O
que é uma Cidade?
"É
sempre lindo andar, na cidade de São Paulo
O
clima engana, a vida é grana em São Paulo
A
japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo
Gatinhas
'punk', um jeito ianque, em São Paulo (...)
Na
grande cidade me realizar
Morando
num BNH
Na
periferia, a fábrica escurece o dia"
(São
Paulo, São Paulo - Premeditando o Breque)
"A
música prossegue, descrevendo ironicamente as múltiplas faces
de uma cidade que, ao mesmo tempo em que é percebida como poluída,
desumana ("a vida é grana"), surge também como uma espécie
de "vitrine" da diversidade que torna "sempre lindo andar na cidade..."
Essa
diversidade
é uma das características mais marcantes da Cidade. É
o que lhe imprime contorno e ritmo únicos. A imagem da cidade é
composta de um sem número de traços, linhas, cores, sinais
gráficos, sons, sotaques, letras, roupas, números, cheiros,
frases, massas, volumes, movimentos etc. É aqui o lugar onde convivem
as relações capitalistas impessoais com o nepotismo, os direitos
legais com as "panelinhas", o concurso público com o "pistolão",
a religião com a ciência, a família com o individualismo
crescente, o isolamento individual com a comunicação internacional
e, em termos de espaço físico, centros superconstruídos
com periferias vazias, arranha-céus com favelas, palacetes e cortiços,
avenidas com pracinhas; a arquitetura tradicional e de estilo convive lado
a lado com a ultra-moderna mas, principalmente, a cidade é o lugar
onde convivem pobres e ricos, velhos com jovens, mendigos e doutores, católicos
e protestantes, ateus
e macumbeiros, gregos e baianos, a "japonesa loura, a nordestina
moura", o empresário e o funcionário, o operário e
o ladrão, o malandro e o otário...Na cidade, a cultura até
mesmo cria a natureza. Parques florestais, praças, bosques, jardins,
por exemplo, estão presentes apenas onde o homem deseja ou permite.
Tudo isto dificulta uma definição do que seja a cidade, que
pode ser, ao mesmo tempo, tudo e nada. Então, será que, levando-se
conta tamanha diversidade, a cidade realmente existe como totalidade e
pode ser pensada, como categoria antropológica? Como uma variável
explicativa dos fenômenos que abriga? Como se define, então,
a cidade?
Lefebvre
(1969) definiu a cidade como a "projeção da sociedade sobre
um dado território". Essa afirmação parece bastante
elementar e, ao mesmo tempo, um ponto de partida indispensável,
porque se é necessário ultrapassar o empirismo da descrição
geográfica, corre-se o risco de imaginar o espaço como uma
"página em branco" sobre a qual se inscreve a ação
dos personagens sociais e das instituições, sem encontrar
obstáculos, a não ser o "desenho" das gerações
anteriores. Isso corresponderia a conceber a natureza como totalmente moldada
pela cultura e, assim, que toda problemática social tem origem na
união destes dois termos, através do processo dialético
pelo qual "uma espécie biológica particular (dividida em
classes)", o homem, se transforma e transforma o seu desenvolvimento na
luta pela vida e pela apropriação diferencial do produto
de seu trabalho.
Para
os autores que a pensam como uma variável dependente, a cidade não
se auto-explica, uma vez que ela não é uma totalidade, mas
apenas a objetivação de uma totalidade maior na qual se insere.
Estes autores geralmente estão interessados em fatores históricos
e estudam a cidade como produto de diversas causas econômicas, políticas
e sociais. De acordo com diferentes circunstâncias e forças
históricas, existiriam cidades de tipos diferentes, (portos, santuários,
industriais etc.) desempenhando funções ligadas às
áreas nas quais estão inseridas. Entre os autores que aderem
a esta perspectiva, parece suficiente citar Karl Marx e Max Weber, por
sua importância e influência nas ciências sociais. Apesar
de suas divergências teóricas serem profundas, ambos caracterizam
a cidade ocidental como um lugar de mercado.
Weber,
no texto "Conceito e Categorias da Cidade" (Weber, 1987), observa vários
tipos de cidade que existiram no passado e mostra suas diferentes origens,
enfatizando a importância do mercado para seu desenvolvimento. Neste
ensaio ele formula um conceito que é construído por uma série
de circunstâncias ou pré-requisitos necessários para
o desenvolvimento das cidades. Resumindo o conceito weberiano, a existência
da cidade implica a existência de uma comunidade com alto grau de
autonomia, tanto no nível objetivo (mercado, fortificação,
exército, tribunal e direito ao menos parcialmente próprio),
quanto no nível subjetivo, como um "conjunto de lealdades".
Para
Weber, a cidade é pré-condição da existência
do capitalismo e pressuposto de seu desenvolvimento. Ele chega a afirmar
que uma das razões de o capitalismo não ter se desenvolvido
no Oriente foi justamente a ausência de cidades definidas de acordo
com seu modelo. À medida, entretanto, em que as cidades são
incorporadas a Estados nacionais, elas não podem mais ser captadas
com uma totalidade porque são absorvidas numa unidade mais ampla.
E isto leva a uma situação onde a cidade significa uma comunidade
relativamente autônoma, enquanto, por outro lado, ela se torna parte
integral de sociedades mais abrangentes. Por isso, Weber descartou a relevância
de uma sociologia das comunidades urbanas já que, para ele, embora
a cidade moderna tenha se originado da comunidade relativamente autônoma
de "burgueses livres" que existiu no período de transição
do feudalismo para o capitalismo, estas comunidades perderam rapidamente
sua independência para se tornarem os alicerces do Estado-nação.
Desse modo, as cidades deixariam, para Weber, de proporcionar a base da
experiência social total que caracterizou a "associação
de comunidade", dando lugar, em vez disso, a uma estrutura social muito
além da área urbana, deixando de ser, portanto, uma unidade
relevante para a análise sociológica (Weber, 1987).
Marx,
por sua vez, afirmou que a economia urbana requer um processo prévio
de divisão social do trabalho. No caso das cidades européias
da Idade Moderna, isto significou o desenvolvimento de um novo padrão
de exploração, que substituiu o sistema estamental pelo de
classes sociais. Isto requereria homens livres, no sentido de que, de um
lado deveria haver pessoas não sujeitas aos laços da servidão
e que, portanto, pudessem vender sua força de trabalho e, de outro
lado, uma classe burguesa (portanto livre da dominação de
senhores feudais) que estivesse disposta a comprar e usar tal força
de trabalho. Para Marx, é apenas nas cidades que estes dois novos
atores sociais se encontram e interagem.
Odesenvolvimento
do modo de produção capitalista, como descreve Marx em "O
Capital", aconteceu (após o aparecimento prévio do capital
através do comércio no mundo do século XVI) por meio
das transformações que ocorreram nas cidades onde as manufaturas
foram eliminadas pelas fábricas às quais os servos pediram
empregos depois de serem expulsos ou fugirem do campo.
Neste
sentido, também para Marx, a cidade é um mercado, uma vez
que ela contém a "população exigida pelo aparelho
produtivo e o 'exército de reserva'que a burguesia requer a fim
de comprimir os salários e dispor de um `volante' de mão
de obra. Mercado de bens e de dinheiro (dos capitais), a cidade também
se torna o mercado de trabalho (da mão de obra)" (Marx & Engels,
1974: 62). Assim, se a cidade industrial capitalista representa o encontro
de indivíduos que compartilham uma situação de libertação
do sistema feudal, para Marx ela expressa as condições mais
fundamentais de alienação do homem.
Apesar
das divergências entre Marx e Weber serem profundas e fundamentais,
é preciso reter o fato de que os dois analisaram a cidade historicamente
e mostraram, de maneiras diferentes, que na tradição ocidental
a cidade tem sido o ponto de convergência de processos diversos.
Eles mostram que historicamente "cidade e política nasceram, na
tradição ocidental, como conceitos e realidades inter-relacionadas.
De resto, etimologicamente as ligações são claras:
civitas e polis são as raízes em distintos idiomas para expressar,
ao mesmo tempo, um modo de habitar e uma forma de participar: civismo e
política" (Cardoso, 1975:135).
Uma
vez que se reconhecia que as cidades deviam ser compreendidas historicamente
como partes integrantes de sociedades mais abrangentes, era possível
discutir a importância da vida urbana para os diferentes fenômenos
sociais.
Havia,
entretanto, quem pensasse diferentemente. Como fenômeno social, uma
das tendências mais fortes (conhecida como Escola de Chicago), entre
as teorias sobre a cidade foi justamente a que a considerava como uma variável
independente, sendo a cidade entendida como uma "força" social capaz
de gerar, por sua influência, diferentes efeitos na vida social.
Os autores que compartilhavam essa teoria, entre os quais se destaca Louis
Wirth, consideravam o modo de vida a que ela (a cidade) daria origem
como sua principal consequência, concedendo forte valor explicativo
ao urbano em si na análise dos diversos fenômenos que ocorrem
em seu interior.
Wirth
acreditava (como Simmel, seu "inspirador"), que o estabelecimento de cidades
implicava o surgimento de uma nova forma de cultura, caracterizada por
papéis altamente fragmentados, predominância de contatos secundários
sobre os primários, isolamento,
superficialidade, anonimato, relações sociais transitórias
e com fins instrumentais, inexistência de um controle social direto,
diversidade e fugacidade dos envolvimentos sociais, afrouxamento nos laços
de família e competição individualista (Wirth, 1987).
O
antropólogo Robert Redfield, por sua vez, opunha uma sociedade "folk"
a uma urbana e acreditava que existissem variações contínuas
entre elas, aumentando ou diminuindo de um pólo para outro de seu
continuum. Para ele, as consequências do deslocamento em direção
ao extremo urbano de seu continuum eram a desorganização
da cultura, a secularização e o individualismo. A
urbanização enfraqueceria ou destruiria os firmes laços
que ele pensava que integrassem os homens em uma sociedade rural e criava
uma cultura urbana caracterizada pela fragmentação de papéis
sociais e um comportamento mais secular e individualista (Redfield, 1941).
Por
trás dos modelos de Wirth e Redfield encontra-se a oposição
culturalista entre o tradicional e o moderno. Mas as limitações
dessa abordagem os impede de perceber que se a cidade é o contexto
onde tais fenômenos ocorrem, eles são gerados pelo desenvolvimento
da industrialização capitalista que acontece nas cidades.
Confundem-se, nesta abordagem, cidade e sistema produtivo. Além
dessa, outras críticas foram dirigidas a Wirth :
-
apesar de desejar fazer generalizações válidas
de modo universal, suas proposições só seriam aplicáveis
a cidades industriais;
-
a distinção entre rural e urbano não parecia estar
tão claramente ligada à distinção entre grupos
primários e secundários como ele pensava;
-
a diversidade existente na cidade faz com que várias proposições
de Wirth sejam simplistas, já que ela pode oferecer um leque maior
de alternativas para todos os tipos de relacionamentos do que o existente
no meio rural;
-
Wirth não viu a persistência de grupos primários
como elemento integrante da vida urbana e suas funções nas
organizações impessoais. Um exemplo disso, constantemente
lembrado, é o da Mafia, nos Estados Unidos, em Chicago dos anos
30, e as fortes relações de parentesco e de origem que a
organizavam (Velho, 1980).
Assim,
uma cidade pode ser aquilo que dela se vê ou se entende, como mostrou,
literariamente, Italo Calvino em
"As
Cidades Invisíveis"
Bibliografia
AMARAL,
Rita Povo-de-santo, povo de festa Estudo antropológico
do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulista. Dissertação
de Mestrado apresentada ao Departamento de Antropologia da Universidade
de São Paulo. USP. São Paulo, 1992.
CARDOSO,
Fernando Henrique "A Cidade e a Política:do
Compromisso ao Inconformismo".In:
Autoritarismo e Democratização.
Paz e Terra, Rio de Janeiro.1975
MARX,
Karl & ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Ed.
Presença, Portugal, 1974.
REDFIELD,
Robert The Folk Culture of Yucatán. University of ChicagoPress,
Chicago. 1941
SIMMEL,
George "A Metrópole e a Vida Mental". In: VELHO, Otávio
G. (org). O Fenômeno Urbano. Ed. Guanabara, Rio de Janeiro,
1987 .
WEBER,
Max "Conceito e categorias de cidade". In: VELHO, Otávio
G. (org.) - O Fenômeno Urbano. Ed. Guanabara, Rio de Janeiro,
1987
WIRTH,
Louis "O Urbanismo como Modo de Vida". In: VELHO, Otávio
G. (org.) O Fenômeno Urbano. Ed. Guanabara, Rio de Janeiro,
1987.
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