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Novas formas de viver
– Clubers
e Ravers
Alguns aspectos Teóricos Após fazer uma explanação de alguns aspectos da Cultura da Música Eletrônica, é preciso, neste momento, explicar aspectos da pós-modernidade, da vida urbana nesse contexto histórico, o conceito de tribo, o movimento dos Primitivos Modernos (ModPrims) a fim de um melhor entendimento sobre características da subjetividade contemporânea que estão implicadas na estrutura do agrupamento clubber/rave. Tribos
Ao utilizar o termo “tribos urbanas “, antes de mais nada, deve-se ter presente o sistema de significações de onde foi retirado esse termo. O termo “tribo” tem seu domínio original da etnologia e nela, uma forma de organização da sociedade. Para avaliar até que ponto esse termo ajuda a entender os fenômenos que ocorrem nas sociedades contemporâneas é importante definir os significados que ele tem no campo em que é manejado como termo técnico, nas sociedades indígenas. Tribo constitui mais que uma divisão em clã, linhagem, aldeia. Trata-se de um pacto que aciona lealdades para além dos particularismos de grupos domésticos e locais. (Magnani, 2002) Quando “tribo” é empregado como uma metáfora pode-se dizer que evoca – primitivo, selvagem, natural, comunitário – características que se supõe estarem associadas, acertadamente ou não, ao modo de vida de povos que apresentam, num certo nível, a organização tribal. (Magnani, 2002) Por fim, nas tribos urbanas, o que não se aplica às indígenas, vê-se grupos cujos integrantes vivem simultânea ou alternadamente muitas realidades e papéis, assumindo sua tribo apenas em determinados períodos ou lugares,por exemplo o bancário que só depois do expediente é clubber, o universitário que só à noite é dark, rapper que oito horas por dia é office-boy etc (Magnani, 2002). Primitivos Modernos
Pode-se definir Pós-Modernidade como sendo a combinação de modernidade e pré-modernidade. Em um mundo onde o velho (tradição, crenças populares, Tc) é mais e mais abandonado nada pode ser mais novo que rentroduzi-lo. É nesse contexto que o movimento dos “primitivos modernos” se constituem, determinados a “seguir simultaneamente as trilhas do passado e do futuro rumo a sua inevitável colisão”(Mizarch, 2002). Maffesoli (1987), questiona-se se “o ato de recorrer à história passada (folclore, recuperação das festas populares, recredenciamento da sociabilidade, fascinação pelas histórias locais), não é uma maneira de escapar à ditadura da “história acabada”, progressiva, e dessa maneira de viver no presente”. O que torna o movimento, dos Primitivos Modernos incomum é a busca pela sensação. Essa característica pode ser explicada como resposta à industrialização e da modernização, que produziram um “entorpecimento psíquico”. Os ModPrims (Primitivos Modernos) utilizam-se da dor, perfurando-se (piercing) para atingir um estado de transe, como se através da negação da dor demostrassem a “possessão” pelo divino. Retorna a idéia do conhecimento através da dor que a modernidade esqueceu (Mizarch, 2002). As experiências multisensoriais são vividas nas festas raves, como um sinal de unidade entre o passado e o futuro. A “rave” é ao mesmo tempo “primitiva”, com sua reunião de “tribos” de gente jovem para experimentar a “participação mística” através de cinéticos e MDMA (Ecstasy), da dança e música tribal, e “futurística” (ou moderna) com seu uso de música sampleada e remixada digitalmente, efeitos de luz e laser e exposições de multimídia. Os “ravers” vestem-se ao mesmo tempo de modo que signifique passado e futuro: perfurando suas peles e narinas, usando calças dos anos 70 com bijuterias e hologramas futurísticos, combinando as modas do folk e do punk. Os ModPrims clamam que suas performances são uma busca de transcendência, provando a capacidade da mente de ir além do estabelecido e das limitações do corpo. Nas batidas repetitivas da música eletrônica, muitas vezes lembrando mantras, os clubbers e ravers buscam um estado alterado da consciência, estado de transe, de transcendência. Vida
Devido ao crescimento das cidades, a vasta aglomeração, extensas e complexas organizações nas quais a função oculta a pessoa, podem contribuir para o sentimento de uniformização aparente dos indivíduos. Criam-se, então, tentativas de respostas ao sentimento de massificação como: a procura de novas formas de subjetivação, a difusão de estilos de vida diferenciados, a experimentação que tentar criar novas unidades sociais mais “afetivas”, a multiplicação de possibilidades de engajamento, entre outras (Amaral, 1992, 2002). O encontro do “outro” organizado em grupos que visam a esse fim (clubs, raves, chats, listas de discussão) representa a tentativa de resposta e remédio para o sentimento de solidão urbana e permite o uso da criatividade na elaboração de códigos e regras .(Amaral, 1992, 2002) “Uma vez que a cidade só existe enquanto relação entre os diferentes grupos que interagem em um dado sistema produtivo, construindo sistemas simbólicos. A noção de grupos é essencial ao entendimento da dinâmica cultural urbana“.(Amaral, 1992, 2002) Segundo Pierre Bourdieu, “às diferentes posições que os grupos ocupam no espaço social correspondem estilos de vida, sistemas de diferenciação que são a retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência” (Bourdieu, 1983: 82). Grupos urbanos, Pós-modernos, como os clubbers constróem um estilo de vida com valores, gostos, formas de subjetivação, sensibilidades que definem um estilo de vida próprio, que se encontra na lógica massas-tribos. Além disso, essa tribo urbana se subjetiva em um período “cujo cimento principal seriam as emoções e ou sensibilidades vividas em comum” (Maffesoli), no tempo presente.Conteúdos Agora, com um melhor entendimento da composição grupal, do período histórico e do local onde os clubbers e ravers vivem, aprofundar-se-a como essas e outras tribos urbanas estão se subjetivando através do campo da ciências sociais e da psicologia social. No universo urbano assitimos a disseminação incessante de tribos (punks, yuppies, skatistas, clubbers, ravers, etc.) que se distinguem umas das outras principalmente por distintivos visuais dos seus membros. No campo das ciências sociais, o fenômeno das tribos tem sido mencionado por vários autores (Caiafa,1985; Calligaris, 1996; Canclini, 1997; Castro, 1998; Featherstone, 1997; Maffesoli, 1987; Sarlo, 1997 ). Maffesoli é quem mais se destaca pela importância dada em sua análise da sociedade contemporânea ao estudo das tribos urbanas. Propõe que o "tribalismo" ou o "neotribalismo" (Maffesoli, 1987) seja tomado como um novo paradigma, que vem substituir o paradigma do individualismo na compreensão da sociedade contemporânea. Maffesoli afirma que a humanidade vive um "período empático", em que predomina a indiferenciação e o perder-se em um "sujeito coletivo", chamado por ele de "neotribalismo" (Maffesoli, 1987). O neotribalismo é presidido pelas noções de comunidade emocional, de potência e de socialidade. E é seguida pelas noções de policulturismo e proxemia que são suas conseqüências. Maffesoli (1987) define o “tribalismo” ou “neotribalismo” como uma "comunidade emocional" ou "nebulosa afetiva" em oposição ao modelo de organização racional típico da sociedade moderna. Nas tribos, o ethos comunitário é designado pelo conjunto de expressões que remete a uma subjetividade comum, a uma paixão partilhada. A adesão a esses grupamentos é sempre fugaz, não há um objetivo concreto para estes encontros que possa assegurar a sua continuidade. Trata-se apenas de redes de amizade pontuais, que se reúnem ritualisticamente com a função exclusiva de reafirmar o sentimento que um dado grupo tem de si mesmo. A transitoriedade e o imediatismo se congregam numa certa apologia do presente vivida na tribo, não há projetos futuros ou preocupações com o destino da tribo. É o próprio movimento do consumo que determina o futuro das tribos. Assim, a segmentação de grupos de consumidores de diferentes gêneros musicais é um dos fatores que tomam parte na formação e difusão de diversas tribos, como ocorreu com os clubbers. Ao mesmo tempo, diferentes adereços e vestimentas são associados a diferentes estilos musicais, tendo função de distintivos do bando em relação ao todo da massa e em relação a outros bandos. A relação das tribos com a sociedade de consumo é bastante complexa. Baudrillard (1970) afirma que na cultura do consumo os bens materiais não são apenas utilidades, mas tem um valor simbólico, um valor de signo. No caso, signo de diferenciação entre as tribos (Sarlo, 1997). Entre os clubbers e ravers há uma diferenciação conforme o estilo musical que se escuta. Coutinho observa que a pluralização e a segregação, presentificadas com o aparecimento das tribos no cenário social contemporâneo, reflete dois processos que, paradoxalmente, caminham juntos na complexa sociedade de consumo em que vivemos: a uniformização e a pluralização. A exaltação das diferenças, na sociedade de consumo contemporânea, torna-se explícita através das tribos. Há uma promessa de singularização que, no entanto, jamais é alcançada do modo como foi prometida. A partir disto, podemos constatar que ser diferente de alguns sendo "igual" a outros é a máxima do individualismo contemporâneo. Desta forma, as rixas entre tribos diferentes tornam-se cada vez mais constantes, demonstrando que não há um convívio pacífico com as diferenças. Pelo contrário, podemos notar que há, na realidade, uma necessidade permanente de confronto como forma de asseguramento da própria existência e continuidade de cada uma das tribos frente à multiplicação infinita de novas tribos.Referências Bibliográficas AMARAL,
Rita “O Homem Urbano”. [on line] Disponível na Internet via
WWW. URL:
http://www.aguaforte.com/antropologia/
http://sphere.rdc.puc-rio.br/jornaldapuc/junho99/cultura/renato.html
E-zine:
Listas de discussão:
*O conceito de cena, aqui
referido, foi retirado do site : www.coisarada.com/tribos
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