Este texto faz parte da tese de Doutoramento em Antropologia Social de Rita Amaral, Festa à Brasileira - sentidos do festejar no país que "não é sério" defendida junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Brasil, no ano de 1998. Veja como citá-la clicando
Outro exemplo do tipo de organização que a festa é capaz de proporcionar, tornando-se um modo de enfrentar problemas sociais e ao crescer mostrar-se como atividade aglutinadora de diferentes interesses, dos religiosos aos empresariais, dos filantrópicos aos da mídia e do espetáculo, é a Festa do Peão Boiadeiro, em Barretos.Esta festa, realizada anualmente no Parque do Peão de Barretos, construído especialmente com esta finalidade é, hoje, a maior festa de rodeio do planeta. Internacionalmente conhecida, ela recebe milhares de pessoas, vindas de todos os lugares do país e do mundo. Além do espetáculo proporcionado pelos peões durante as provas do rodeio, na Festa do Peão Boiadeiro são realizados ainda, grandes shows com artistas renomados, feira de exposições, gastronômica e muito mais. Primeira deste gênero no país, a Festa do Peão Boiadeiro de Barretos nasceu em 1956, como resultado do trabalho e iniciativa de um grupo de jovens que um ano antes, haviam criado o Clube “Os Independentes”. Com a intenção de gerar recursos para serem aplicados em obras de benemerência, segundo afirmam seus fundadores (Site), o Clube idealizou uma festa que fosse tipicamente barretense e que homenageasse as raízes populares, artísticas e culturais da região, valorizando-as. Dos estatutos do clube constava que seus sócios deveriam ser financeiramente independentes (ricos) e solteiros. Nesta época, dizem, os barretenses, o clube era mais uma agremiação de playboys do lugar, que promovia grandes festas (Nogueira, 1989). Seja como for, já no primeiro ano de sua fundação aconteceu a primeira iniciativa comunitária dos “Independentes”, através de uma gincana beneficente.
À época, a cidade de Barretos era conhecida como a “capital da pecuária brasileira”, por motivos econômicos e históricos. Nesta cidade foi construído, em 1913, o frigorífico Anglo, primeiro da América Latina, fato que gerou notícias e comentários em jornais europeus e norte-americanos. Toda a carne consumida nos grandes centros urbanos era produzida nesse frigorífico, ainda hoje em atividade.
Estrategicamente localizada no norte paulista e com pastagens de primeira qualidade, Barretos era parada obrigatória das boiadas que vinham do Mato Grosso, Goiás e Triângulo Mineiro. Pelos antigos corredores boiadeiros, que hoje são o leito das modernas auto-estradas, milhares de comitivas transportando gado rumavam ao Sul, parando antes em Barretos, onde todo um estilo de vida foi sendo enraizado e, de certa forma, preservado. Os peões que vinham trazendo o gado para ser abatido no frigorífico Anglo organizavam rodeios para se divertirem e decidir quais eram os melhores. Eles foram os precursores da festa.
A década anterior (ou talvez mais cedo ainda) já assistira à realização de alguns rodeios e também das costumeiras Cavalhadas, por ocasião das Festas do Divino Espírito Santo. Dizem os barretenses que, apesar de serem plasticamente mais bonitas e melhor produzidas como espetáculo, as Cavalhadas, que simbolizavam a luta dos cristãos contra os mouros, não tiveram repercussão junto à população em geral como os rodeios, pois eram consideradas um espetáculo de origem medieval portuguesa, estrangeira, pouco se relacionando com a história e os hábitos dos brasileiros. Os rodeios, ao contrário, provocavam fortes emoções em todas as camadas sociais, do fazendeiro ao peão. Isso porque as pessoas viam nos rodeios alguma coisa que dizia muito de sua maneira de ser e de viver, identificando-se plenamente com a vigorosa luta entre o homem e o animal, prática cotidiana dos peões nas fazendas da região.
Por esta razão, paralelamente ao rodeio, desde a primeira Festa do Peão, "Os Independentes", se preocuparam em incluir na festa outros aspectos do estilo de vida daqueles homens que trabalhavam de sol a sol pelas estradas do interior brasileiro, domesticando animais selvagens e dominando a natureza.
Assim, foram introduzidos na festa concursos de berrante, de comida tropeira e de viola. Exposições de produtos relacionados ao estilo de vida rural foram também acrescidos ao evento. Confecções, tratores, caminhões, fertilizantes material de selaria etc. encontraram na Festa do Peão a melhor concentração de consumidores envolvidos na aura inebriante da festa, dispostos a gastar. Desde então as empresas produtoras de artigos relativos à agropecuária, não deixam de ter seu lucrativo estande nas exposições da festa. Para o público, por sua vez, a presença destas empresas na festa representa também uma boa oportunidade de atualização dos conhecimentos a respeito não apenas da moda, mas das novidades no setor agropecuário. (Site,1996/1997).
Com o crescimento da festa, mesmo a população mais urbana começou a entrar em contato os valores que ela punha em evidência, como a música, dança, alimentação e modo de vestir do peão boiadeiro. A população dos municípios vizinhos foi sendo atraída para a festa, excelente ponto de encontro da juventude e até mesmo a população das capitais passou a freqüentá-la anualmente, movida pelo interesse nas competições do rodeio e pela curiosidade sobre uma festa que cresce tanto.
Com isto a festa cresceu, não apenas no interesse de turistas e visitantes mas também em sua estrutura e conteúdo. Funcionando como uma imensa vitrine do folclore nacional, a Festa do Peão Boiadeiro de Barretos, passou a apresentar grupos folclóricos de várias regiões do Brasil, como os trazidos pelosCentros de Tradições Gaúchas e Nordestinas, ricos em tradições boiadeiras. Na festa também se apresentam grandes conjuntos folclóricos internacionais: argentinos, uruguaios, paraguaios, bolivianos, peruanos, chilenos e, mais recentemente, norte-americanos.
Graças à realização da Festa, que tem no rodeio sua principal e mais autêntica atração, a cultura do peão boiadeiro tornou-se mais conhecida no Brasil. Durante os rodeios, enquanto se aguarda que os peões entrem na arena, os locutores costumam relembrar não apenas os nomes famosos de peões campeões, como ainda contar velhos “causos”, quase anedotas, relacionados aos rodeios. Coisa para iniciados.(Site, 1997).
Apesar do caráter absolutamente secular da festa, a devoção religiosa de cunho católico não está dela dissociada e a fé em Nossa Senhora Aparecida, a grande padroeira dos peões, é constantemente referida, e a santa chamada para protegê-los. Antes do início do rodeio, todos os peões participantes se reúnem no estádio, onde, juntamente com o imenso público assistente, retiram seus chapéus e rezam por sua segurança.
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A festa como empresa cultural e o crescimento da festa
O Clube “Os Independentes” passou, a partir da festa de Peão, a ser o grande benemérito das instituições de caridade de Barretos, e não parou de crescer e desenvolver projetos e eventos cada vez maiores, tornando-se uma grande empresa cultural.
A intenção de arrecadar fundos para entidades assistenciais foi acrescida da iniciativa de promover a cidade de Barretos a “Capital Brasileira do Rodeio”, tornando-a um pólo turístico e divulgando sua identidade como a de “terra dos cowboys brasileiros”. Com isto, a festa gerou dividendos para todo o município e arredores.
O clube “Os Independentes”, destinou, segundo afirma, todo o resultado líquido das primeiras festas às instituições de caridade de Barretos e foram vários os benefícios recebidos por todas elas ao longo de todos estes anos, embora não se divulgue quais as entidades ou de que modo. Para a cidade de Barretos, contudo, não foi apenas o aumento da arrecadação de impostos através da arrecadação da festa o valor prático envolvido. Cresceu o número de estabelecimentos comerciais da cidade, e o dinheiro deixado nela pelos visitantes da festa e pelos turistas durante todo o ano. Soma-se a isto, a arrecadação pela exploração da feira agropecuária defronte ao recinto da festa. Em 1972, recebendo a primeira visita de um presidente da república, a festa, que já atingia âmbito nacional, teve aumentado ainda mais o seu prestígio. Depois disso, outros presidentes marcaram presença nela, que sempre conta com a visita de governadores paulistas além de secretários e deputados.
Tanto a Festa cresceu que em um dado momento, dizem seu organizadores, o resultado líquido já não podia ser repassado integralmente às entidades assistenciais como donativo, devido aos problemas junto à receita federal, dado seu montante. E além disso, a cada ano se tornavam necessários novos investimentos na festa. Isto não significou, entretanto, prejuízo às atividades beneficentes, segundo dizem os “Independentes”. Pelo contrário. Como solução para o problema, as entidades beneficentes passaram a ser parceiras do Clube na promoção da Festa, responsabilizando-se por setores de confiança e gerenciando a arrecadação de seus lucros. Atualmente os “Independentes” cedem um estande a cada entidade assistencial a fim de que esta exponha o que quiser e o explore a seu modo.
Em 1980, o clube adquiriu quarenta alqueires de terra para a instalação do novo Parque do Peão, já que o antigo recinto não comportava mais o público, que cresce a cada ano. Em 1985, a 30a. Festa do Peão já era realizada no Novo Parque , e assistida por milhares de visitantes vindos de todos os pontos do país. Em 1996 foram adquiridos mais dez alqueires e incorporados à área do Parque. (Site, 1996/1997).
Esta infra-estrutura se faz necessária para o atendimento de todos os que comparecem à festa, que registra números expressivos e que sistematicamente superam-se a cada ano . Segundo as informações do próprio clube “Os Independentes” e da prefeitura municipal de Barretos, toda a cidade fatura com a festa e, do mesmo que a Oktoberfest de Blumenau, o padrão de vida dos barretenses melhorou bastante a partir do sucesso do evento, revitalizando a cidade. O crescimento da festa estabeleceu um merchandising não só dentro dela mas também uma importante comercialização de chapéus, botas (não se comparece às festas de peão sem chapéu e camisa de madras, e se possível de botas), esporas, ponteiras para colarinhos, cinturões, violas, música country e tecno-sertaneja brasileira, laços, além do leilão de gado equino e bovino e muitas atividades mais, e de todo o comércio das cidades receber grande quantidade de dinheiro. Além disso, durante todo o ano são vendidos artigos alusivos à festa de peão como souvenir da cidade dos peões.
Foto do website de Os Independentes
Algumas estatísticas da Festa do Peão de 1996:
MOVIMENTO FINANCEIRO
PÚBLICO ESTIMADO: 1 milhão e cem mil pessoas no Parque do Peão/10 dias de evento
INVESTIMENTO: R$ 3 milhões
FATURAMENTO: R$ 6 milhõesALIMENTAÇÃO E BEBIDA:
Vendas de cerveja e refrigerantes: 1 milhão e 200 mil latas
Sorvete de massa: 1.500 Kg
Pão de Queijo: 30 mil
Churros: 15 mil
Batidas de Frutas: 6 mil
Pastel: 20 mil em 5 pontos de venda
Batatas: 6 mil quilos
Hot dog: 12 mil no estádio e 100 mil no Parque
Suco de Laranja:60 mil unidades
Amendoim torrado: 1.500 kg
Churrasquinho: 30 mil
Cocada: 30 mil
Maçã do Amor: 10 milINFRA-ESTRUTURA:
8 helicópteros,
5 balões dirigíveis
Montagem de 4 mil metros quadrados de estandes
(Fonte: Site, 1997)
Os patrocinadores e os eventos da festa
É claro que numa festa do vulto da de Peão Boiadeiro os patrocinadores são indispensáveis e hoje em dia os organizadores já não são tão “independentes” pois a lista de empresas que fornecem infra-estrutura, material de divulgação etc. em troca de seu nome estar espalhado em toda parte é longa. Entre os patrocinadores do Campeonato de Marcas (o rodeio propriamente dito) estão Bradesco, Brahma, Caixa Econômica Federal, Anglo Alimentos e Souza Cruz. Juntam-se ainda à festa a Petrobrás, Yopa e Warner Continental. O evento conta ainda com uma Companhia Aérea Oficial que faz preços especiais para os visitantes da festa, e é divulgada, antes e depois pelas revistas Revista Hippus e Rodeo Life. Os peões têm seguros de vida e de saúde cobertos pela Unimed e a garota vencedora do concurso de Garota Rodeio ganha um contrato com a Ford Models. (Site, 1996).
Toda esta infra-estrutura é necessária para a recepção adequada dos visitantes da festa, que pagam para assistir aos rodeios, apesar de haver 200 mil lugares gratuitos garantidos. Fora as várias modalidades de rodeio executadas , incluindo laço, montaria, doma em categorias internacionalmente reconhecidas (Saddle Bronc, Bareback, Bull Riding, Cutiano, Laço em Dupla, Laço de Bezerro, Três Tambores e Bull Doging), há varias outras atrações na festa, como o Concurso de Berrantes , as Violeiras (festivais de violas realizados diariamente no período da festa), gincanas, desfiles de animais e a tradicional “Queima do Alho”, uma competição culinária de peões.
A "Queima do Alho" acontece todo ano durante a Festa. O vencedor é aquele que prepara mais depressa a melhor refeição à moda dos tropeiros, respeitando as tradições no modo de preparo das receitas típicas : arroz carreteiro, feijão tropeiro e carne enxugada para assar (churrasco). O público presente é brindado com um almoço servido à sombra de um grande Ipê e ao som de música sertaneja. O termo “queima do alho” vem do fato de que os peões consideram que homens não sabem cozinhar, apenas “queimam alho”, na melhor das hipóteses. No entanto, o público aprecia a comida feita por eles.
Com o objetivo de incentivar na criança o gosto pelo rodeio e a prática do esporte, "Os Independentes" incluíram na programação da Festa do Peão de Barretos, o Rodeio Mirim, chamado de Festa do Peãozinho, em que a garotada se diverte e desenvolve a habilidade da montaria e da lida com os animais.
Há ainda uma série de shows realizados por artistas e cantores famosos de música sertaneja ou country. E como em qualquer festa brasileira que se preze não pode faltar um desfile, no primeiro domingo da Festa, acontece o Desfile Típico, que relembra o carro de boi, o trole, toda a tradição tropeira e homenageia os peões, sua trajetória e sua importância para a cidade de Barretos.
As mulheres também estão envolvidas no rodeio como laçadoras, domadoras, ou participantes do concurso de Rainha do Rodeio. Exibindo suas curvas em justos vestidos de camurça franjada ou calças de modelos inspirados no estilo western, moda que mistura couro, muita franja e o brilho dourado dos metais, a Rainha e as duas Princesas fazem o papel de relações públicas do evento. Como toda realeza que se preza, elas entram na pista do Barretão num trole puxado por cavalos. Em 1996, pela primeira vez, participaram do concurso, as rainhas das dez maiores Festas de Rodeio do país, e entre elas foi escolhida a Garota Rodeio Brasil. Participam do concurso, as representantes das cidades que realizam festas de peão.
As Festas de Peão Boiadeiro se tornaram, como a Oktoberfest de Blumenau, um modelo de festa capaz de incentivar o turismo no interior paulista e em todo o Brasil. Como o seu fundamento é a competição entre peões, estabeleceu-se um extenso circuito nacional de festas-rodeio que acontecem o ano inteiro até que chegue a data da maior delas, que é a de Barretos.
Como se vê, as festas da Achiropita e do Peão Boiadeiro, independentemente dos motivos que levaram à sua criação, acabaram dando origem ou incorporando em seu desenvolvimento vários novos objetivos de caráter filantrópico, comercial, político, artístico etc. Do crescimento, sucesso e repercussão das festas passaram a depender as reputações de prefeituras e vereanças. Os negócios locais. A possibilidade de diversificação de relações pessoais e as oportunidades, de todos os gêneros que a festa oferece. Por isso ela, mais que uma linguagem para a qual se traduzem valores e anseios da população brasileira, é também um dos nossos grande negócios.
Estes tipos de festas além de concentrarem recursos e redistribui-los em seguida, estabelecem a possibilidade de um grupo social crescer ao ser capaz de se organizar para realiza-las de forma cada vez mais sofisticada. Elas representam ainda um motivo de orgulho para a comunidade. É desse modo que os participantes criam um "espelho" no qual percebem, concretamente, o que são capazes de acumular e distribuir ou desperdiçar, e qual a "estatura" do grupo na sociedade abrangente. Em casos como estes, a festa não pode ser vista como simples de "válvula de escape". Nem como manifestação religiosa unicamente, mas uma "parceria" entre homens e deuses na luta por uma vida mais digna. A festa é ritual, divertimento e modo ação simultaneamente. Ela reaviva as velhas tradições, reforça laços de origem , mas também incorpora novos elementos e anseios.