A
palavra do Senhor contra a cidade de Curitiba no dia
de sua visitação.
Suave
foi o jugo de Nabucodonosor, rei da Babilônia, diante
de Curitiba
escarmentada sob as patas dos anjos do Senhor
como laranja
azeda que não se quer comer de azeda que é.
Ai,
ai de Curitiba, o seu lugar será achado daqui a uma hora.
Gemerei
por Curitiba; sim, apregoarei por toda a Curitiba a
nuvem
que vem pelo céu, o grito dos infantes a
anuncia;
porque o Senhor
o disse.
A
chuva de ais inundará a terra sem subir ao céu; e
no céu
verão
as costas do Senhor; e no céu sem lua nem sol a tampa
descida do
céu.
No
dia de suas aflições os vivos serão levados pela mão
dos
mortos
para a morte horrível. Da cidade não ficará um garfo,
aqui
uma panela, ali uma xícara quebrada; ninguém informará
onde era o
túmulo de Maria Bueno.
O
dia virá no meio do maior silêncio com um guincho.
O
que fugir do fogo não escapará da água, o que
escapar da
peste
não fugirá da espada, mas o que escapar do fogo,
da
água,
da peste e da espada, esse não fugirá de si mesmo
e
terá
morte pior.
O
relógio na Praça Osório marca a hora parada do dia
de sua
visitação.
Ó
lambari vermelho do rio Ivo, passou o tempo assinalado.
Os abutres
afiam seus bicos recurvos por causa do dia que vem
perto. Escorrerá
devagar o tempo como azeite derramado, eis a
chaga da aproximação
do dia. Cada um exibe na testa o estigma
da besta; aqui
há sabedoria.
O
pânico virá num baile de travestis no Operário, no
meio do
riso;
o riso não será riso, diz o Senhor,
as bicharocas
desfilarão
diante do espelho e não darão sua imagem.
Diz
o Senhor: eis que Eu entrego esta cidade nas mãos de Baal
e dos filhos
com rabo de Baal, e tomá-la-ão.
Este
é o povo que morreu de espada: cento e noventa mil
e
sete
almas e mais uma; todas as almas perdidas numa hora e
sem um só
habitante.
A
estátua
do Marechal de Ferro madrugará com os olhos na nuca
para não
ver.
Os
ipês na Praça Tiradentes
sacolejarão os enforcados como
roupa secando
no arame.
De
assombro as damas alegres da Dinorá atearão
fogo ao
vestido gritando
nas janelas o fim dos tempos.
No
rio Belém serão tantos os afogados que a cabeça
de um
encostará
nos pés de outro, e onde a cachaça para mil e
um
velórios?
Os ratos de rabinho satisfeito hão de roer todo o
dinheiro do
Banco de Curitiba.
Para
embainhar minha espada, diz o Senhor, os vinte e três
necrófilos
da cidade casarão em comunhão de bens com
suas
noivas desenterradas
e vestidas de branco.
A
filha de meu povo será um pátio no Asilo Nossa Senhora
da
Luz com seus
urros e maldições. Muitos correrão para baixo da
cama e cada
um terá mais de uma morte:uma, a que escolher e a
outra pela
espada do Senhor, que já assobia no ar.
O
rio Barigui se tingirá de vermelho mais que o Eufrates.
Um sino
baterá no ouvido dos homens e eles se esborracharão
feito
caqui maduro. As filhas vaidosas de
sua cidade
suspirarão.
Chorarão pedras de sangue dizendo: Não existe dor
como a minha
dor. Depois hão de chorar os próprios olhos com
dois buracos
na cara.
Ai
de Curitiba, perece o teu povo e se quebranta meu coração,
porque
é o dia da visitação,
diz o Senhor. Dos teus
lambrequins
de ouro, das tuas cem figurinhas de
bala
Zequinha.
Do teu bebedouro de pangarés, a gente perguntará:
que fim levaram?
Dá uivos,
ó Rua 15, berra, ó Ponte Preta, uma espiga de milho
debulhada é
Curitiba: sabugo estéril.
O
terror arrombará as portas, os macaquinhos
do Passeio
Público
destelharãoas casas, a cidade federá como a jaula de
um chacal doente.
Onde
estarão todos os leões de pedra que guardam as casas
de
teus
ricos e os tatus de rabo amarelo que guardam os teus
medrosos leões?

Maldito
o dia em que o filho do homem te habitou; o dia em
que se disse
nasceu uma cidade não seja lembrado; por que não
foste
sempre um deserto, em vez de cercada de muros e outra
vez sem um
só habitante?
Ó
Curitiba Curitiba Curitiba, estendes os braços perfumados
de giesta pedindo
tempo, quando não há tempo.
Ó
Curitiba Curitiba Curitiba, escuta o grito do Senhor feito
um martelo
que enterra os pregos. Teu próprio nome será
um
provérbio,
uma maldição, uma vergonha eterna.
Curitiba, o
Senhor chamou o teu nome e como o de Faraó rei do
Egito é
apenas um som.
A
espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais.
Não
tremas, ó cidadão de São José dos Pinhais,
nem tu, pacato
munícipe
de Colombo, a besta baterá vôo no degrau de
tuas
portas. Até
aqui o juízo de Curitiba.
(LAMENTAÇÕES
DE CURITIBA, DALTON TREVISAN:
Nascido em Curitiba 1925)