas casinhas com jeito europeu, caiadas e com cercas cuidadas, muitas flores e frontais de madeira envernizada. Demorou um bom tempo até que a cidade pudesse voltar à uma certa normalidade, com o apoio da prefeitura e do governo do Estado. Mas cada chuva se transformava em uma ameaça. Em 1984, antes mesmo que a cidade estivesse funcionando normalmente, uma nova enchente, de proporções maiores para uma cidade ainda em recuperação da enchente anterior, destruiu Blumenau. "Completamente", dizem alguns blumenauenses. "Menos a coragem do povo", dizem outros (Silva,1989;Sasse, 1991;Bonatti, 1992).
Sem muitas esperanças diante da catástrofe, o povo de Blumenau só via duas soluções: partir para sempre, abandonando a cidade que seus avós e tataravós idealizaram e construíram à mercê do rio, ou ficar e reconstruir tudo. Mas o desânimo era imenso e cada chuva se tornaria sinônimo de medo. Primeiro por causa da enchente do ano anterior, que consumira recursos que o município já não possuía, e depois pelos sérios obstáculos a serem ultrapassados dos quais o maior parecia ser o abatimento moral dos blumenauenses. Era preciso arrecadar dinheiro rapidamente para reconstruir a cidade, pois os da prefeitura e do Estado não seriam suficientes e demorariam muito a chegar.
Voltou-se, então, à velha fórmula de concentração e distribuição de bens do povo: a festa. Era necessário realizar uma festa para angariar recursos. Foi então que se resolveu colocar em prática o antigo projeto da Oktoberfest e, através dela, tentar revigorar o espírito de criação para a reconstrução da cidade; o mesmo espírito de luta e de coragem que imbuíra seus antepassados que ergueram Blumenau. Agora, os blumenauenses contemporâneos poderiam fazer parte dessa aventura, que estava recomeçando, dando-lhes a chance de também fazer parte da história de luta por um bom lugar para se viver e criar os filhos. Muitos foram contra, pois além dos recursos serem mínimos e os espíritos estarem fatigados e desanimados, era agosto, e uma Oktoberfest que se preze deve ser realizada em outubro. Mesmo assim, a vontade de renascer da cidade falou mais alto e as mãos foram postas à obra. SegundoMarita Sasse(1991), apenas a perspectiva da alegria de ver realizada a "Oktoberfest de Blumenau" e a motivação de receber bem as visitas foi capaz de animar a população e incentivá-la a unir forças para se ajudar mutuamente e tirar a lama de dentro das casas, limpar móveis, consertar cercas, envernizar as madeiras novamente, caiar as casas, escovar as calçadas, até que não restassem marcas da destruição. Pelo menos não "tão" aparentes.
A idéia tomou conta dos grupos e a secretaria de Turismo ofereceu apoio, chamando os empresários a participarem. As grandes cervejarias do Brasil foram contatadas e aceitaram patrocinar o evento. Evidentemente, o sul do Brasil estava mais do que qualificado, pela ascendência da população e pelos traços culturais todos, para realizar uma bela festa da cerveja. O começo do calor, vindo com a primavera, ajudava a secar a cidade, as lágrimas do povo, e a aumentar a sede. E tudo começara a florir, aumentando a esperança no renascimento de Blumenau (Sasse,1991;Bonatti, 1992).
As escolas ensaiaram suas fanfarras; o município sua banda. Elas deveriam animar a nova festa de Blumenau. Crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos deveriam participar, organizando o que pudessem. O esforço de cada um era necessário.
Foi construída, de madeira, no estilo camponês, uma carroça que, puxada por cavalos, levaria um imenso barril de chope pelas ruas da cidade, distribuindo gratuitamente canecas dele aos passantes. Para guiá-lo, foi eleito um popular personagem desenhado pelo cartunista local Luiz Cé desde 1979, o Vovô Chopão, que seria também conhecido, a partir de então, como símbolo da festa e dono do carro da cerveja (chamado de Bierwagen).
Vovô Chopão, o responsável oficial pela distribuição gratuita de chope durante os dias da festa, é o rei da folia, uma espécie de Momo germano-brasileiro. Ele, no entanto, não é destronado e nem "morre" no final da festa. Apenas se recolhe às páginas do jornalzinho onde nasceu. Durante os dezessete dias da festa Vovô Chopão é encarnado por um cidadão blumenauense que o representa com alegria e fanfarronice e é o rei temporário da festa. Mas é "apenas um Vovô” e, como tal, não tem a malícia de seus pares, como o rei Momo. Sua principal função é a de presidir a distribuição gratuita do chope e animar os bailes (Sasse, 1991).
Em setembro de 1984 foi eleita a rainha da primavera de Blumenau, que foi encarregada de visitar as cidades vizinhas e o resto do país convidando para a primeira grande festa do chope no Brasil. O cartaz que ela levava por toda parte dizia: “Visite a Oktoberfest de Blumenau. Apesar de tudo”. Este apelo foi eficaz pois chamava para a festa e lembrava aos convidados a necessidade de solidariedade no difícil momento que a cidade atravessava. Para alguns, parecia impossível e absurdo que Blumenau estivesse festejando alguma coisa. Por solidariedade ou curiosidade, pelo amor ao chope ou ainda motivada pela beleza demonstrada pelo exemplo da rainha da primavera, uma enorme quantidade de pessoas respondeu positivamente ao convite. A rainha da primavera recebeu, a partir de então, a função de Rainha da Festa e deve ser sempre “uma loirinha rosada” que se veste com o traje típico de camponesa alemã do século passado, todo bordado com flores vermelhas e brancas, cores de Blumenau. Ela é escolhida entre representantes dos Clubes de Caça e Tiro locais (Sasse, 1991). Sua missão principal é a promoção da Oktoberfest nos meses que a antecedem, percorrendo o país, e desfilar sua beleza pela cidade durante a festa. Esta rainha desfila diariamente pela cidade (do mesmo modo que o Vovô Chopão ), rodeada de outras moças bonitas, as “princesas”, exibindo o padrão de beleza das mulheres do sul e as flores de Blumenau que lotam seu carro.
As donas de casa e de doceiras prepararam seus doces. E muito, muito chucrute que acompanharia as salsichas e os marrecos assados, comida tradicional alemã. O objetivo disso era atrair muita gente que, vindo para comer, beber, dançar e cantar terminasse conhecendo e principalmente comprando os produtos da cidade. Os felpudos, como toalhas e roupões, os cristais e artigos de charutaria, principais produtos de Blumenau, assim como as camisetas (a indústria de malhas Hering é uma das principais indústrias de Blumenau), foram postos à venda, e os saldos da enchente foram vendidos por preços ínfimos. A primeira festa foi um sucesso, embora muitos comerciantes afirmem ter tido prejuízo. Em todo caso, muitos encaram a primeira festa como um investimento no que viria depois (Sasse, 1991).
A iniciativa deu certo. Segundo dados da prefeitura local, a primeira Oktoberfest reuniu cerca de cem mil pessoas no pavilhão A da PROEB . Nos anos seguintes a festa cresceu e tomou conta do Pavilhão B exigindo a construção do Pavilhão C, estendendo-se depois até o Ginásio do Galegão, registrando atualmente a participação de cerca de um milhão de pessoas.
Consomem-se nos salões da Oktoberfest, em média, 50.000 salsichas com chucrute, 20.000 frangos com purê, 20.000 marrecos com repolho roxo e 20.000 pratos de outros tipos. Reúnem-se, sob o mesmo teto, inúmeras famílias que formam por sua vez, uma momentânea e monumental família, configurando um princípio comunitário de união e confraternização. E, na troca de experiências e de atitudes muitas vezes opostas, chegam a um ideal em que as diferenças e a hierarquia são temporariamente suspensas. O discurso dos blumenauenses em geral, da imprensa e dos autores a respeito da festa repete constantemente que ela “apaga temporariamente” as diferenças de classe, preserva os costumes e atrai turistas. Este mesmo sentimento e experiência aparecem nos almoços do Círio de Nazaré, no Carnaval e nas festas brasileiras em seu conjunto, embora em escala maior ou menor.
Acomida, também na Oktoberfest como nas festas em geral, assume um caráter simbólico de alta importância. Existe um reconhecimento, nas festas, de que, em tempos de exceção, a comida partilhada deve ser diferente ou especial. E, através desse compartilhar de alimentos especiais, trabalhosos na maioria das vezes, revigoram-se os laços de solidariedade, de ajuda mútua, de pertencimento. A mesa farta e comum promove a comunhão da sociedade consigo mesma, provoca a criação de novas relações, regras inesperadas e hieraquias redistribuídas em relação à mesa e aos alimentos. Na euforia dos prazeres da mesa, as fronteiras parecem apagar-se, dissolverem-se ou ocultar-se antagonismos ideológicos e políticos e as controvérsias de todos os tipos, pois a mesa iguala os homens naquilo que lhe é fundamento natural: a necessidade do alimento e da sociedade para viver.
Beber juntos, no caso, a cerveja, também faz parte desse ritual de comunhão, acentuando a confiança existente entre os presentes. Os antepassados dos blumenauenses, os germanos pagãos, preparavam sua cerveja dentro de um ritual místico. Durante as saturnais, em que comer e beber lautamente eram prazeres característicos, a distinção entre as classes livres e as classes escravas era temporariamente abolida. E ainda mais, os senhores trocavam de lugar com seus escravos e os serviam à mesa (Frazer, 1911; Acheas,1987). O delírio báquico é perturbador da hierarquia, de organização hipostática estabelecida e instaurador da co-ordenação, colocando antes lado a lado os elementos do sistema do que valorizando-os ou hierarquizando-os. (Acheas, 1987). Em Atenas, nos três dias que precediam a primavera, Dionísio era saudado com farta distribuição de vinho à população. Em Roma, na Antigüidade, se fazia o mesmo. Nas ruas, uma alegre procissão deveria conduzir um carro em forma de nave (o carrus navalis, antepassado do Bierwagen) que distribuiria a bebida ao povo (Schultz, 1994). Os blumenauenses copiaram da Bavária o Bierwagen (o imenso tonel puxado por cavalos) e acrescentaram a Bierfahrad (bicicletas gêmeas transportando um tonel) e a Biermottorad (a moto da cerveja de Horácio Brown). Assim, a festa vai ganhando aos poucos elementos inovadores, transformando-se ao mesmo tempo em que revitaliza tradições milenares.
Os preparativos, como em todas as festas, começam muito antes de outubro. Desde as flores, que se espalham por toda a cidade, à preparação de doces típicos, produção ou compra das salsichas, preparação do chucrute, reserva dos marrecos, ensaio das bandas e fanfarras, decoração dos grandes espaços de 80.000m2 da PROEB, feitio das roupas e chapéus tiroleses e centenas de outras atividades, tudo vai sendo preparado com antecedência para os dias da Festa.
Canecas de chope são especialmente fabricadas para ela e é comprando-se essas canecas que se toma todo o chope que for possível beber. Os grandes barris de chope são adornados com flores. É realizado o concurso que escolherá a rainha da festa e são distribuídos cartazes. O marketing da festa entra em ação, atingido todas as cidades brasileiras. Estes preparativos podem começar em junho, visando o mês de outubro, embora a cidade produza o ano inteiro várias mercadorias que têm como finalidade a venda na Oktoberfest, além de manter várias atividades relacionadas a ela.
A festa é pautada pela alegria geral. O som das bandas (algumas vindas da Alemanha especialmente para a data) é contagioso, exuberante e, dizem os participantes, não há quem não ceda à tentação de parar para ouvir, ver ou dançar ao som das canções típicas ou mesmo de músicas brasileiras, muitas vezes traduzidas para o alemão, como famosos “pagodes” do tipo "Lá vem o negão" que se canta: "Lá vem o alemão, cheio de paixão". Todos saem atrás das bandas, que são o correspondente dos trios elétricos baianos no Carnaval, ou se dirigem com elas para o imenso ginásio da PROEB, a fim de dançar e tomar chope.
O momento de embriaguez ritual na festa do chope é irresistível e permite o ultrapassamento ou violação das regras sociais, o que pode representar o risco da instauração da violência, como apontam Girard (1990), Bataille (1973) e Canetti (1983). Por essa razão o policiamento é mantido como forma de controle.
"Embora a imprensa tente reforçar a imagem de ordem, não podem ser evitados os excessos, que são controlados por plantonistas especializados e por guardas, sem que este policiamento seja ostensivo" (Sasse, 1991:49).Durante os dezessete dias da festa, a cidade não pára. Bancos abrem, escolas funcionam, o comércio ferve. A diferença, dizem os blumenauenses é que se trabalha (bem ou mal) em ritmo de festa (Sasse, 1991). Em ritmo de alegria, porque as bandas não páram de circular pela cidade tocando e os Bierwagen (carros da cerveja) aparecem a todo momento, acompanhados da algazarra típica, jovens alegres, e sempre há quem saia das casas e das lojas para tomar uma caneca ou um mesmo um banho de cerveja. Na hora dos desfiles de carros alegóricos pela rua XV de Novembro, geralmente à tarde ou à noite, a situação fica crítica para o trânsito, com um engarrafamento total. No entanto, como os horários dos desfiles são seguidos rigorosamente, as pessoas podem organizar seus compromissos e sua circulação com antecipação a fim de não sofrer prejuízos e não perder seus compromissos.
A cidade participa de modo total da festa. As escolas estaduais cooperam com as fanfarras e as municipais com grupos folclóricos cuidadosamente ensaiados, vestidos “à caráter”, com roupas bordadas com desenhos tradicionais e dançando as velhas cantigas alemãs. Estes grupos saem logo cedo, por volta das sete horas da manhã, às ruas despertando com a música da festa os habitantes e turistas, que já acordam “dentro da festa”. São promovidos, também, concursos de poesia e realizam-se exposições de obras de arte e artesanato. Os grupos folclóricos desfilam e acompanham belos carros alegóricos, um dos quais traz a Rainha da Oktoberfest, que anuncia a festa e o despertar da primavera, dos sentimentos adormecidos, entre eles, a alegria e o prazer de viver, comer e beber. SegundoSasse (1991: 68) ela encarna
"em sua modéstia e simplicidade, sem o saber, a mitológica Perséfone, que vai, através da alegria de sua mãe Deméter, provocar o renascimento das folhas e das flores por toda a terra".Duvignaud (1976) diz que este seria mais um aspecto fundamental da festa: o anúncio de uma estação do ano ou de um novo tempo. Aqui no Brasil, de fato, a festa coincide com a chegada da primavera, embora na Alemanha, na festa original na qual se inspira a Oktoberfest brasileira, obviamente aconteça no outono. Huizinga (1951), citando Froebenius, diz que num passado remoto os homens em primeiro lugar tomaram consciência dos fenômenos do mundo vegetal e animal, só depois adquirindo as noções de tempo e espaço, dos meses e das estações, do percurso do sol e da lua. Teriam passado, depois, a representar essa grande ordem da existência em cerimônias sagradas, nas quais, e através das quais realizavam de novo, ou "recriavam" os acontecimentos representados, contribuindo, assim, para a preservação da ordem cósmica.Dentro do ginásio da PROEB, ao som das bandas e do bater das canecas, dançam-se polcas, come-se e namora-se muito. Alguns jovens com quem conversei dizem, como Monika, de 17 anos:
“A Oktoberfest é a salvação. Senão a gente não conhece mais ninguém”.Ou ainda:“a gente só conhece gente de fora quando tem a Oktoberfest. Vem muita gente da Argentina, Uruguai, de São Paulo e Rio Grande, e então tu faz amizades, escreve cartas, troca e-mail.” (Erick, 17 anos).
Ariel, de 14 anos, também disse:“Aqui em Santa Catarina, se não fosse a Oktoberfest e outras festas típicas estaríamos praticamente isolados do mundo”.Afesta se revela então como um momento em que, além da descontração, do desregramento, da revitalização histórica e da identidade local, é possível renovar as relações pessoais e entrar em contato com idéias e modos de vida diferentes, estabelecendo possibilidades novas que sem a festa não aconteceriam.Nas noites de Oktoberfest os bailes dos gigantescos salões da PROEB ficam lotados e tanto neles como pelas ruas canta-se e bebe-se o “chope de metro”. O “Concurso dos Tomadores de Chope de Metro” consiste em beber um “metro” ou mais de chope num “copo” especial, de vidro soprado e com uma longuíssima boca , semelhante a um tubo de ensaio (chamado de pepita ou pipeta e que tem um metro de comprimento, de onde vem a expressão “metro de chope”). Não é tarefa das mais fáceis e embebeda rapidamente. Poucas pessoas resistem à tentativa e a conseqüente embriaguez.
Neste concurso há sempre campeões colocando seu título em jogo. Em 1997 foram introduzidas mais duas competições: a Maratoma, que consiste em correr e tomar uma cerveja obrigatoriamente a cada 300 metros e a Maracome, cujo ganhador será aquele que conseguir comer mais salsichas com chucrute ou outros pratos típicos. E bebe-se cada vez mais cerveja e chope ao som de cantigas como:
Que significa:“Im Himmel, da gibt’s kein Bier
drum trinken wir es hier
Und sind wir nicht mehr hier,
dann trinken die and’ren unser Bier”Ou ainda:“No céu não há cerveja
Por isso a tomamos aqui
e quando não estivermos mais aqui
os outros tomarão nossa cerveja”“Ein Glück dass wir nicht saufen,
wir lassen’s runterlaufen
Wenn das so witergeht,
bis morgen früh, ja früh
steh’n wir im Alkohol
bis an die Knie”“Ainda bem que nós não bebemos!
Só deixamos a bebida escorrer
goela abaixo.
Se isso continuar assim
Até amanhã de manhã estaremos
mergulhados no álcool até os joelhos” (Sasse, 1991)
As canções indicam claramente qual é o espírito da festa. Viver o momento presente, aproveitar os prazeres enquanto se está aqui. O chope e a cerveja simbolizam a própria vida, que deve ser totalmente aproveitada e compartilhada com alegria, pelo menos nos dias de festa. Depois, outras gerações farão o mesmo. A mesma festa comemorando a vida. A mesma vida. Cantar em alemão, mesmo para os que não conhecem o significado da letra (e são muitos), reporta a um passado mítico, sacralizado mesmo, durante a Oktoberfest, e o significado atribuído às canções parece ser sempre o de alegria, vida e prazer. Nada melhor para enfrentar a destruição de uma enchente.
A festa como investimento e fonte de lucros
O sucesso da Oktoberfest foi tamanho que Blumenau não só se recuperou física e economicamente, como também se converteu num evento tão associado à identidade da cidade, que muitos folhetos turísticos substituem o nome de Blumenau por Oktoberfest. Graças ao volume de visitantes que a cidade passou a receber em função da festa, a economia se desenvolveu de forma equilibrada, harmônica e crescente. O padrão de vida da cidade subiu paralelamente. Existem, em Blumenau, segundos dados da prefeitura, automóveis na proporção de um para cada três habitantes - a taxa mais elevada do Brasil. Os blumenauenses se orgulham do fato de que em todo o município não existe uma só família que não seja proprietária da casa em que mora.
O sucesso do modelo festivo de Blumenau fez com que ele se convertesse num modelo que vem se disseminando por todo o país, como modo de incentivar o turismo e através dele concentrar recursos para financiar obras sociais, gerar empregos e fomentar indústrias.Por trás da segunda maior festa da cerveja do mundo - depois da Oktoberfest de Munique, Alemanha - movimentam-se batalhões de pessoas para viabilizar a estrutura da festa. Se a prefeitura de Blumenau e a PROEB investem dois milhões de dólares na Oktoberfest, as empresas patrocinadoras, como as quatro grandes cervejarias do Brasil (Antártica, Brahma, Kaiser e Skol), armam também uma gigantesca operação para apoiar o evento. São dezessete dias de festa seguidos, contra os cinco dias do Carnaval.
A Brahma, que detém o direito de explorar dois pavilhões do complexo da PROEB, permanece por volta de dois meses envolvida com os preparativos e chega, segundo seus próprios dados, a estimular a criação de mil empregos indiretos. Além disso, paralelamente à festa em Blumenau, a cervejaria ganhou a concorrência para participar de outras oitofestas na região sul que também envolvem consumo de chope e cerveja, sem contar com a Minioktoberfest, um evento criado para o público infantil e que movimenta o segmento do refrigerante Sukita. A companhia esperava superar, em 1997, os 469.390 litros de cerveja servidos nas festas de Santa Catarina (Fenachopp, Munchenfest, Oktoberfest, Fenarreco e outras), no ano passado, além dos 14.150 litros de chope escuro. Enquanto o setor de Promoções e Novos Meios gerencia os eventos, há um contingente do pessoal de operações permanentemente dedicado aos preparativos dos produtos e equipamentos para as festas .
Para poder atender a Oktoberfest (Blumenau), Fenarreco (Brusque), Schlachfest (São Bento do Sul, terra do vinho mas onde já foram consumidos 14 mil litros de chope), Marejada (Itajaí), Shutzenfest (Jaraguá do Sul), La Sagra (Rodeio), Minioktoberfest (dentro da própria Oktoberfest) permanecem jorrando chope pelo menos 223 chopeiras, abastecidas por três caminhões tanques (com capacidade para 25 mil litros) e um Chopemóvel (caminhão adaptado com bicos próprios (com capacidade para 6 mil litros), que dispensa os terminais de chopeiras. Entre os veículos que transportam o chope, as granes e as chopeiras, são utilizados ainda onze tanques estacionários, de capacidade variada. Somente para os pavilhões da PROEB, são 55 chopeiras, 8 tanques estacionários, 20 torres e 20 post mix para servir refrigerantes. Numa noite embalada ao som das bandas e com boa freqüência de público, são necessárias duas pessoas em cada chopeira, tal o ritmo alucinante de tiragem de chope.
A festa espalha seus efeitos, ainda, para além dos limites do município de Blumenau, contagiando as cidades vizinhas de Gaspar, Pomerode, Balneário Camboriú, Brusque, Indaial e Timbó. Todas estas cidades recebem turistas e hóspedes que excedem a capacidade blumenauense de acolhida ou ainda que aproveitam para conhecer a região nos momentos em que “descansam” da festa.
À primeira Oktoberfest, que aconteceu sessenta dias depois da grande inundação de 1984, compareceram cerca de cem mil pessoas, que consumiram 100.000 litros de chope e 12 toneladas de alimentos durante os 12 dias em que a festa durou. Hoje são cerca de um milhão. A Oktoberfest de Blumenau vem crescendo anualmente. Em 1996 foram cerca de um milhão de pessoas, que consumiram 774.600 litros de chope durante dezessete dias. E o principal faturamento da festa não se conta pela bilheteria, dizem os blumenauenses, mas indiretamente, através dos hotéis, restaurantes e do comércio local.
A festa cresceu tanto que se tornou lucrativa. O dinheiro arrecadado é investido nas melhorias da cidade, galerias de águas, asfalto, assistência social. A prefeitura e o governo do Estado de Santa Catarina a apóiam de diversas maneiras e as agências de Turismo vêm mesmo se “apropriando” da festa, como evento a ser vendido para todo o Brasil. É claro que os blumenauenses percebem isto, e fazem uso do interesse econômico em sua festa para conseguir benefícios. Não é a toa que Blumenau se orgulha de não ter gente desempregada na cidade, a não ser a mão de obra totalmente desqualificada, e mesmo esta encontra ocupação durante a Oktoberfest.
Com o crescimento, várias novidades são inseridas na festa, gerando aplausos por um lado e protestos por outro. Em 1998 a festa deve contar com uma creche onde pais possam deixar seus filhos e participar dela tranqüilamente. Em 1997 uma pequena cervejaria foi montada no Biergarten e, uma “vila germânica”, objeto de muita polêmica, está sendo construída. Esta vila deve ser uma espécie de concentração de estereótipos alemães, a que muitos se opõem. Extrapolando as linhas tradicionais da festa, a prefeitura pretende instalar uma montanha russa e um bungee jump, que parecem ser bem vindos à cidade mas não à festa (Jornal de Santa Catarina, 04/11/96).
A constatação de que valia a pena ressaltar sua tradição e suas origens na festa foi um “tomada de consciência” positiva na história de uma cidade que sentia estar perdendo suas raízes (Sasse, 1991). Durante a primeira festa da cerveja de Blumenau, o povo bebeu, simbolicamente, toda a água do Itajaí, toda a herança alemã, toda a vida esquecida desde que o Dr. Blumenau chegou ao Brasil e comprou aquelas terras com a finalidade de colonizar e instalar os alemães imigrantes que para cá se dirigiam. A Oktoberfest revive esta história em seus carros alegóricos floridos, suas canções, ao mesmo tempo em que constrói uma nova história, pautada pela existência da festa, inventando e construindo há catorze anos, uma tradição que promete perdurar. O resultado do trabalho dos blumenauenses lhes deu uma maior consciência da importância de fatos aparentemente singulares num contexto universal.
Atualmente, alguns analistas da festa enxergam nela diversos problemas e mesmo uma descaracterização da idéia original, resistindo desse modo à visão de cultura como processo dinâmico. Entretanto, a transformação da festa popular em produto turístico parece estar introduzindo de fato novos elementos tidos como bastardos pelos primeiros festeiros. Os jovens, entretanto, apreciam as novidades e impulsionam a transformação.
Não apenas a região sul, mas também o nordeste, tem investido no modelo Oktoberfest em variações locais. Surgem então, a Dezemberfest, a Julifest, Fishfest, Cajufest e até uma intrigante Oktoberfest de Garanhuns, em Pernambuco, cidade que se auto-intitula “Suíça brasileira”. Com o slogan “Garanhuns tem clima”, sua Oktoberfest é divulgada chamando-se a atenção para os shows de artistas populares e do forró que acontece durante a quinzena.
A Julifest de Camboriú foi a versão da Oktoberfest criada pelo balneário de Santa Catarina. Vivendo do aluguel de apartamentos, venda de artigos de praia, restaurantes, enfim, do turismo, como todos os balneários, Camboriú criou um modo de atrair turistas durante o inverno, o rigoroso inverno do sul do país. Colonizada por portugueses açorianos, apostou na via da gastronomia como atração. A Julifest, ainda sem identidade definida, é chamada também de “festa das nações”, e nela são apresentados desfiles e shows de música folclórica além de comidas típicas de diferentes nações.
Itajaí, outra cidade catarinense de colonização açoriana, apostou na realização, entre os dias 6 e 26 de outubro, da Marejada, ou Festa Portuguesa e do Pescado, há 10 anos. Em 1996 a Marejada recebeu cerca de 270 mil visitantes vindos de todos os estados brasileiros. Nesta festa a atração são os diversos pratos preparados à base de peixes e frutos do mar, à moda portuguesa. E vinhos da região. Os habitantes e turistas se divertem ao som das canções folclóricas açorianas. Integrante do roteiro das Festas de Outubro de Santa Catarina, a Marejada é considerada a segunda maior deste Estado, perdendo em volume de público e de consumo apenas para a Oktoberfest de Blumenau.
Além destas festas típicas, outras festas, “de colheitas”, como as incontáveis festas “da Uva”, “do Morango”, “do Pêssego”, “da Maçã”, “do Kiwi”, “do Milho” e outras propagam-se por todas as cidades. A Festa da Uva, no Rio Grande do Sul, em Caxias e outros municípios, já tem uma longa tradição e serviu para construir não apenas relações de sociabilidade entre italianos, alemães e os brasileiros do sul, mas ainda para erguer uma série de entidades, inclusive políticas, de proteção aos agricultores e cooperativas.
Em Mato Grosso do Sul, a presença dos rios e a riqueza do pescado propiciou a criação da Fishfest, a festa do peixe, em Dourados, onde são devoradas toneladas de peixes os mais diversos, preparados segundo receitas e tradições também diferentes.
Inspirada neste sucesso das Fests do sul, a Secretaria de Turismo do Estado do Ceará passou a organizar a Cajufest, entre 6 e 10 de outubro, em Fortaleza. A Cajufest, que se pretende uma festa gastronômica, tem ainda, segundo alguns, “jeito de feira”, e promove a venda de produtos do caju e a apresentação de música e dança que tenham o alimento como tema. O objetivo da festa, segundo a Secretaria, é criar condições para que as cidades da serra, sertão e litoral possam receber turistas, ação francamente incentivada pela EMBRATUR. Para isso, um caminhão equipado com sala de aula vai visitar pequenos municípios do Estado e orientar os dirigentes sobre como lidar com o turismo, especialmente através da via das festas.
Este caráter “útil”, “funcional” está presente de modo mais definido nas festas que foram estabelecidas mais recentemente. Ele já se estava presente, como vimos, nas festas do período colonial, mas sua funcionalidade e seus benefícios eram revertidos para o Estado e a Igreja. Com o advento da República e a secularização (relativa) da sociedade, o povo parece ter se apropriado da lógica da festa colonial utilizando-a em benefício próprio. Assim, as festas são festas de construção de relações e de afirmação social, embora façam a crítica da ordem vigente, ao se realizarem também com o intuito de preencherem lacunas sociais deixadas pelo Estado em diferentes sentidos.
Especialmente no sul e sudeste do país, as festas têm finalidades claras. Se a primeira e mais importante é a comemoração, a conciliação entre inconciliáveis, não se pode deixar de notar sua força política e o papel de aglutinadora de forças que poucas vezes se vê na população brasileira quando se trata de lutar por seus direitos ou organizar-se em partidos ou associações civis. O exemplo das festas paulistas de N. Sra. de Achiropita e da Festa do Peão Boiadeiro de Barretos entre outras, mostra o inesperado poder organizativo da festa e de que modo ela pode ser também um aprendizado paralelo dos direitos e deveres dos cidadãos, que aprendem a lidar com a burocracia de Estado, com a política dentro dos grupos e, no sentido mais amplo, com as dificuldades no estabelecimento de parcerias com empresas e igrejas, com as disputas e com a extrema dificuldade de redistribuição de bens que a festa gera. Vejamos os exemplos paulistas.