"O
principal efeito da força do hábito reside em que se apodera
de nós a tal ponto que já quase não está em
nós recuperarmo-nos e refletirmos sobre os atos a que nos impele.
Em verdade, como ingerimos com o primeiro leite hábitos e costumes,
e o mundo nos aparece sob certo aspecto quando o percebemos pela primeira
vez, parece-nos não termos nascido senão com a condição
de submetermo-nos também aos costumes; e imaginamos que as
idéias aceitas em torno de nós por nossos pais são
absolutas e ditadas pela natureza. Dai pensarmos que o que está
fora dos costumes está igualmente fora da razão” (MONTAIGNE).
INTRODUÇÃO
Sobre normais e deficientes.
Em qualquer sociedade os
valores culturais se concretizam no modo pelo qual ela se organiza. São
valores que refletem uma imagem do e no pensamento dos homens. Uma das
principais características dos valores é a de poderem ser
expressos na forma de adjetivos. Sendo assim, o termo "deficiente" é
um adjetivo que, como tal, adquire valor cultural de acordo com as regras,
padrões e normas estabelecidas nas relações sociais,
constituindo uma categoria capaz de agrupar, numa identidade comum, diferentes
tipos de pessoas. Oficialmente, a Assembléia Geral da ONU, em 1975,
proclamou no artigo I. que:
"O
termo pessoas deficientes refere-se a qualquer pessoa incapaz
de assegurar por si mesma, total ou parcialmente, as necessidades de uma
vida individual ou social normal, em decorrência de uma de uma deficiência
congênita ou não, em suas capacidades físicas ou mentais.”
(grifos meus).
A
partir de então, passou-se a usar o termo deficiente para indicar
todas as pessoas que apresentassem uma imperfeição física
ou mental, preferindo-se deficiente visual a cego, deficiente físico
a defeituoso, aleijado, deficiente mental a retardado etc. O termo parece
opor-se ao adjetivo "eficiente". E portanto o termo deficiente significa,
antes de tudo, "não ser capaz", "não ser eficiente". A "ineficiência",
numa sociedade capitalista, de classes, de consumo, de exploração
do trabalho, sociedade que ainda se pensa como um "corpo" faz, com a deficiência,
um contraponto significativo, elaborado há muito tempo por instituições
como a Igreja, o Estado e a família. O deficiente foi associado
à anormalidade e os não deficientes à normalidade.
A
noção de normalidade parece ter tido origem na abordagem
médica da humanidade, ou nas tendências das grandes organizações-Estado
de tratar como iguais, sob certos aspectos, todas as pessoas. A medicina,
aliás, implementou uma série de mal-entendidos durante toda
a História. Teve, entretanto, a consciência de rever
suas posições, conforme seus conhecimentos foram avançando
e provando que muitas práticas consideradas científicas não
passavam de crendices, sem nenhum fundamento. Todavia, é ainda bastante
corriqueiro encontrarmos médicos que se apegam a uma noção
de normalidade humana que se refere fundamentalmente ao aspecto biológico.
Há, evidentemente, setores da medicina que questionam e aos poucos
provocam a mudança de perspectiva no pensamento médico. Quaisquer
que sejam suas origens, esta noção fornece a representação
básica por meio da qual os homens se concebem.
Para
o senso comum, deficiente é toda pessoa que apresente algum
problema visível no corpo, na maioria das vezes no aparelho locomotor.
Um membro torto, paralisia, cegueira, amputações, são
vistas como "imperfeições" e seus portadores classificados
como deficientes. Digo defeito visível, porque o encontro visual
entre o deficiente e o "outro", normal, é muito importante,
já que é na relação de alteridade, basicamente,
que se estabelece a identidade dos indivíduos e, dessa identidade,
sua "carreira moral" (GOFFMAN, 1982). No caso das
pessoas deficientes, as conseqüências deste "encontro com o
outro" são ainda mais marcantes e, por isto mesmo, elas costumam
administrar a seu favor, quando possível, o conhecimento público
de sua deficiência.
“Quando
estou dirigindo meu carro no trânsito e um cara me segue pra paquera,
eu topo. Pego ate telefone e tal. Não digo, e nem teria como, sei,
lá, dizer que eu não ando” (Luiza, 27 anos, paraplégica).
“Uma
vez eu entrei numa blitz e um guarda me mandou descer do carro. Falei:
Não desço. O cara gritou: Desce do carro!!. Aí
eu tirei a chave da ignição, dei pra ele e falei: Pega
minha cadeira de rodas no porta-malas. O cara ficou mal: Desculpe,
você devia dizer..desculpe....[gargalhadas] (Martinho,
28 anos, paraplégico).
"Defeitos"
não aparentes, como gaguice, daltonismo, hemofilia, esterilidade,
mastectomia, colostomia, AIDS, enfim, aquelas que permitem o que Goffman
(1982:16) chama de "manipulação da informação",
não incluem a princípio, de modo geral, uma pessoa na categoria
dos deficientes. Os próprios deficientes, além disso, constroem
uma espécie de "gradação" dos defeitos que coloca
alguns em relação de superioridade/inferioridade com referência
a outros. O principal critério desta classificação
parece ser o quão próximo ele está (ou consegue parecer)
da normalidade. Quem consegue passar por "normal" ou tem deficiências
ocultáveis ocupa, em geral os "melhores lugares" na classificação.
Essa categorização é reforçada pelos familiares
e demais pessoas com quem o deficiente convive. Durante a pesquisa de campo,
a mãe de Rogério, um menino surdo, declarou-se resignada
pois para ela a surdez constituía um mal menor:
"E
se fosse cego? Ou paralítico ? Isso não vai ser problema
pra gente”
O
mesmo pensa a mãe de um adolescente surdo:
"Fui
visitar uma escola de crianças retardadas e saí aliviada”.
Um
exemplo pode ser dado pela seguinte quadro :
Este
quadro está intimamente ligado ao fato de que em nossa cultura,
a palavra "deficiente" tem um significado muito marcado e estigmatizante,
fazendo com que os indivíduos tentem fugir dessa categoria, onde
a aparência de normalidade ou a invisibilidade do desvio em relação
à norma são o principal elemento de inclusão ou exclusão.
Tem-se assim um quadro classificatório dos tipos de deficiências
em relação à normalidade, que se relaciona a um segundo
quadro em que a possibilidade de comunicação maior ou menor
situa os indivíduos em melhores ou piores posições:
Um
aspecto interessante a ser observado é a maneira como alguns deficientes
vêem seu defeito. Um deficiente visual que tenha 5% de visão,
por exemplo, não se considera cego; alguns deficientes auditivos
deixam de usar o aparelho auditivo - embora ouçam muito melhor com
ele - porque assim, dizem. conseguem passar por normais e sofrem menos
tensões. Por outro lado, alguns deficientes físicos que andam
apoiados em muletas dizem, muitas vezes, que "não andam",
como se o fato de usar apoios descaracterizasse completamente o ato de
andar. Este comportamento está relacionado especialmente a necessidade
de parecer normal e, no caso do deficiente físico com as muletas,
não negar a norma, o padrão, e parecer incapaz de enfrentar
a realidade.
Os
gregos, que tinham muito conhecimento sobre recursos visuais, criaram o
termo estigma para se referirem
a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de
extraordinário ou mau sobre o "status" de quem os apresentava. Atualmente,
o termo é amplamente usado de modo semelhante ao sentido literal
original, mas tem sido mais usado para designar a própria marca
do que à sua evidência física (GOFFMAN,
1982:16). No que diz respeito à deficiência física,
os sinais corporais conotativos da diferença da "normalidade" são
particularmente visíveis. Um olho opaco, uma perna que falta. Isso
pode levar ao engano de se pensar que a natureza do estigma do deficiente
é meramente física. Ao contrário, um estigma, quepode
ser físico, é também morale é
sempre uma marca socialmente imposta. As sociedades geralmente
estabelecem uma série de categorias entre as pessoas, e dão
os critérios para que a categorização possa ser feita:
sexo, cor da pele, cor dos cabelos,altura, religião, classe social
etc. Além disso, as sociedades definem a possibilidade de deparar
cada uma destas categorias nos diversos ambientes sociais, e que relacionamento
entre elas é possível acontecer. Qualquer pessoa que não
caiba nas qualificações previstas ou que não esteja
no lugar pré-determinado torna-se problemática e pode vir
a ser socialmente marcada. Assim, um deficiente físico não
é portador nato de um estigma. É o
fato daquele tipo de corpo, de "diferença física", não
ser aceito socialmente como normal que torna o seu portador uma pessoa
estigmatizada. Em outros termos, o que é visto como problema
e estigmatiza numa sociedade, pode não ter o mesmo sentido nem estigmatizar
em outra.
Sobre corpos e regras
Todos
os homens se defrontam, em todas as culturas, com a realidade do mundo
que os cerca e, de alguma forma, elaboram os dados que obtêm da percepção
da realidade. A percepção se dá a partir dos sentidos
e, portanto. do corpo que cada homem possui.
"O
corpo é a unidade máxima de representação do
ser humano e por isso adquire importância para toda vida e cultura.
Para viver é necessária a mediação do corpo,
que é o primeiro dos objetos culturais, o portador dos comportamentos.
Vive-se
com o corpo. Toda percepção exterior é imediatamente
sinônima de certa percepção do corpo, como toda percepção
do corpo se explicita na linguagem da percepção exterior"
(MERLEAU-PONTY,1971:15 grifos meus).
Quem,
no entanto, ou o quê, nos dá as fronteiras entre as
imagens? Entre o ponto e o fundo, que a teoria gestaltista nos diz ser
o dado mais simples que a percepção humana pode obter? Quem
ou o quê nos mostra qual é o universo possível de percepções?
A
verdade é que não existe, no sentido estrito, aquilo que
se diz ser o "mundo real", já que o mundo é inconscientemente
construído a partir de códigos da sociedade em sistemas de
representação, que agem como uma espécie de grade
classificatória sobre o mundo, sempre procurando organizá-lo,
classificá-lo, codificá-lo e traduzir suas dimensões
sensíveis em outras, inteligíveis. José
Carlos Rodrigues, estudando os tabus referentes ao corpo, diz que os
sistemas de representação de uma cultura são como
uma rede, “cujas malhas instituem os domínios
da experiência sobre um terreno antes indiferenciado e estabelecem
os limites dos comportamentos dos indivíduos e grupos" (1983:12).
A
existência de um sistema de representações que oferece
sentido e ordenação ao mundo perceptível é
o que se chama de cultura, ou seja, é aquilo que assegura
a existência de um grupo humano como tal. Tudo o que foge à
ordenação da cultura, tudo o que representa o insólito,
o estranho, o anormal, tudo que é intersticial e ambíguo,
tudo o que é anômalo, tudo o que é desestruturado,
pré-estruturado e antiestruturado, tudo o que está a meio
caminho entre o que é próximo e previsível e o que
está longínquo e fora de nossas preocupações,
tudo o que está simultaneamente em nossa proximidade imediata e
fora de nosso controle é germe de inquietação e terror:
converte-se imediatamente em fonte de perigo. E o perigo é claro:
negando a ordenação do mundo estabelecida pelo grupo, nega-se
a experiência do próprio grupo.
Seguindo
por este caminho, podemos perceber por que os deficientes são considerados
tão diferentes e agrupados como se fossem parte de uma outra "etnia",
de costumes desconhecidos e portanto até certo ponto capazes de
surpreender os demais. E, ainda, podemos compreender
por que se espera que os deficientes apresentem um comportamento moral
fora do comum, seja o de mártir sofredor resignado, espírito
elevado pelo sofrimento, seja o de malévolo, amargurado e rancoroso,
de espírito torturado pelo sofrimento, invejoso capaz dos piores
atos de covardia. Pensa-se assim porque suas percepções são
entendidas como diferentes, já que seu corpo é indubitavelmente
"diferente". O corpo deficiente nega, sob vários aspectos, a própria
cultura em que se insere. Mas este corpo deficiente existe e é concebido
pelos não-deficientes como um instrumento inadequado para a mediação
plena da vida, sendo portanto incapaz de perceber seu sentido total. Torna-se,
assim, suspeito de ser um portador de comportamento capaz de surpreender.
É quase como se o corpo deficiente não apreendesse o mundo
(ou o apreendesse de modo diferente, o que o impediria de compartilhar
códigos de comunicação com os não-deficientes)
e suas explicitações fossem resultado de uma percepção
distorcida. Como um espelho que deforma a imagem. Baseando-se nestas pré-concepções
a sociedade as transforma em expectativas normativas, em exigências
que aparecem de forma sistemática, ainda que ignoremos tal fato
até que se apresente um momento em que esta questão se objetiva.
Nestes momentos acontece o conflito entre os princípios classificatórios,
o imaginário cultural veiculados pelas religiões, literatura,
cinema etc e a concretude da experiência de contato entre o deficiente
e o normal. Tentemos pensar estas questões focalizando os casos
das deficiências visual e auditiva, que se encontram em diferentes
pontos em nossas escalas de aparência e comunicabilidade e, portanto,
de manipulação/aceitação durante as interações
com pessoas não deficientes .
Sobre visão
e audição
Em
primeiro lugar é preciso compreender o papel da visão e da
audição em nossa cultura e, para isto, parece importante
destacar, já de início, que o valor que se dá a estes
dois sentidos na cultura ocidental não é um fenômeno
universal, ou seja, compartilhado por toda a humanidade, como crê
o senso comum. Vejamos, como exemplo o modo como a visão e audição
são concebidas entre os índios brasileiros Suyá,
estudados por Anthony Seeger.
Para
os Suyá a visão é antitética à audição.
Entre os Suyá, a fala e a audição são os sentidos
mais valorizados e os mais elaborados simbolicamente. Por esta razão,
as orelhas e os lábios são constantemente marcados de forma
altamente simbólica por perfurações, por adornos,
modificação (como é o caso dos discos labiais, dos
adornos plumários e dos discos nas orelhas).
"Os
Suyá definem-se como uma tribo diferente de outros grupos por usarem
discos nos lábios e nas orelhas e por cantarem num estilo particular.
Afirmam que nenhum outro grupo tem estes três atributos e por isso
nenhum outro grupo é completamente humano” (SEEGER,1980:45).
Portanto,
o uso da fala e da audição - dois sentidos complementares
- é o que define os Suyá enquanto grupo."Os
Suyá recebem informações com todos os sentidos, mas
enfatizam mais a audição e a fala como faculdades eminentemente
sociais" (idem,.p.45). Como em qualquer cultura,
é por meio da fala e da audição que se dá a
socialização entre os Suyá. E pela fala que transmitem
os códigos e as normas de conduta, que devem ser ouvidos e bem retidos.
"Quando os Suyá aprendem alguma coisa, mesmo
algo visual como por exemplo, um padrão de tecelagem, dizem 'está
no meu ouvido'“ (SEEGER,1980:47).
Por
ser a fala a dimensão mais eminentemente social, as partes do corpo
que se relacionam a ela - os lábios e as orelhas (falar e ouvir)
- são ornamentados, perfurados, deformados, marcados enfim. Aqui
é preciso lembrar Pierre Clastres (1978:128)
quando diz que "a sociedade imprime suas marcas no
corpo dos jovens (...) o corpo é uma memória". No
caso dos Suyá, essa marca é feita justamente nos pontos do
corpo onde estão os sentidos privilegiados.
Já
a visão tem, para os Suyá do Xingu, um papel secundário.
Mais, até: um papel perigoso, desviante:
"Homens,
mulheres e crianças são socialmente definidos pela audição
e fala, e os feiticeiros pela sua visão extraordinária"
(SEEGER,1980:45)
Os
atributos de uma boa visão são usados para qualificar os
animais e, por extensão, as atitudes que fogem ao controle social,
como a dos feiticeiros. Uma pessoa torna-se feiticeira quando o feitiço
invisível entra nos seus olhos, o que acontece somente com certas
pessoas e em circunstâncias especiais.
"A
'coisa' nos olhos permite à pessoa literalmente 'ver tudo'.Pode
olhar para cima e ver a aldeia dos mortos no céu; pode olhar para
baixo e ver as fogueiras das pessoas que moram debaixo da terra e podem
olhar à volta e ver índios inimigos nas tribos distantes.
O feitiço nem é congênito nem é herdado. Só
entra no olho de alguma pessoa que está de alguma forma 'añi
mbai kidi', está em perigo de se tornar feiticeira” .(SEEGER,
180:47).
Como
a visão não é valorizada de maneira especial, é
claro que aos olhos não se dá nenhum adorno por ocasião
de festas ou mesmo no dia-a-dia. A importância reduzida da visão
é tão clara que, em festas, onde o canto é extremamente
valorizado, só ouvir é suficiente. Ou seja: "entre
os Suyá a visão é antitética à audição
e à moral" (SEEGER,1980:56), não
tendo importância no aprendizado social. A visão só
tem significado simbólico ligado à feitiçaria, ao
que é imoral e amoral.
Na
cultura ocidental, a audição, também tem um grande
valor pois, como entre os Suyá, está diretamente ligada à
transmissão dos valores culturais da sociedade. Isto pode ser observado,
por exemplo, nos Provérbios, um dos livros da
Bíblia, um dos pilares da cultura ocidental
"Escuta,
meu filho, a disciplina de teu pai, não desprezes a instrução
de tua mãe [...].” (Provérbios,1,8
grifos meus).
"Se
aceitares, meu filho, minhas palavras, e conservares os meus preceitos,
dando
ouvidos à sabedoria e inclinando teu coração
à prudência [...].” (Provérbios,
2, 1 grifos meus)
"Meu
filho, escuta e recebe minhas palavras e serão longos
os anos de tua vida" (Provérbios. 4,
10, grifos meus).
"Meu
filho, sê atento às minhas palavras, dá ouvidos
às minhas sentenças. Não se afastem os teus olhos.
Guarda-as dentro do coração" (Provérbios.
4,20-24, grifos meus)
As
passagens bíblicas igualam ouvir a obedecer e no que concerne à
linguagem o importante a ressaltar é que a surdez dificulta a comunicação,
distanciando o homem da característica que o distingue de outros
animais. Também quando dizemos "você
parece surdo", estamos nos referindo a uma pessoa que não
obedece, que não segue corretamente as instruções
dadas. Talvez por isto se diga que a surdez é “pior” que a cegueira.
O cego deixa de aproveitar certos aspectos do mundo concreto, mas não
perde comunicação com os demais.
A
audição tem importância fundamental exatamente por
estar relacionada à fala e portanto à linguagem. Esta, evidentemente
é uma situação universal, pois todas as culturas humanas
apresentam linguagem oral. Sendo a audição um meio essencial
para a aquisição e uso da linguagem, ela é um sentido
essencial à socialização de qualquer ser humano.
Sob este aspecto é que a surdez passa a ser entendida como especialmente
dramática quando ocorre na infância, já que ela dificulta
a inserção e adaptação ao meio social. Poderíamos
dizer, no entanto, que se a audição não fosse o canal
fundamental para a aquisição da linguagem, déficits
nessa área trariam prejuízos mínimos, comparáveis
à perda da capacidade olfativa ou gustativa. Isto é, o homem
se utiliza muito pouco de informações auditivas diretas e
não simbólicas. Assim, se for possível superar os
prejuízos de comunicação oral ocasionados pela deficiência
de audição, será possível integrar o deficiente
auditivo no meio social.
Por
sua vez, a importância da visão em relação à
audição nas culturas de tradição ocidental
é bem diversa da que é dada, por exemplo, na cultura Suyá.
Se a audição ocupa em ambas uma posição de
destaque como transmissora da cultura, a mesma proximidade não se
dá em relação à visão. Ao contrário
da sociedade Suyá, na sociedade ocidental a visão tem extrema
importância, embora lhe seja reservado um caráter ambíguo.
Tanto é assim que a maioria das artes ocidentals é predominantemente
visual. Mesmo a música, arte feita para ser ouvida, vem adquirindo
um plano visual através da vídeo-música, dos vídeoclips.
A própria linguagem, inclusive, adquiriu um plano visual, a escrita,
que exige decodificação visual.
Também
ao contrário dos Suyá, os olhos são, para os ocidentais,
uma parte do corpo valorizada e privilegiada. Os olhos são um espaço
do corpo constantemente adornado e seletivamente exposto ou protegido conforme
se deseje ou não expor a própria pessoa, pois se pensa que
"os olhos são o espelho da alma". Os
olhos são os órgãos que podem trazer imediatamente
informações à mente e, por este motivo, extremamente
privilegiados no quadro simbólico onde se encontram os sentidos.
Como os contatos interpessoais dentro do ambiente urbano são marcados
pela funcionalidade e eficiência com que possam se dar, a necessidade
de um acesso rápido à informação é entendida
como essencial. Nesse contexto, as informações visuais são
necessárias e vitais, pois são as formas mais rápidas
de absorção das informações.
A visão,
porém, apresenta caráter ambíguo: do mesmo modo que
pode absorver informações precisas e extensas (no sentido
de corresponder à realidade), pode também elaborar
ilusões, falsas impressões e até mesmo impressões
não classificáveis nas categorias estabelecidas pela cultura.
Informações falsas e "erros" ocorrem facilmente, já
que o aspecto exterior de uma coisa ou de uma pessoa não revela
o mecanismo interno que a rege. Nossa cultura admite isto. Basta lembrarmos
do ditado: "quem vê cara não vê
coração".
As
percepções não-classificadas nos padrões culturais
costumam ser absorvidas e incorporadas no plano da visão. "É
o fato de ver um fantasma que produz medo. É o fato de ver o impossível
realizado num milagre que produz a conversão nos presentes, enquanto
que aqueles que ouvem falar do fato freqüentemente nele não
acreditam" (SEEGER, 1980:57). Exemplos destes
dois tipos de "percepções não-classificadas" são
encontrados na literatura clássica mundial. Tomemos como exemplo,
aqui, a Bíblia, a peça teatral de Shakespeare, "Hamlet" e
a tragédia grega “Édipo Rei", de Sófocles.
"Bem
sabe Deus, eu não podia acreditar faltando a garantia sensitiva
e exata destes meus olhos" (Fala de Horácio, amigo de Hamlet,
no X ato da peça de Shakespeare, ao ver
o fantasma do pai de Hamlet).
"Um
dos doze, Thomé, [...] não estava com eles quando veio Jesus.
Os outros discípulos então lhe disseram: `vimos o Senhor'.
Mas ele lhes disse: `se eu não vir em suas mãos o lugar dos
cravos e se não puser meu dedo no lugar dos cravos e minha mão
no seu lado, não acreditarei'.[...] Jesus veio e [...] disse depois
a Thomé: `põe o teu dedo aqui e vê minhas mãos;
estende a tua mão e põe-na no meu lado e não sejas
incrédulo, mas acredita!'. Responde-lhe Thomé: `meu Senhor
e meu Deus!'. Jesus lhe disse: `porque viste, creste. Felizes os que não
viram e creram'." (Evangelho de -são João,
cap.20,versículos 24-29).
Lembremos
ainda que proezas consideradas impossíveis ou muito improváveis,
como atos de heroísmo ou fenômenos de difícil explicação
ou compreensão tomam nova cor e credibilidade quando existem referências
à visão dos fenômenos ou à existência
de testemunhas oculares.
Os
dois predicados principais da visão - o de ser um sentido muito
usado na vida cotidiana como fonte de informações imediatas,
necessárias ao convívio social e o de ser a principal forma
de acesso ao mundo e ao prazer estético, são utilizados para
pensar e rotular a deficiência visual. No Ocidente o indivíduo
cego é pensado, desde a Antiguidade, como portador, juntamente com
sua deficiência, do caráter de um "escolhido",
mediador entre os deuses e os homens, alguém que "vê" além
das aparências porque tem uma "outra visão",
mais penetrante e mais precisa. Ou o caráter de um "condenado",
que deve expiar sua culpa pela privação do prazer de ver
e receber informações que os "normais" e não "culpados"
de nenhum pecado ou crime que merecesse tal punição experimentam
cotidianamente. O cego é visto como "divino" ou "incapaz". Semideus
ou "bicho-ruim". Um exemplo do que estamos dizendo está contido
na tragédia Édipo.
Observemos,
em primeiro lugar, o caso do cego Tirésias. A ele é dado,
primeiramente, o caráter positivo da cegueira, o caráter
de "vidente espiritual", de capaz de ver até mesmo o futuro. Sua
imagem mudará, contudo, conforme mudam as circunstâncias ou
contexto em que ele se insere como cego. Vejamos o que diz Corifeu sobre
Tirésias quando este é chamado a solucionar o enigma da desgraça
que ocorre em Tebas e seu significado.
Corifeu
- Mas está aí quem pode descobrir o criminoso! Afinal trazem
o vidente iluminado! Se algum mortal tem acesso à
verdade, é ele!
Édipo
- Tirésias! Tu que tudo percebes, do mais claro ao mais denso
dos mistérios, alto nos céus ou rasteiro na terra, tu hás
de sentir, mesmo sem poder ver, a desgraça que assola a cidade..."
(pg.22).
Este
caráter é reforçado pelo próprio Tirésias
que, ao mesmo tempo em que o justifica, indica a possibilidade de erro
da visão. Quando ele declara que Édipo vive em pecado, maritalmente,
com sua mãe, Édipo inverte sua perspectiva e humilha Tirésias.
Este, defende-se apontando a "pobreza" da visão diante da "cegueira"
do espírito.
Tirésias
- Digo que tu, sem o saberes, coabitas com gente tua em sórdida
concupiscência e nem percebes a ignomínia a que chegastes!
Édipo
- Pensas que vais continuar falando assim impunemente?
Tirésias
- Se algum valor tem a verdade, sim.
Édipo
- Tem. Mas não para ti, pobre coitado! Cego dos olhos,
dos ouvidos e do espírito!
Tirésias
- Tu és o rei, mas o direito manda que de igual para igual eu te
responda. O que é um direito! Um privilégio meu! Não
é a ti que eu sirvo e sim a um deus! Nunca estive a serviço
de Creonte! E eu a ti digo, já que me ofendes por minha
cegueira: os dois olhos que tens pouco adiantam, pois não
vês a miséria que te cerca, nem a casa em que vives, nem com
quem...Sabes, ao menos, de quem és nascido ? (pg.29).
Ao
saber que vivia incestuosamente com a própria mãe, Édipo
impõe-se o que considera o maior dos castigos,
como punição: a cegueira,. que surge assim como
expiação de seu "pecado", ao mesmo que lhe serve de refúgio
para não ter de enfrentar a vergonha diante do mundo que o acusará.
Édipo
- Maldito aquele que na montanha desprendeu meus pés e me salvou
[...] se lá me tivesse abandonado pouparia todo esse sofrimento
a mim e à minha gente! [...] Eu não viria a assassinar meu
pai nem seria culpado como amante da criatura que me pôs no mundo
[...] Se existe um mal maior que o próprio mal, esse é o
quinhão de Édipo!
Coro
- Não sei dizer se agiste sabiamente... morto estarias melhor
do que cego!
Édipo
- Não me venhais dizer que não fiz bem assim. Já não
careço de conselhos. Se eu ainda enxergasse, com que olhos
fitaria meu pai ou minha mãe, entre os mortos, depois de
cometer tais crimes contra os dois, crimes que nem na forca estariam bem
pagos? [...] Ver meus filhos não me alegraria, nem
mais a cidade com seus muros, seus templos e as imagens de seus deuses?
[...] como iria eu olhar de frente o povo? Não! E
se ainda soubesse de algum meio de fazer silêncio nos ouvidos eu
vedaria ainda mais por completo esta triste carcaça - e me faria,
além de cego, inteiramente surdo! (pp.82-84).
Como
se vê nesta fala de Édipo, a cegueira e a surdez são
pensadas como fatores de distanciamento do indivíduo da vida social.
E mesmo neste sentido a ambigüidade se mantém, pois se por
um lado, são vistas como defeito, por outro também podem
ser entendidas como virtudes, quando se pensa que este distanciamento permite
ao deficiente "viver" numa outra realidade, outro mundo, o das percepções
extra-sensoriais.
Sobre deficiência
e papéis
O
maior problema social da deficiência pode ser o que ela representa
para o projeto de vida do indivíduo. Espera-se do ser humano normal
que cumpra com êxito os papéis pré-determinados pela
sociedade. Um lugar de destaque na profissão, casamento e uma família
"bem organizada" servem como exemplo deste "êxito" para o senso comum.
A questão é que esse mesmo senso comum veta ou diminui muito
as chances deste "sucesso" para os deficientes, ao transforma-los em "gênios",
"heróis" ou "rochas de coragem", - seres ainda assim destituídos
da normalidade - os deficientes que conseguem ser "bem sucedidos"
e em complexados, fracassados, incapazes os que não atingem os objetivos
propostos pela cultura a seus membros.
Se
em nossa sociedade a visão é um sentido valorizado e privilegiado;
conseqüentemente, aparência pessoal é um fator decisivo
nas relações. Para os portadores de deficiência as
possibilidades de relacionamento são bastante diminuídas
a princípio, pois sua "diferença" é bastante reforçada
pela aparência e posturas corporais. Para os deficientes físicos
a situação é ainda mais crítica que para os
demais, já que seu "defeito" é inocultável. Ao vermos
uma pessoa numa cadeira de rodas é muito difícil que a associação
imediata ao adjetivo "aleijado " e tudo que ela significa culturalmente
deixe de acontecer. O mesmo acontece ao estendermos a mão para uma
pessoa sem um braço. Estas situações são tensas
para ambos os lados - normal e deficiente - o que faz com que alguns deficientes
tenham uma "piada" a respeito da deficiência para quebrar a tensão.
Isso acontece porque o confronto visual, no caso dos deficientes físicos
é imediato e principalmente visual. No limite, é um contato
carregado de "primeira impressão".
“Eu
costumo quebrar o mal estar dizendo que um cara ali atrás me pediu
uma mãozinha e ainda não devolveu” (Marco, 34, amputado
do braço direito).
Para
os cegos, é a questão da postura corporal a mais forte, pois
um conjunto de práticas gestuais, ainda que relacionadas às
necessidades biológicas, são socialmente aprendidas por meio
de imitação, que é um mecanismo basicamente visual.
Sentar, andar, falar, segurar, puxar, mastigar, beber, beijar, acariciar
etc. são exemplos de práticas do corpo que têm suas
formas decodificadas e transmitidas de um modo pouco acessível para
os cegos.
"Em
todos esses elementos da arte de utilizar o corpo humano os fatos da educação
dominam. A noção de educação poderia sobrepor-se
à noção de imitação. Pois há
crianças em particular que têm faculdades muito grandes de
imitação, outras que as têm bem fracas, mas todas passam
pela mesma educação, de sorte que podemos compreender a seqüência
dos encadeamentos. O que se passa é uma imitação prodigiosa.
A criança, como o adulto, imita atos que obtiveram êxito e
que ela viu serem bem sucedidos em pessoas que têm autoridade sobre
ela. O ato impõe-se fora, do alto, ainda que seja um ato exclusivamente
biológico e concernente ao corpo. O indivíduo toma emprestada
a série de movimentos de que se compõe o ato executado à
sua frente ou com ele pelos outros" (MAUSS, 1974:215).
Já
o caso dos deficientes auditivos é diferente. Eles não são,
à primeira vista, identificados como deficientes. Podem caminhar
pelas ruas tranqüilamente, tomar um ônibus sem que lhe "cedam
lugar", sem se tornar objeto da compaixão pública. Sua deficiência
só se manifesta quando são exigidos a se comunicar e, mesmo
assim, ela pode ser dissimulada, como nos casos em que o surdo fala ou
consegue se fazer passar por normal, assumindo o comportamento de alguém
que "finge" não ouvir, de uma pessoa "desatenta" ou esnobe, mal
educada. Só é manifesto o caso em que o deficiente auditivo
usa o aparelho de audição de modo muito visível, o
que vem se tornando cada vez mais raro com a descoberta dos chips que permitem
reduzi-los cada vez mais. Ou, ainda, quando o grau de surdez não
permite o uso de aparelho e o surdo é obrigado a se comunicar. De
qualquer modo, a administração da informação
para qualquer deficiente faz parte da construção de suas
relações e portanto de sua identidade cultural,social, e
pessoal.
Sobre a Identidade
Pessoal
Por
ser visivelmente manifesta, a diferença dos deficientes é
um elemento absolutamente essencial para a construção do
que Goffman (1982:116) chama de "Identidade Pessoal".
A identidade pessoal, construída pelos outros, é a
imagem que as pessoas têm sobre o indivíduo deficiente. Essa
imagem criada e que pode não corresponder (e em geral não
corresponde) à realidade, influi fortemente no relacionamento do
estigmatizado com as pessoas que ele encontra cotidianamente, pois não
são todas que o conhecem pessoalmente ou têm informações
suficientes a respeito de sua deficiência para tratá-lo em
vista de sua pessoa e não em vista do estereótipo da deficiência.
O
próprio indivíduo também tem uma auto-imagem, nomeada
por Goffman de "Identidade do Eu" (Goffman, 1982:41;44),
que em geral é construída com os elementos que o senso comum
usa para montar o quadro da identidade pessoal. Mas estes elementos podem
ser combinados de modo a resultar numa elaboração final mais
coerente com a real dimensão da deficiência. Se essa auto-imagem,
ao formar-se, for muito influenciada pelo senso comum, o indivíduo
corre o risco de introjetar em si os mesmos preconceitos que a sociedade
tem em relação a ele (passando a ter preconceito contra si
mesmo) resultando, não raro, em insegurança e angústia
profunda.
A
identidade do eu e a identidade pessoal do deficiente, sua auto-imagem
enfim, dependem muito do modo pelo qual o indivíduo adquiriu a deficiência.
Segundo Goffman (1982), três modelos de "carreiras
morais" ou tipos básicos de história de vida podem ser identificadas
entre pessoas deficientes:
-
· os que têm uma
deficiência congênita e são socializados dentro de uma
situação de desvantagem;
-
· os que têm uma
deficiência congênita e são socializados dentro de uma
situação de proteção (dentro de uma cápsula
protetora);
-
· os que adquirem a deficiência
muito tarde (depois da fase de socialização).
De
todos esses tipos de história de vida, as que incluem a socialização
dentro da deficiência são aquelas em que as funções
da família e da educação são essenciais para
que a criança possa se inserir no meio social com um mínimo
de tensões. No segundo modelo, em que há a socialização
dentro de uma situação de proteção é
o caso onde a atuação da família e da instituição
educativa são nefastos, pois leva a uma "cristalização"
da deficiência (o fechamento do deficiente dentro de um mundo irreal)
com a possibilidade de tensões máximas quando do contato
deste deficiente com o mundo exterior. Para os que adquirem a deficiência
depois de socializados (terceiro modelo) já houve tempo e condições
para que houvesse a aquisição de certos preconceitos contra
deficientes. Será preciso superá-los, mas será mais
difícil, pois ele tenderá a ver a si próprio como
costumava ver o outro. A maior dificuldade, contudo, parece ser a adaptação
à nova condição, processo onde existe grande responsabilidade,
ainda, por parte da família e da instituição de reabilitação.
Qualquer
que seja a forma pela qual o indivíduo tenha adquirido a deficiência,
ela tem profundas implicações psicológicas. Desde
a rejeição pura e simples até a dificuldade de elaborar
a própria diferença em relação aos outros.
O aspecto social, juntamente com o psicológico e o biológico
forma um tripé sobre o qual se apóia a experiência
vivida de cada pessoa, deficiente ou não. Deve-se mencionar que
o deficiente não precisa administrar o estigma no mesmo nível
o tempo todo. Fundamentalmente, o trato com o estigma que gera os
maiores problemas acontece na vida pública, no relacionamento com
pessoas estranhas ou meras “conhecidas". O deficiente pode se confrontar
com sua identidade de "desviante" no momento em que lhe é negado
um emprego (nem sempre por causa de sua deficiência, é claro,
mas isto será sempre uma interrogação, como nos demais
fracassos) ou acesso a determinado cargo, área do conhecimento ou
durante as relações amorosas . Nas relações
íntimas, com pessoas mais conhecidas, o estigma não conta
decisivamente. Como as relações em nível afetivo/amoroso
têm muito peso (e dificuldades) para os deficientes, sua noção
de pessoa e sua auto-estima estão intimamente relacionadas com a
possibilidade de serem aceitos como parceiros nas relações
afetivas. A relação entre noção de pessoa e
lógica de conduta é dual -entre físico e psicológico,
individual e social, corpo e alma. Esta concepção surge de
fora para dentro. Sua identidade, portanto, é aprendida, construída
a partir de papéis conflitivos entre sua auto-imagem e sua imagem
social.
Poderíamos
dizer que o cotidiano de relações de uma pessoa deficiente,
seja qual for o tipo de sua deficiência, faz parte de um "continuum"
entre dois extremos, ou seja, a relação com o completo desconhecido,
onde o estigma aflora com toda a sua força, chegando até
a relação com o conhecido onde a afeição e
a compreensão são o que realmente conta. Ela não é
e nem quer ser vista como inferior, incapaz, má ou invejosa, nem
também como superior, iluminada ou santo suportando na carne o sofrimento
que edifica. Assim, também com relação ao conhecimento
da deficiência pelos não deficientes podemos estabelecer
um continuum em que quanto mais familiar e conhecidos são
a deficiência e o deficiente, mais se dilui o estigma e mais o portador
é percebido como uma pessoa comum.

A
familiaridade mostra que pessoas deficientes não são piores
nem melhores que as outras em razão de sua deficiência – apenas
diferentes - e são capazes de olhar para a vida incluindo nela sua
condição de deficiente. Como a identidade se constrói
contrastivamente, é em cada relação que os indivíduos
se constroem, sendo bons ou não, leais ou não, santos ou
malditos.
Conclusão
O
que desejamos mostrar aqui foi que o quadro completo da deficiência
e do deficiente não se define apenas por um conjunto de possibilidades
dadas pelo corpo, como a capacidade de cegos serem digitadores e não
poderem ser motoristas de táxi, por exemplo. Evidentemente, o aspecto
biológico influi e pode mesmo determinar certas situações
na vida de um deficiente. Mas a grande carga simbólica só
pode ser dada pelo aspecto cultural. Com o que podemos
concluir que em terra de cego, nem sempre quem tem um olho é rei.
Pode ser feiticeiro; vidente iluminado. Ou maldito. Depende.
O
que se observa é que a questão da identidade do deficiente,
apesar de ser constantemente justificada pela dimensão biológica,
é, na verdade, fortemente influenciada pela dimensão cultural.
Não se deve, é claro, confundir essa influência com
um determinismo cultural. A questão da deficiência deve ser
tratada sob o ponto de vista do "homem total". Quando dizemos que o social
dá uma grande contribuição na definição
da identidade do deficiente não estamos querendo afirmar nenhum
determinismo social e nem dizer que as sociedades são rigidamente
organizadas, sem nenhum espaço para qualquer desviante. É
claro que qualquer “desviante” da "normalidade" em qualquer sociedade,
seja a Suyá, seja a ocidental, não é inserido nos
grupos e padrões sociais sem tensões. Existem indivíduos
que não aceitam tais critérios e até mesmo forçam
as sociedades a reelaborá-los, como acontece com os homossexuais
, como aconteceu com os judeus e as mulheres e como vêm fazendo os
negros e deficientes ultimamente. É preciso deixar claro que as
sociedades são realidades vivas e, portanto, dinâmicas, sempre
sujeitas a tensões e ajustes que tentam dar conta dos problemas
concretos e históricos que se lhes apresentam.
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