REVISTA DIGITAL DE ANTROPOLOGIA URBANA :::::: ISSN: 1806-0528

 
 

 

Novas formas de viverClubbers e Ravers
 

 
 
 
 
 

<< continuação
 
 

Alguns aspectos Teóricos
 
Após fazer uma explanação de alguns aspectos da Cultura da Música Eletrônica, é preciso, neste momento, explicar  aspectos da pós-modernidade, da vida urbana nesse contexto histórico, o conceito de tribo, o movimento dos Primitivos Modernos (ModPrims) a fim de um melhor entendimento sobre características da subjetividade contemporânea que estão implicadas na estrutura do agrupamento clubber/rave.

 

Tribos
 

 Ao utilizar o termo “tribos urbanas “, antes de mais nada, deve-se ter presente o sistema de significações de onde foi retirado esse termo. O termo “tribo” tem seu domínio original da etnologia e nela, uma forma de organização da sociedade.
 Para avaliar até que ponto esse termo ajuda a entender os fenômenos que ocorrem nas sociedades contemporâneas é importante definir os significados que ele tem no campo em que é manejado como termo técnico, nas sociedades indígenas. Tribo constitui mais que uma divisão em clã, linhagem, aldeia. Trata-se de um pacto que aciona lealdades para além dos particularismos de grupos domésticos e locais. (Magnani, 2002

É paradoxal o uso do termo “tribo” para denominar tipos de agrupamentos nas sociedades urbano-industriais já que esses grupos evocam particularismos, simbologias, regras, costumes, marcas de uso e significados restritos. E, no contexto das sociedades indígenas “tribo” aponta para alianças amplas. 

Quando “tribo” é empregado como uma metáfora pode-se dizer que evoca – primitivo, selvagem, natural, comunitário – características que se supõe estarem associadas, acertadamente ou não, ao modo de vida de povos que apresentam, num certo nível, a organização tribal. (Magnani, 2002)

Em  um primeiro significado, mais geral,  tribo urbana tem como referente determinada escala que serve para designar uma tendência oposta ao gigantismo das instituições e do Estado nas sociedades modernas: diante da impessoalidade e anonimato destas últimas, tribo permitiria agrupar os iguais, possibilitando-lhes intensas vivências comuns, o estabelecimento de laços pessoais e lealdade, a criação de códigos de comunicação e comportamento particulares. Em outros contexto, quando tribo evoca o “primitivo”, designa pequenos grupos concretos com ênfase nos elementos que seus integrantes usam para estabelecer diferenças, por exemplo, vestimentas, cortes de cabelo e tatuagens, piercings, a cor da roupa. Quando evoca o “selvagem”, o termo designa principalmente o comportamento agressivo, “anti-social” e contestatório. Esse último pode ser claramente identificado no discurso clubber, no dogma PLUR, etc. Ainda, quando são referidas grandes concentrações – festas raves, shows (envolvendo ou não consumo de drogas ou comportamentos coletivos tidos como irracionais), evoca-se algo confusamente imaginado como “cerimônias primitivas totêmicas”. (Magnani, 2002)

Por fim,  nas tribos urbanas, o que não se aplica às indígenas, vê-se grupos cujos integrantes vivem simultânea ou alternadamente muitas realidades e papéis, assumindo sua tribo apenas em determinados períodos ou lugares,por exemplo o bancário que só depois do expediente é clubber, o universitário que só à noite é dark, rapper que oito horas por dia é office-boy  etc (Magnani, 2002). 

 

Primitivos Modernos 
 

 Pode-se definir Pós-Modernidade como sendo a combinação de modernidade e pré-modernidade. Em um mundo onde o velho (tradição, crenças populares, Tc) é mais e mais abandonado nada pode ser mais novo que rentroduzi-lo. É nesse contexto que o movimento dos “primitivos modernos” se constituem, determinados a “seguir  simultaneamente as trilhas do passado e do futuro rumo a sua inevitável colisão”(Mizarch, 2002). Maffesoli (1987), questiona-se se “o ato de recorrer à história passada (folclore, recuperação das festas populares, recredenciamento da sociabilidade, fascinação pelas histórias locais), não é uma maneira de escapar à ditadura da “história acabada”, progressiva, e dessa maneira de viver no presente”. 
 O que torna o movimento, dos Primitivos Modernos incomum é a busca pela sensação. Essa característica pode ser explicada como resposta à industrialização e da modernização, que produziram um “entorpecimento psíquico”. Os ModPrims (Primitivos Modernos) utilizam-se da dor, perfurando-se (piercing) para atingir um estado de transe, como se através da negação da dor demostrassem a “possessão” pelo divino. Retorna a idéia do conhecimento através da dor que a modernidade esqueceu (Mizarch, 2002).
 As experiências multisensoriais são vividas nas festas raves,  como um sinal de unidade entre o passado e o futuro. A “rave” é ao mesmo tempo “primitiva”, com sua reunião de “tribos” de gente jovem para experimentar a “participação mística” através de cinéticos e MDMA (Ecstasy), da dança e música tribal, e “futurística” (ou moderna) com seu uso de música sampleada e remixada digitalmente, efeitos de luz e laser e exposições de multimídia. Os “ravers” vestem-se ao mesmo tempo de modo que signifique passado e futuro: perfurando suas peles e narinas, usando calças dos anos 70 com bijuterias e hologramas futurísticos, combinando as modas do folk e do punk.
Os ModPrims clamam que suas performances são uma busca de transcendência, provando a capacidade da mente de ir além do estabelecido e das limitações do corpo. Nas batidas repetitivas da música eletrônica, muitas vezes lembrando mantras, os clubbers e ravers buscam um estado alterado da consciência, estado de transe, de transcendência. 

 Muitos ModPrims pensam que saímos da linha passado-futuro, tempo histórico, e entramos em algum outro tipo de tempo cíclico, ou talvez mesmo o “fim da história”. Estudos indagam se este florescimento do primitivismo moderno, com sua explícita rejeição de antigas noções de progresso linear e evolução tem algo a ver com a mudança da base material da cultura. Existe o fato de que  entramos numa economia pós-industrial de informação e serviço “desconectada” da produção material. Quebra-se com o ponto de vista  “industrial”, onde o tempo é a fonte da progressiva criação de riqueza, e se reconhece o ponto de vista “pós-industrial”, onde o tempo pode ser fonte da vida humana e experiência. Portanto, passa-se do tempo linear para o circular que passado e futuro estão conectados (Mizarch, 2002).


 
 

VidaUrbana
 

Devido ao crescimento das cidades, a vasta aglomeração, extensas e complexas organizações nas quais a função oculta a pessoa, podem contribuir para o sentimento de uniformização aparente dos indivíduos. Criam-se, então, tentativas de respostas ao sentimento de massificação como: a procura de novas formas de subjetivação, a difusão de estilos de vida diferenciados, a experimentação que tentar criar novas unidades sociais mais “afetivas”, a multiplicação de possibilidades de engajamento, entre outras (Amaral, 1992, 2002). 
 O encontro do “outro” organizado em grupos que visam a esse fim (clubs, raves, chats, listas de discussão) representa a tentativa de resposta e remédio para o sentimento de solidão urbana e permite o uso da criatividade na elaboração de códigos e regras .(Amaral, 1992, 2002)
 Uma vez que a cidade só existe enquanto relação entre os diferentes grupos que interagem em um dado sistema produtivo, construindo sistemas simbólicos. A noção de grupos é essencial ao entendimento da dinâmica cultural urbana“.(Amaral, 1992, 2002)
 Segundo Pierre Bourdieu, “às diferentes posições que os grupos ocupam no espaço social correspondem estilos de vida, sistemas de diferenciação que são a retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência” (Bourdieu, 1983: 82).
 Grupos urbanos, Pós-modernos, como os clubbers constróem um estilo de vida com valores, gostos, formas de subjetivação, sensibilidades que definem um estilo de vida próprio, que se encontra na lógica massas-tribos. Além disso, essa tribo urbana se subjetiva em um período “cujo cimento principal seriam as emoções e ou sensibilidades vividas em comum” (Maffesoli), no tempo presente.
Conteúdos 
 
 Agora, com um melhor entendimento da composição grupal, do período histórico e do local onde os clubbers e ravers vivem, aprofundar-se-a  como essas e outras tribos urbanas estão se subjetivando através do campo da ciências sociais e  da psicologia social.
 No universo urbano assitimos a disseminação incessante de tribos (punks, yuppies, skatistas, clubbers, ravers, etc.) que se distinguem umas das outras principalmente por distintivos  visuais dos seus membros. 
No campo das ciências sociais, o fenômeno das tribos tem sido mencionado por vários autores (Caiafa,1985; Calligaris, 1996; Canclini, 1997; Castro, 1998; Featherstone, 1997; Maffesoli, 1987; Sarlo, 1997 ).
Maffesoli é quem mais se destaca pela importância dada em sua análise da sociedade contemporânea ao estudo das tribos urbanas. Propõe que o "tribalismo" ou o "neotribalismo" (Maffesoli, 1987) seja tomado como um novo paradigma, que vem substituir o paradigma do individualismo na compreensão da sociedade contemporânea.
Maffesoli afirma que a humanidade vive um "período empático", em que predomina a indiferenciação e o perder-se em um "sujeito coletivo", chamado por ele de "neotribalismo" (Maffesoli, 1987). O neotribalismo é presidido pelas noções de comunidade emocional, de potência e de socialidade. E é seguida pelas noções de policulturismo e proxemia que são suas conseqüências. 
Maffesoli (1987) define o “tribalismo” ou “neotribalismo” como uma "comunidade emocional"  ou "nebulosa afetiva" em oposição ao modelo de organização racional típico da sociedade moderna. Nas tribos, o ethos comunitário é designado pelo conjunto de expressões que remete a uma subjetividade comum, a uma paixão partilhada. A adesão a esses grupamentos é sempre fugaz, não há um objetivo concreto para estes encontros que possa assegurar a sua continuidade. Trata-se apenas de redes de amizade pontuais, que se reúnem ritualisticamente com a função exclusiva de reafirmar o sentimento que um dado grupo tem de si mesmo. 

Já para Canclini (1997), as tribos  compensam a atomização e a desagregação das grandes cidades, negligenciadas pelas macropolíticas, oferecendo a participação em grupos. Ainda em sua perspectiva, as tribos funcionam como referências simbólicas, suplências aos aparatos políticos e culturais que se tornaram obsoletos. Já Sarlo (1997) enfatiza que nas tribos busca-se uma certa estabilidade em um universo simbólico, que anteriormente era garantida pela vigência de uma moral que entrou em crise.

A transitoriedade e o imediatismo se congregam numa certa apologia do presente vivida na tribo, não há projetos futuros ou preocupações com o destino da tribo. É o próprio movimento do consumo que determina o futuro das tribos. Assim, a segmentação de grupos de consumidores de diferentes gêneros musicais é um dos fatores que tomam parte na formação e difusão de diversas tribos, como ocorreu com os clubbers. Ao mesmo tempo, diferentes adereços e vestimentas são associados a diferentes estilos musicais, tendo função de distintivos do bando em relação ao todo da massa e em relação a outros bandos. 
A relação das tribos com a sociedade de consumo é bastante complexa. Baudrillard (1970) afirma que na cultura do consumo os bens materiais não são apenas utilidades, mas tem um valor simbólico, um valor de signo. No caso, signo de diferenciação entre as tribos (Sarlo, 1997). Entre os clubbers e ravers há uma diferenciação  conforme o estilo musical que se escuta.
Coutinho observa que a pluralização e a segregação, presentificadas com o aparecimento das tribos no cenário social contemporâneo, reflete dois processos que, paradoxalmente, caminham juntos na complexa sociedade de consumo em que vivemos: a uniformização e a pluralização
 A exaltação das diferenças, na sociedade de consumo contemporânea,  torna-se explícita através das tribos. Há uma promessa de singularização que, no entanto, jamais é alcançada do modo como foi prometida. A partir disto, podemos constatar que ser diferente de alguns sendo "igual" a outros é a máxima do individualismo contemporâneo.
Desta forma, as rixas entre tribos diferentes tornam-se cada vez mais constantes, demonstrando que não há um convívio pacífico com as diferenças. Pelo contrário, podemos notar que há, na realidade, uma necessidade permanente de confronto como forma de asseguramento da própria existência e continuidade de cada uma das tribos frente à multiplicação infinita de novas tribos. 

Referências Bibliográficas
 

AMARAL, Rita  “O Homem Urbano”. [on line] Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.aguaforte.com/antropologia/
__________. “Os Grupos Urbanos”. [on line] Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.aguaforte.com/antropologia/
BAUDRILLARD, J.(1970). A Sociedade de Consumo. Rio de Janeiro, Editora Elfos, 1995.
________________.(1978). A Sombra da Maioria Silenciosa - O Fim do Social e o Surgimento das Massas. São Paulo, Brasiliense, 1985.
CANCLINI, N.(1995). Consumidores e Cidadãos.Rio de janeiro, editora UFRJ, 1997.
CAMPELLO, Rachel. “A Tribo da Noite”. Revista Veja , 31 de março de 1999.
CASTRO, L. R. & al (1998). "Estetização do corpo: identificação e pertencimento na contemporaneidade". In: CASTRO, L. R. (Org.). Infância e Adolescência na Cultura do Consumo. Rio de Janeiro, Nau, 1998.
COUTINHO, Luciana Gageiro. Da metáfora paterna à metonímia das tribos: um estudo psicanalítico sobre as tribos urbanas e as novas configurações do individualismo.[on line]. Tese de Doutorado, PUC-RJ. Disponível na Internet via  WWW. URL: http:// www.rubedo.psc.br.
CRESPO, N. S.(1998). Modernidade e Declínio do Pai : A Resposta Psicanalítica. Tese de Doutorado, PUC/RJ, Departamento de Psicologia, 1998. Orientador: Octavio Souza.
DUARTE, Cláudio Manuel. “A estética da repetição na música techno”. [on line]. Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.pragatecno.hpg.com.br/frame.htm
_________________. “BALEARIC, PLUR E RAVE.” [on line]. Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.pragatecno.hpg.com.br/frame.htm
_____________________. “Em que sentido podemos cruzar a música eletrônica com a cibercultura?” [on line]. Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.pragatecno.hpg.com.br/frame.htm
FEATHERSTONE, M. (1995). O Desmanche da Cultura - Globalização, Pós-Modernismo e Identidade. Studio Nobel, 1997.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999. 
FRANÇA, Valéria e SOUZA, OKKy de. “Tum, tum ,tum...”. Revista Veja. 25 de março de 1998.
LOPES, Cláudio Fragata.   RATIER, Rodrigo. O Mundo Rave. Revista Galileu, em dezembro de 1999, pag. 44
MAFFESOLI, M..(s/d). O Tempo das Tribos - O Declínio do Individualismo nas Sociedades de Massa. Rio de janeiro, Forense, 1987.
MAGNANI, José Guilherme Cantor. “TRIBOS URBANAS: metáfora ou categoria?” Disponível na Internet via WWW. URL:http://www.aguaforte.com/antropologia/
MIZRACH, Steve (tradução Rita Amaral) “Primitivos Modernos: A Acelerada Colisão entre o Passado e o Futuro na Era Pós-Moderna"[on line] Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.aguaforte.com/antropologia/
RODRIGUES, C. Os Donos das Pistas, Revista "Época", em outubro de 1998.
SARLO, B.(1994). Cenas da Vida Pós-Moderna. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 1997.
SOUZA, Cláudio Manoel Duarte de . A cibermúsica, djing, tribos e cibercultura.[on line]. Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporânea , UFBA (Facom). Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/txt_cla.htm
 
 

Webgrafia:

http://sphere.rdc.puc-rio.br/jornaldapuc/junho99/cultura/renato.html
http://gowheresp.terra.com.br/21/entrevista/erika_brasil.htm
http://www.undergroove.com.br/mat_manifesto.html
http://www.pragatecno.hpg.com.br/frame.html
http://www.savetherave.org
http://www.cenaeletronica.com.br
http://www.aguaforte.com/antropologia/
http://www.mundodosclubbers.hpg.ig.com.br/Geral/11/interna_hpg2.html
http://www.dandaclubber.hpg.ig.com.br/entretenimento/16/index_pri_1.html
http://www.afimdetudo.hpg.ig.com.br/entretenimento/18/index_int_3.html
http://www.undergroove.com.br/mat_manifesto.html
http://www.rraurl.com/html/cena/textos/historia.html
http://hyperreal.org/raves/altraveFAQ.html
 

E-zine:
http://www.e-ar.com.br

Listas de discussão:
E-music ( www.grupos.com.br)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

*O conceito de cena, aqui referido, foi retirado do site : www.coisarada.com/tribos