As Cidades Mal Amadas
 
 
 
 
 
 
Hoje longe muitas léguas
Numa triste solidão
(...)
Eu te asseguro, num chore não, viu?
Que eu vortarei, viu, meu coração”
(Asa Branca de Luiz Gonzaga)

Hotel Unique - Av. Brig. Luiz Antonio, em São Paulo

São Paulo. Terça-feira. Sete horas da manhã. Estamos em pleno inverno e está geando na capital paulista. Terminal Rodoviário do Tietê: adentrando os pórticos desta estação de concreto, mergulhando neste que é o coração do Maluf, a cidade se faz fria e cruel. No banheiro um homem reclama de dor, sono, mal-estar. Ficou sete dias na rodoviária, sem dinheiro nem telefone pra contato. Sete dias. Pedindo comida, sete dias. Veio de Pernambuco em busca de emprego acertado boca-a-boca. Ninguém na rodoviária. Rodoviária lotada. Ninguém espera por ele. Está sozinho na rodoviária lotada. Ficou na mão:

- É dose. Aqui a gente chora e a mãe não escuta.

De frente pro espelho, o sozinho reclama sozinho, enxugando o rosto com papel higiênico, papel rosa higiênico. Sua barba é de sete dias. Sua esperança se foi, a primeira a morrer.
Um silêncio...

- Não dá mais preu ficá aqui...

A indiferença muda do mineral em todos aqueles que chegam e que saem. A latrina. O silêncio impotente, covarde.

- Aqui faz muito frio! Tô com frio por dentro. Minha sorte é uma passagem emprestada de volta...

Em 1929 havia um quarto paradigma - o do universo em expansão – segundo o qual numa primeira explosão o hidrogênio e o hélio teriam sido formados. Naqueles tempos a vida moderna não era possível. Nós seríamos de uma terceira explosão...vapores sufocantes de amônia num banheiro sobre a superfície congelada da Terra. Nestes tempos a vida moderna ainda parece não ser possível.

(JOÃO NINGUÉM, Rodrigo Evaristo)