Novas formas de viver
– Clubers
e Ravers
Levando em conta
as transformações nos modos de sociabilidade nas cidades
de hoje, cujo protótipo são as tribos, tanto Maffesoli
(1987) quanto Featherstone (1997), acreditam
que caminhamos em direção a uma nova ética:
a ética da estética.
Para esses dois sociólogos a ética da estética
é o modo contemporâneo de ordenar-se no mundo, ela própria
constitui-se num fator de favorecimento ao aparecimento das tribos, estas
"coletividades afetivastransitórias"
(Featherstone, 1997).
Na visão
de Baudrillard (1985) vivemos um momento em que o fim do social deu lugar
ao surgimento das massas e do espetáculo. Baudrillard
afirma que a massa expressa um certo anonimato, sendo por definição,
irrepresentável do ponto de vista político. Assim como Baudrillard,
Maffesoli
(1987) estabelece um paralelo entre a saturaçãoda
forma política e a saturaçãodoindividualismo.
Essa configuração pode ser vista
“no
que diz respeito ao conformismo das gerações mais jovens,
à paixão pela semelhança, nos grupos ou tribos, aos
fenômenos da moda, à cultura padronizada, até e inclusive
isto que se pode chamar de unissexualização da aparência,
tudo nos leva a dizer que assistimos ao desgaste da idéia de indivíduo
dentro uma massa bem mais indistinta”(Maffesoli,
1987).
Nessas condições,
Maffesoli propõe a diferenciação entre o social
e a sociabilidade. No social o indivíduo tem uma função
na sociedade, e funciona no âmbito de um partido, de uma associação,
de um grupo estável. Já na sociabilidade, a pessoa (persona)
representa papéis, tanto dentro das atividades profissionais quanto
no selo das diversas tribos de que participa. Mudando seu figurino, ela
vai, de acordo com seus gostos (sexuais, culturais, religiosos, amicais)
assumir o seu lugar, a cada dia, nos diversas peças de tetrum mundi.
Featherstone
(1997) explica como a troca do figurino esta implicada na "estetização
da vida cotidiana" que é alimentada pelo consumo e pela mídia,
onde o culto à imagem e à beleza imperam. Esta nova paisagem
urbana repercute sobre o próprio senso de identidade do indivíduo,
originando "identificações temporárias de afeto" (Maffesoli,
1988 apud. Featherstone, 1997).
A sustentação destas identificações é
referida à posse ou não de determinados objetos que se articulam
na composição da imagem de si . A imagem de si é cultivada
e cultuada tal como os artistas criam um objeto de arte, para uma apreciação
estética. Desta forma, como expõe Castro
(1998), os sentimentos de identidade e de perecimento social se apoiam
cada vez mais na materialidade dos objetos externos, e o subjetivo fica
cada vez mais remetido ao objetivo. Castro observa também que nesta
"cultura da materialidade", que intensifica as "sensibilidades estéticas";
o sentimento de posse de uma interioridade se torna cada vez mais frágil,
dando lugar, pelo contrário, a uma tendência a colar a identidade
na imagem que se constrói para si objetivamente. Portanto,
vemos que há uma articulação clara entre o consumo,
a valorização da imagem de si como marca identitária
privilegiada e a formação das tribos.
Assim, os
critérios de pertencimento a uma determinada tribo, como os
da própria constituição de cada tribo, são
tão frágeis e descartáveis quanto os objetos de consumo.
Tal como os objetos produzidos pela indústria do consumo, os quais
são rapidamente substituídos por outros no mercado, as tribos
produzem "identidades nômades" (Castro, 1998).
Com a troca
do paradigma social para o de sociabilidade, pode-se dizer que “a autenticidade
dramática do social” será substituídapela
“superficialidade da sociedade”. A aparência, dessa forma, torna-se
o vetor de agregação. Nesse sentido, a estética é
um meio de experimentar, de sentir em comum e é, também,
um meio de reconhecer-se. A teatralidade instaura e reafirma a comunidade.
O culto aos corpo, os jogos de aparência, só valem porque
se inscrevem numa cena ampla, onde cada um é, ao mesmo tempo ator
e espectador, ou seja, trata-se de uma cena que é comum a
todos.
Nesse contexto,
Maffesoli
propõe a substituição da lógica de identidade
pela lógica da identificação, a qual implica
necessariamente uma relação, e não em uma noção
de um indivíduo estável e contínuo. No seu argumento,
a identificação diz respeito às "pessoas" (personas),
às máscaras variáveis, e, em última instância,
à imagem de si sempre em relação ao Outro. Com efeito,
enquanto
a lógica individualista se apoia numa identidade separada e fechada
sobre si mesma, a pessoa (persona) só existe na relação
com o outro. A multiplicidade, dessa forma, favorece a emergência
de um forte sentimento coletivo.
Com base em M. Mauss,
Maffessoli,
dentro de sua perspectiva, distingue pessoa e indivíduo. O indivíduo
é livre, ele contrata e se inscreve em relações igualitárias.
Isso servirá de base à atitude política. Em contrapartida,
a pessoa é tributária dos outros, aceita um dado social e
se inscreve num conjunto orgânico. Em suma, podemos dizer que
o indivíduo tem uma função, e a pessoa, um papel.
A idéia de
persona,
da máscara que pode ser mutável e que se integra sobretudo
numa variedade de cenas, de situações que só
valem porque representadas em conjunto, nos propõem
a multiplicidade de eu e ambivalência comunitária.
Maffesoli
chama essa nova constituição subjetiva de “paradigma
estético” no sentido de vivenciar ou sentir em comum. Ele
afirma também que as massa, ou o povo, diferentemente de proletariado
ou outras classes, não se apóia numa lógica de identidade.
Sem um fim preciso, elas não são os sujeitos de uma história
em marcha.
A
metáfora da tribo, por sua vez, permite dar conta de um processo
de desindividualização da saturação da função
que lhe é inerente, e da valorização do papel que
cada pessoa (persona) é chamada a representar dentro dela. Claro
está que, como as massas em permanente agitação, as
tribos, que nelas se cristalizam, tampouco são estáveis.
As pessoas que compõem essas tribos podem evoluir de uma para outra
como num incessante “travelling” (ir e vir de um grupo ao outro).
As tribos
são a expressão mais simples da saturação do
política e de seu suporte que é o individualismo..Elas não
se projetam à distância, ou no futuro, mas vivem no concreto
mais extremo que é o presente. Esses agrupamentos afinitários
retomam a antiga estrutura antropológica que é a “família
ampliada”. Estrutura essa onde a negociação da paixão
e do conflito se faz bem de perto.
Fica entendido,
então, que, a “identidade” diz respeito tanto ao indivíduo
quanto ao grupamento no qual este se situa: é na medida em que existe
uma identidade individual, que vamos encontrar uma identidade nacional.
De fato, a identidade em suas diversas modulações consiste,
antes
de tudo, na aceitação
de ser alguma coisa determinada.
(Maffesoli,1987)
. Das palavras de Maffesoli conclui-se sobre o processo de massificação
vivido na pós- modernidade.
“A
massa se basta de si mesma. Ela não se projeta, não se completa,
não se “politiza”. Ela vive o turbilhão dos afetos e de suas
múltiplas experiências. Isso porque ela é causa e conseqüência
da perda do sujeito. Cria-se, então, uma “alma coletiva” na
qual as atitudes, as identidades e as individualidades se apagam. Nesse
modelo, cada um participa do “nós” global. Ao contrário do
político que, paradoxalmente, repousa sobre o “eu” e o distante,
a massa é feita de “nós” e de proximidade.”
Conclusão
Como foi visto,
a pós-modernidade pode ser definida como a combinação
de modernidade e pré-modernidade, ou seja, a união do passado
e do futuro, num tempo circular e não mais linear como na modernidade.
Na Cultura da Música Eletrônica encontramos
esse aspecto na estrutura da própria música, que se apresenta
sem o padrão musical de início- refrão-meio- refrão-fim-
refrão, ou seja, sem uma linearidade. Ela se compõe como
um rizoma, não começa e nem termina, é circular.
Une-se duas ou mais músicas, que podem ser dos diversos estilos
musicais como clássica, jazz, new age, hip hop, celta etc. como
também pode-se remixar músicas que já passaram por
esse processo, sempre acrescentando novos componentes computadorizados,
para formar uma “nova” música, como se fosse um processo de reciclagem.
O dj (disk jockey) é quem realiza
esse processo em uma festa, seja em um club ou em uma rave.
Ele torna-se um xamã, como nas
“cerimônias primitivas totêmicas” em que se veneravam animais.
Nessas festas venera-se a música,
a
experiência coletiva compartilhada, por meio da dança
tribal, do estado alterado da consciência provocado pelas batidas
repetitivas e/ou uso de drogas. A estética da música repetitiva
lembra os rituais dos povos indígenas e os mantras onde a
repetição leva à transcendência, à “liberação
do ego”. Portanto, quando Duarte explica que assim como o mantra destrói
o individualismo, a música eletrônica destrói o pop
estar (líderes musicais), observa-se o protótipo de uma sociedade
sem líderes, governos.
A pós-modernidade
remete-nos a desterritorialização, onde a nacionalidade,
como a individualidade, não diferenciam mais os grupos. Nesse contexto,
as tribos surgem como resposta contrária ao fenômeno
da globalização, ao caracter homogêneo que essa produz,
pois elas particularizam grupos socioculturais produzindo diferenças.
Mas a heterogeneidade criada pelas tribos urbanas acaba por contribuir
para a globalização, já que essas tribos não
são características de determinados país ou cultura,
mas sim da sociedade global. A partir, dessa lógica pode-se entender
o porquê da denominação clubber e raver
derivarem de espaços. Como as sociedades não mais se identificam
por sua nacionalidade, cultura local, criam-se grupos que tenham na sua
fundamentação o lugar que freqüentam. É
como se os clubbers e ravers dissessem “eu pertenço
ao club/rave, portanto minha nacionalidade é clubber/raver”.
Com a diversidade de culturas
em um mesmo local, os “iguais” se agrupam formando as tribos. No caso dos
clubbers e ravers, o ponto de conexão entre os integrantes é
a música eletrônica. A partir dela, busca-se uma experiência
compartilhada de sensações em comum, o que é definido
por Maffesoli como “paradigma estético”. Aliás, a busca por
sensações, pelo prazer é muito presente na Cultura
da Música Eletrônica,.caracterizada pelo hedonismo da
busca pelo prazer através da diversão, da dança, das
festas, do uso de drogas como ácidos e ecstasy. Esse caracter pode
ser observado quando a adolescente Janaína comenta: “Venho
as raves por pura diversão, não venho encontrar namorado,
mas para curtir o som e encontrar a galera.”
Pode-se pensar que as festas
que envolvem a música eletrônica, principalmente as raves,
não são simples eventos, ou um mero encontro entre as pessoas.
Elas são uma verdadeira viagem subjetiva. Elas visam congregar,
fazer com que as pessoas possam viver uma experiência boa de interação
dos participantes. O próprio “U” (unity – unidade) do dogma PLUR
nos remete essa característica. Cita-se depoimentos :
“...posso
dizer que quando entrei na minha primeira festa de música eletrônica
senti uma coisa diferente, uma energia muito boa, uma união entre
todos” (retirado da lista de discussão e-music)
“...As
tribos deveriam se unir em uma só, como nas raves. Aqui todo
mundo tá junto mas cada um na sua. Todos se respeitam e isso é
legal.” (Janaína, 16 anos)
Deve-se comentar ainda sobre
o consumismo tão presente em nossa sociedade. Os clubbers
e ravers, assim como outras tribos urbanas, através
do objeto de consumo se diferenciam de outros grupos. Esses objetos acabam
por possuir um valor simbólico de pertencimento a determinada tribo,
ou seja, o subjetivo está subordinado ao objetivo.
Exemplifica-se:
“...Eu,
por exemplo, não sou clubber. Não gosto de laranja-cheguei,
não uso bolsas em forma de vinil nem camisetas das PowerPuff..."
...Clubbers
são simplesmente pessoas que gostam de roupas coloridas, pulseiras
(muitas), acessórios diferentes, maquiagem incomum e música
eletrônica. “ (retirado
do texto Porque eu gosto de e-music ?? )
Portanto, as “identidades”
estão submetidas aos objetos de consumo, e é a partir desse
fato que podemos entender a lógica da troca de papeis no mundo pós-moderno.
É como se em um local se fosse um e, ao trocar de vestes,
outro..Aqui estão algumas das questões que se construíram
ao longo do trabalho. Penso que a Psicologia Social tem muito a explorar
sobre essa cultura que tem tanto a nos dizer sobre as formas de ser e de
habitar na pós-modernidade .
Referências Bibliográficas
AMARAL,
Rita “O Homem Urbano”. [on line] Disponível na Internet via
WWW. URL:
http://www.aguaforte.com/antropologia/
__________. “Os Grupos Urbanos”.
[on line] Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.aguaforte.com/antropologia/
BAUDRILLARD,
J.(1970). A Sociedade de Consumo. Rio de Janeiro, Editora Elfos, 1995.
________________.(1978).
A Sombra da Maioria Silenciosa - O Fim do Social e o Surgimento das Massas.
São Paulo, Brasiliense, 1985.
CANCLINI,
N.(1995). Consumidores e Cidadãos.Rio de janeiro, editora UFRJ,
1997.
CAMPELLO,
Rachel. “A Tribo da Noite”. Revista Veja , 31 de março de 1999.
CASTRO,
L. R. & al (1998). "Estetização do corpo: identificação
e pertencimento na contemporaneidade". In: CASTRO, L. R. (Org.). Infância
e Adolescência na Cultura do Consumo. Rio de Janeiro, Nau, 1998.
COUTINHO,
Luciana Gageiro. Da metáfora paterna à metonímia das
tribos: um estudo psicanalítico sobre as tribos urbanas e as novas
configurações do individualismo.[on line]. Tese de Doutorado,
PUC-RJ. Disponível na Internet via WWW. URL: http://
www.rubedo.psc.br.
CRESPO,
N. S.(1998). Modernidade e Declínio do Pai : A Resposta Psicanalítica.
Tese de Doutorado, PUC/RJ, Departamento de Psicologia, 1998. Orientador:
Octavio Souza.
DUARTE,
Cláudio Manuel. “A estética da repetição na
música techno”. [on line]. Disponível na Internet via WWW.
URL: http://www.pragatecno.hpg.com.br/frame.htm
_________________. “BALEARIC,
PLUR E RAVE.” [on line]. Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.pragatecno.hpg.com.br/frame.htm
_____________________. “Em
que sentido podemos cruzar a música eletrônica com a cibercultura?”
[on line]. Disponível na Internet via WWW. URL:
http://www.pragatecno.hpg.com.br/frame.htm
FEATHERSTONE,
M. (1995). O Desmanche da Cultura - Globalização, Pós-Modernismo
e Identidade. Studio Nobel, 1997.
LÉVY,
Pierre. Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999.
FRANÇA,
Valéria e SOUZA, OKKy de. “Tum, tum ,tum...”. Revista Veja. 25 de
março de 1998.
LOPES,
Cláudio Fragata. RATIER, Rodrigo. O Mundo Rave. Revista
Galileu, em dezembro de 1999, pag. 44
MAFFESOLI,
M..(s/d). O Tempo das Tribos - O Declínio do Individualismo nas
Sociedades de Massa. Rio de janeiro, Forense, 1987.
MAGNANI,
José Guilherme Cantor. “TRIBOS URBANAS: metáfora ou categoria?”
Disponível na Internet via WWW. URL:http://www.aguaforte.com/antropologia/
MIZRACH,
Steve (tradução Rita Amaral) “Primitivos Modernos: A Acelerada
Colisão entre o Passado e o Futuro na Era Pós-Moderna"[on
line] Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.aguaforte.com/antropologia/
RODRIGUES, C. Os
Donos das Pistas, Revista "Época", em outubro de 1998.
SARLO,
B.(1994). Cenas da Vida Pós-Moderna. Rio de Janeiro, Editora UFRJ,
1997.
SOUZA,
Cláudio Manoel Duarte de . A cibermúsica, djing, tribos e
cibercultura.[on line]. Mestrado em Comunicação e Cultura
Contemporânea , UFBA (Facom). Disponível na Internet via WWW.
URL: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/txt_cla.htm
Webgrafia:
http://sphere.rdc.puc-rio.br/jornaldapuc/junho99/cultura/renato.html
http://gowheresp.terra.com.br/21/entrevista/erika_brasil.htm
http://www.undergroove.com.br/mat_manifesto.html
http://www.pragatecno.hpg.com.br/frame.html
http://www.savetherave.org
http://www.cenaeletronica.com.br
http://www.aguaforte.com/antropologia/
http://www.mundodosclubbers.hpg.ig.com.br/Geral/11/interna_hpg2.html
http://www.dandaclubber.hpg.ig.com.br/entretenimento/16/index_pri_1.html
http://www.afimdetudo.hpg.ig.com.br/entretenimento/18/index_int_3.html
http://www.undergroove.com.br/mat_manifesto.html
http://www.rraurl.com/html/cena/textos/historia.html
http://hyperreal.org/raves/altraveFAQ.html
E-zine:
http://www.e-ar.com.br
Listas de discussão:
E-music
( www.grupos.com.br)
|
|