"No
Brasil, por toda a parte encontra-se a religião ou o que receba
tal nome. Nada se pode fazer, nem observar sem deparar-se com ela de uma
forma ou de outra. É o mais importante detalhe da vida pública
e privada que aí temos. As festas e as procissões constituem
os principais esportes e passatempo do povo, e neles os próprios
santos saem de seus santuários, juntamente com os padres e a multidão,
[e] participam dos folguedos gerais. Não levar tais fatos em consideração
seria omitir os atos mais populares e esquecer os protagonistas favoritos
do drama nacional" (EWBANK, 1976:18).
As
festas, realizadas por todos os grupos, inclusive os urbanos, por motivos
vários ao longo da história, desempenharam um papel muito
mais importante em nossa cultura do que costumamos admitir. Elas puseram
em contato os anseios, valores e crenças dos grupos. Elas mesclaram
a música sacra aos ritmos populares. Misturaram os corpos, as raças,
construindo solidariedades que se mantiveram durante o decorrer da história,
desenhando os traços primeiros da cultura brasileira. Não
parece ser à toa que se diz que "no Brasil tudo acaba em festa".
O que é compreensível, já que ela pode comemorar acontecimentos,
reviver tradições, criar novas formas de expressão,
afirmar identidades, preencher espaços na vida dos grupos, dramatizar
situações e afirmações populares. Ser o espaço
de protestos ou da construção de uma cidadania "paralela";
de resistência à opressão econômica
ou cultural ou, ainda, de catarse.
Como
tudo que engloba, a cidade dá à festa muitos sentidos. Se,
de acordo com diferentes autores, as festas têm a "função"
de negar ou afirmar valores sociais, em lugares como São Paulo,
onde a convivência de diversos grupos obriga à reelaboração
de conceitos, elas têm também outras faces a serem vistas:
mais que mera "válvula de escape", mais que ser "contra" ou "a favor"
da sociedade tal como se encontra organizada, podem também ser o
modo próprio de expressão de um dado grupo ou mesmo instrumento
político deste, uma vez que boa parte mobiliza grande contingente
de pessoas e recursos com finalidades assistenciais, no sentido de cumprirem
um papel de apoio a seus membros ou de outros grupos, que terminam gerando
uma consciência política que dá origem a associações,
como as de bairro ou de leigos na igreja, por exemplo.
Este
é o caso da Associação São Vito Mártir,
que realiza anualmente, há 75 anos, a festa de São Vito no
bairro "italiano" do Brás (durante 7 semanas), a partir do começo
de junho. Além de festejar São Vito, a festa tem como objetivo
arrecadar fundos para uma escola e uma creche mantidas pela associação.
Outro exemplo é a festa de Santo Emídio, realizada por cerca
de três semanas pela população de Vila Prudente, na
capital de São Paulo. Ela faz parte do "ciclo italiano" de festas
de santos católicos. As comunidades envolvidas nelas, todas de imigrantes
e descendentes destes, de classe média (alta ou baixa), zelam com
severa disciplina pelos costumes herdados dos pais e avós, boa parte
deles fundados na religião e, segundo alguns participantes, ainda
em vigor nos países de origem. A paróquia de Santo Emídio
homenageia o santo há 53 anos, durante todo o mês de agosto,
e as principais atrações da festa são as massas, comidas
típicas italianas. Canelones, pizzas, lasanha, rondelli, entre outras,
com molhos variados, fazem parte da tonelada de massas "oferecida" durante
a comemoração. Para fazer toda essa comida, cerca de 500
casais da comunidade se reúnem para arrecadar dinheiro através
de outras festas, doações dos comerciantes, bingos, rifas
e do auxílio de instituições públicas, como
a Administração Regional do Bairro e a ELETROPAULO. Uma das
participantes conta que em 1993 foram necessários cerca de 320 mil
dólares para que a festa fosse realizada.
Conseguidos
os recursos para a compra dos ingredientes das massas, molhos etc., a comunidade
passa a dedicar todo seu tempo à execução dos pratos,
que são vendidos nas ruas dos bairros, em barracas ou galpões,
prontas ou cruas, com acompanhamentos diversos. Além das massas,
há também espetáculos musicais de artistas da própria
comunidade e todos os domingos, a partir das 13 horas, são realizados
shows com uma orquestra. Apesar do cardápio e dos convidados, a
comunidade de Vila Prudente não é formada apenas por italianos.
Segundo uma das responsáveis pela festa, o bairro é um "cadinho"
de miscigenação de imigrantes. "Aqui temos descendentes das
mais diversas regiões do mundo: espanhóis, japoneses e, é
claro, italianos" comenta. A quantia arrecadada nestas festas fica sempre
em torno de 20% do dinheiro investido em sua organização.
Em 1993 foram conseguidos cerca de seis mil dólares, todos eles
destinados à assistência social. Nos 53 anos de existência
da festa de Santo Emídio, já foram construídas creches,
asilos para idosos e a própria igreja matriz do bairro. As verbas
arrecadadas com a festa de 1993 tinham como destino a construção
de quatro salas de aula para crianças carentes da região.
Como
se percebe, a festa concentra recursos do grupo e os redistribui. A fartura
e a possibilidade de fazer uma festa cada vez mais "rica" são motivo
de orgulho da comunidade. É desse modo que os participantes criam
um "espelho" no qual percebem, concretamente, o que são capazes
de acumular e distribuir ou desperdiçar, e qual a "estatura" do
grupo na sociedade. Em casos como estes a festa deixa de ser a simples
de "válvula de escape", como pensam muitos teóricos. Nem
é, unicamente, manifestação religiosa, mas uma "parceria"
entre homens, santos, orixás e outros deuses na luta por uma vida
mais digna. Desse modo ela pode ser uma das maneiras de enfrentar dificuldades
práticas, como a falta de creches, asilos e escolas. A festa é
ritual, divertimento e ação política ao mesmo tempo.
Ela reaviva as velhas tradições, reforça laços
de origem, mas também incorpora novos elementos e anseios. O poder
associativo, reiterativo, identificador e reanimador da festa fica evidente
quando pensamos naquelas realizadas por imigrantes, infalivelmente, ano
a ano, ou mesmo nas de grupos religiosos diversos.
Os
italianos, por exemplo, marcando fortemente a colonização
paulista, realizam um ciclo de festas tradicionais, cujo ápice é
o mês de agosto. Desde o começo de junho este grupo realiza
as festas de São Vito, de Santo Emídio, de São Genaro
e de N. Sra. da Achirupita. No Yon Kippur, judeus confraternizam no bairro
do Bom Retiro. Os irlandeses e seus descendentes realizam nos pubs paulistanos
Finnegan's e Cocktail Factory (nos bairros de Pinheiros e Brooklin, respectivamente)
a festa de Saint Patrick, santo do qual são muito devotos. Os portugueses
se reúnem na festa "Abril em Portugal", realizada na Casa de Portugal
ou no Centro Trasmontano, quando comem peixe e bebem vinho português,
ao som de fados e viras. Os japoneses fazem festas religiosas e profanas
(como o Tanabata - Festa das Estrelas) nas ruas decoradas com bambus e
iluminadas com lanternas de papel, no bairro da Liberdade. Os norte-americanos
e as escolas de inglês introduziram, recentemente, no calendário
paulistano, uma festa tipicamente americana: o Haloween, bastante apreciado
pelas classes média e alta, que festejam em clubes, dançando
fantasiadas. Os nordestinos brasileiros que aqui residem comemoram efusivamente
São João, Santo Antonio e São Pedro. Este grupo tem
realizado, atualmente, em junho, o "tambor-de-crioula" e o "bumba-meu-boi",
festas típicas regionais, em suas casas, especialmente os maranhenses
e paraenses. Eles também realizam festas no Centro de Tradições
Nordestinas (CTN), no Bairro do Limão, ponto aglutinador deste grupo
de migrantes em São Paulo.
Grupos
religiosos também fazem grandes festas: os umbandistas festejam
no Ginásio do Ibirapuera o orixá guerreiro Ogum (São
Jorge) e, em várias ruas da periferia, São Cosme e São
Damião. São universais as festas católicas de São
Judas Tadeu, Santa Rita de Cássia e Santo Antonio nos bairros de
São Judas e do Pari e Centro, respectivamente. E há muitas
festas mais, de grupos ou não, que seria impossível indicar
aqui, como o Carnaval, as Micaretas, o Dia da Pátria, a Páscoa,
Reisados, Festa do Divino etc.
Se
a festa nega a submissão do povo ao poder instituído, ao
prover suas próprias necessidades ela usa, quando possível,
este mesmo poder para conseguir realizar-se. Pede-se ao Serviço
Viário que interdite ruas, às Administrações
Regionais, à Companhia de Energia Elétricas e às empresas,
que divulguem ou financiem alguma coisa. Muitas vezes até mesmo
a presença de políticos é bem vinda, pois dá
ao evento uma importância maior perante os grupos "adversários"
ou perante o público em geral.
Como
fato social total que é, a festa engloba as esferas de sentido,
transcendência, política, lazer, estética, tradição,
trabalho etc. Em alguns casos pode ser também uma forma de resistência
sob a aparência de alienação. É o caso da festa
de candomblé. Para o povo-de-santo, grupo formado em sua maior parte
por uma população menos favorecida economicamente e mais
fechado, ela chega mesmo a definir os contornos de um estilo de vida que
distingue, pelo gosto particular que o informa (o amor à dança,
à música, a sensualidade, o ludismo, o "desperdício",
o excesso, elementos definidores da Festa), aqueles que aderem a ele do
restante da sociedade".

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