REVISTA DIGITAL DE ANTROPOLOGIA URBANA :::::: ISSN: 1806-0528

 

Novas formas de viverClubbers e Ravers
 

 
 
 
 
 

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Levando em conta as transformações nos modos de sociabilidade nas cidades de hoje, cujo protótipo são as tribos, tanto Maffesoli (1987) quanto Featherstone (1997), acreditam que caminhamos em direção a uma nova ética: a ética da estética. Para esses dois sociólogos  a ética da estética é o modo contemporâneo de ordenar-se no mundo, ela própria constitui-se num fator de favorecimento ao aparecimento das tribos, estas "coletividades afetivastransitórias" (Featherstone, 1997). 
Na visão de Baudrillard (1985) vivemos um momento em que o fim do social deu lugar ao surgimento das massas e do espetáculo. Baudrillard afirma que a massa expressa um certo anonimato, sendo por definição, irrepresentável do ponto de vista político. Assim como Baudrillard, Maffesoli (1987) estabelece um paralelo entre a saturaçãoda forma política e a saturaçãodoindividualismo. Essa configuração pode ser vista 

no que diz respeito ao conformismo das gerações mais jovens, à paixão pela semelhança, nos grupos ou tribos, aos fenômenos da moda, à cultura padronizada, até e inclusive isto que se pode chamar de unissexualização da aparência, tudo nos leva a dizer que assistimos ao desgaste da idéia de indivíduo dentro  uma massa bem mais indistinta”(Maffesoli, 1987). 

Nessas condições, Maffesoli propõe a diferenciação entre o social e a sociabilidade. No social o indivíduo tem uma função na sociedade, e funciona no âmbito de um partido, de uma associação, de um grupo estável. Já na sociabilidade, a pessoa (persona) representa papéis, tanto dentro das atividades profissionais quanto no selo das diversas tribos de que participa. Mudando seu figurino, ela vai, de acordo com seus gostos (sexuais, culturais, religiosos, amicais) assumir o seu lugar, a cada dia, nos diversas peças de tetrum mundi. 

Featherstone (1997) explica como a troca do figurino esta implicada na "estetização da vida cotidiana" que é alimentada pelo consumo e pela mídia, onde o culto à imagem e à beleza imperam. Esta nova paisagem urbana repercute sobre o próprio senso de identidade do indivíduo, originando "identificações temporárias de afeto" (Maffesoli, 1988 apud. Featherstone, 1997). A sustentação destas identificações é referida à posse ou não de determinados objetos que se articulam na composição da imagem de si . A imagem de si é cultivada e cultuada tal como os artistas criam um objeto de arte, para uma apreciação estética. Desta forma, como expõe Castro (1998), os sentimentos de identidade e de perecimento social se apoiam cada vez mais na materialidade dos objetos externos, e o subjetivo fica cada vez mais remetido ao objetivo. Castro observa também que nesta "cultura da materialidade", que intensifica as "sensibilidades estéticas"; o sentimento de posse de uma interioridade se torna cada vez mais frágil, dando lugar, pelo contrário, a uma tendência a colar a identidade na imagem que se constrói para si objetivamente.  Portanto, vemos que há uma articulação clara entre o consumo, a valorização da imagem de si como marca identitária privilegiada e a formação das tribos. 
Assim,  os critérios de pertencimento a uma determinada tribo,  como os da própria constituição de cada tribo, são tão frágeis e descartáveis quanto os objetos de consumo. Tal como os objetos produzidos pela indústria do consumo, os quais são rapidamente substituídos por outros no mercado, as tribos produzem "identidades nômades" (Castro, 1998). 
Com a  troca do paradigma social para o de sociabilidade, pode-se dizer que “a autenticidade dramática do social” será substituídapela “superficialidade da sociedade”. A aparência, dessa forma, torna-se o vetor de agregação. Nesse sentido, a estética é um meio de experimentar, de sentir em comum e é, também, um meio de reconhecer-se. A teatralidade instaura e reafirma a comunidade. O culto aos corpo, os jogos de aparência, só valem porque se inscrevem numa cena ampla, onde cada um é, ao mesmo tempo ator e espectador, ou seja, trata-se de uma cena que é comum a todos. 
Nesse contexto, Maffesoli propõe a substituição da lógica de identidade pela lógica da identificação, a qual implica necessariamente uma relação, e não em uma noção de um indivíduo estável e contínuo. No seu argumento, a identificação diz respeito às "pessoas" (personas), às máscaras variáveis, e, em última instância, à imagem de si sempre em relação ao Outro. Com efeito, enquanto a lógica individualista se apoia numa identidade separada e fechada sobre si mesma, a pessoa (persona) só existe na relação com o outro. A multiplicidade, dessa forma, favorece  a emergência de um forte sentimento coletivo. 
Com base em M. Mauss, Maffessoli,  dentro de sua perspectiva, distingue pessoa e indivíduo. O indivíduo é livre, ele contrata e se inscreve em relações igualitárias. Isso servirá de base à atitude política. Em contrapartida, a pessoa é tributária dos outros, aceita um dado social e se inscreve num conjunto orgânico. Em suma, podemos dizer que o indivíduo tem uma função, e a pessoa, um papel.
A idéia de persona, da máscara que pode ser mutável e que se integra sobretudo numa variedade de cenas, de situações que só valem porque representadas em conjunto, nos propõem a multiplicidade de eu e ambivalência comunitária. Maffesoli chama essa nova constituição subjetiva de “paradigma estético” no sentido de vivenciar ou sentir em comum. Ele afirma também que as massa, ou o povo, diferentemente de proletariado ou outras classes, não se apóia numa lógica de identidade. Sem um fim preciso, elas não são os sujeitos de uma história em marcha. 
A metáfora da tribo, por sua vez, permite dar conta de um processo de desindividualização da saturação da função que lhe é inerente, e da valorização do papel que cada pessoa (persona) é chamada a representar dentro dela. Claro está que, como as massas em permanente agitação, as tribos, que nelas se cristalizam, tampouco são estáveis. As pessoas que compõem essas tribos podem evoluir de uma para outra como num incessante “travelling” (ir e vir de um grupo ao outro).
 As tribos são a expressão mais simples da saturação do política e de seu suporte que é o individualismo..Elas não se projetam à distância, ou no futuro, mas vivem no concreto mais extremo que é o presente. Esses agrupamentos afinitários retomam a antiga estrutura antropológica que é a “família ampliada”. Estrutura essa onde a negociação da paixão e do conflito se faz bem de perto.
Fica entendido, então, que, a “identidade” diz respeito tanto ao indivíduo quanto ao grupamento no qual este se situa: é na medida em que existe uma identidade individual, que vamos encontrar uma identidade nacional. De fato, a identidade em suas diversas modulações consiste, antes
de tudo, na aceitação de ser alguma coisa determinada.
(Maffesoli,1987) . Das palavras de Maffesoli conclui-se sobre o processo de massificação vivido na pós- modernidade. 
A massa se basta de si mesma. Ela não se projeta, não se completa, não se “politiza”. Ela vive o turbilhão dos afetos e de suas múltiplas experiências. Isso porque ela é causa e conseqüência da perda do sujeito.  Cria-se, então, uma “alma coletiva” na qual as atitudes, as identidades e as individualidades se apagam. Nesse modelo, cada um participa do “nós” global. Ao contrário do político que, paradoxalmente, repousa sobre o “eu” e o distante, a massa é feita de “nós” e de proximidade.” 


Conclusão
 

Como foi visto, a pós-modernidade pode ser definida como  a combinação de modernidade e pré-modernidade, ou seja, a união do passado e do futuro, num tempo circular e não mais linear como na modernidade. Na Cultura da Música Eletrônica encontramos esse aspecto na estrutura da própria música, que se apresenta sem o padrão musical de início- refrão-meio- refrão-fim- refrão, ou seja, sem uma linearidade. Ela se compõe como um rizoma, não começa e nem termina, é circular. Une-se duas ou mais músicas, que podem ser dos diversos estilos musicais como clássica, jazz, new age, hip hop, celta etc. como também pode-se remixar músicas que já passaram por esse processo,  sempre acrescentando novos componentes computadorizados, para formar uma “nova” música, como se fosse um processo de reciclagem. O dj (disk jockey) é quem realiza esse processo em uma festa, seja em um club ou em uma rave. Ele torna-se um xamã, como nas “cerimônias primitivas totêmicas” em que se veneravam animais. Nessas festas venera-se a música, a experiência coletiva compartilhada, por meio da dança tribal,  do estado alterado da consciência provocado pelas batidas repetitivas e/ou uso de drogas. A estética da música repetitiva lembra os rituais dos povos indígenas  e os mantras onde a repetição leva à transcendência, à “liberação do ego”. Portanto, quando Duarte explica que assim como o mantra destrói o individualismo, a música eletrônica destrói o pop estar (líderes musicais), observa-se o protótipo de uma sociedade sem líderes,  governos. 

A pós-modernidade remete-nos a desterritorialização, onde a nacionalidade, como a individualidade, não diferenciam mais os grupos. Nesse contexto, as  tribos surgem como resposta contrária ao fenômeno da globalização, ao caracter homogêneo que essa produz, pois elas particularizam grupos socioculturais produzindo diferenças. Mas a heterogeneidade criada pelas tribos urbanas acaba por contribuir para a globalização, já que essas tribos não são características de determinados país ou cultura, mas sim da sociedade global. A partir, dessa lógica pode-se entender o porquê da denominação clubber e raver derivarem de espaços. Como as sociedades não mais se identificam por sua nacionalidade, cultura local, criam-se grupos que tenham na sua fundamentação o lugar  que freqüentam. É como se os clubbers e ravers dissessem “eu pertenço ao club/rave, portanto minha nacionalidade é clubber/raver”.

Com a diversidade de culturas em um mesmo local, os “iguais” se agrupam formando as tribos. No caso dos clubbers e ravers, o ponto de conexão entre os integrantes é a música eletrônica. A partir dela, busca-se uma experiência compartilhada de sensações em comum, o que é definido por Maffesoli como “paradigma estético”. Aliás, a busca por sensações, pelo prazer é muito presente na Cultura da Música Eletrônica,.caracterizada pelo hedonismo da  busca pelo prazer através da diversão, da dança, das festas, do uso de drogas como ácidos e ecstasy. Esse caracter pode ser observado quando a adolescente Janaína comenta: “Venho as raves por pura diversão, não venho encontrar namorado, mas para curtir o som e encontrar a galera.” 

Pode-se pensar que as festas que envolvem a música eletrônica, principalmente as raves, não são simples eventos, ou um mero encontro entre as pessoas. Elas são uma verdadeira viagem subjetiva. Elas visam congregar, fazer com que as pessoas possam viver uma experiência boa de interação dos participantes. O próprio “U” (unity – unidade) do dogma PLUR nos remete essa característica. Cita-se  depoimentos : 

“...posso dizer que quando entrei na minha primeira festa de música eletrônica senti uma coisa diferente, uma energia muito boa, uma união entre todos” (retirado da lista de discussão e-music)

...As tribos deveriam se unir em uma só, como nas raves. Aqui todo mundo tá junto mas cada um na sua. Todos se respeitam e isso é legal.” (Janaína, 16 anos)

Deve-se comentar ainda sobre o consumismo tão presente em nossa sociedade. Os clubbers e ravers, assim como outras tribos urbanas, através do objeto de consumo se diferenciam de outros grupos. Esses objetos acabam por possuir um valor simbólico de pertencimento a determinada tribo, ou seja, o subjetivo está subordinado ao objetivo. Exemplifica-se:

“...Eu, por exemplo, não sou clubber. Não gosto de laranja-cheguei, não uso bolsas em forma de vinil nem camisetas das PowerPuff..."

...Clubbers são simplesmente pessoas que gostam de roupas coloridas, pulseiras (muitas), acessórios diferentes, maquiagem incomum e música eletrônica. “ (retirado do texto Porque eu gosto de e-music ?? )

 Portanto, as “identidades” estão submetidas aos objetos de consumo, e é a partir desse fato que podemos entender a lógica da troca de papeis no mundo pós-moderno. É como se em um local se fosse um  e, ao trocar de vestes, outro..Aqui estão algumas das questões que se construíram ao longo do trabalho. Penso que a Psicologia Social tem muito a explorar sobre essa cultura que tem tanto a nos dizer sobre as formas de ser e de habitar na pós-modernidade .



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Listas de discussão:
E-music ( www.grupos.com.br)