Estilos de Vida
 
 
 
Estilo de vida é a forma pela qual uma pessoa ou um grupo de pessoas vivenciam o mundo e, em conseqüência, se comportam e fazem escolhas.
"Necessidades básicas" são aquelas que determinam, minimamente, a sobrevivência dos homens: comida, abrigo etc. No entanto,  se comer é uma necessidade, o modo como se come,  a escolha que se faz entre os diferentes tipos de comida ou, ainda, o uso de talheres e a opção que se faz entre diferentes tipos e materiais destes são indicadores  de valores que constituem estratégias de distinção no meio social.  Portanto, o uso de talheres de plástico, prata,  ouro, madeira  inoxidáveis etc. pode revelar anseios, práticas, adesão a valores e estratégias de distinção numa dada sociedade.  Do mesmo modo, se é preciso tomar banho, a escolha entre o sabonete das estrelas de cinema ou o "Abre-Caminhos do Amor" é significativa. Neste sentido, os elementos que preenchem os critérios de livre escolha, como os estéticos, artísticos,  religiosos e outros, passam a ser significativos para a definição do estilo de vida de um dado grupo.
Bourdieu chama a atenção, todavia, para o fato de que o conhecimento das características pertinentes à condição social e econômica só permite compreender a posição de indivíduo ou grupo no "espaço dos estilos de vida" (ou seja, nas práticas através das quais ele se marca e demarca) se for simultâneo ao conhecimento (prático ou não) da fórmula generativa do sistema de disposições generativas (habitus) no qual essa condição econômico-social se traduz e que a retraduz.
Segundo Ulf Hannertz (1962), não é contraditório que esse partilhar de emoções e sensibilidades seja efêmero, como geralmente acontece ser. Conforme os interesses do momento, conforme gostos e ocorrências, o investimento passional irá conduzir determinado grupo ou atividade. Maffesoli chama a isto de "união em pontilhado" que, naturalmente, induz a atração e a repulsão, a adesão e o afastamento, o que, evidentemente, se expressa em conflitos de toda ordem:
O gosto e a sensibilidade, fazendo parte do universo de subjetividades que constitui esta "conquista do presente", podem ser entendidos como elementos constitutivos deste "cimento" que aglutina os indivíduos em grupos, especialmente na cidade.
A análise das subjetividades, gostos, sensibilidades e valores em si não dá conta, entretanto, de que tais valores são moldados por condições concretas de vida que os geram e que por eles são definidas num estilo. Um exemplo: o gosto pela música clássica ou pela sertaneja é condicionado pelo acesso que indivíduos ou grupos tenham a elas e a análise da música em si ou do que se sente em relação a ela não dará conta de todo o seu significado se não for feita também em referência a outros gostos e preferências em relação aos quais se distingue. Portanto, as categorias da sensibilidade e do "espírito" deverão ser acrescidas, para uma análise mais completa, à definição de Bourdieu para quem, como vimos, o estilo de vida é o elemento fundamental dentro da ordem simbólica, na definição dos grupos de status. Se as classes sociais, dentro do esquema weberiano, se definem fundamentalmente em função das diferentes "situações de mercado", os grupos de status dependem do consumo de bens (materiais e simbólicos), expresso simbolicamente por um estilo de vida. Portanto, a posse de bens se traduz em consumo simbólico, em signos ou diferenças significantes.
Por outro lado, sendo os signos num sistema de signos uma função da relação com outros signos, ou seja, sendo seu valor dado pela posição que ocupam no sistema, o estilo de vida significa também relações de associação ou dissociação no sistema de estratificação. Logo, as formas ou estilos de consumo - por exemplo, das artes ou bens materiais - contribuem fundamentalmente para o conhecimento do significado atribuído pelos grupos às suas ações e da própria imagem social do grupo (Bourdieu, 1979).
MAFFESOLI, Michel O Tempo das Tribos. O declínio do individualismo na sociedade da massas  Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1987.
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