REVISTA DIGITAL DE ANTROPOLOGIA URBANA :::::: ISSN: 1806-0528

 

 

Novas formas de viverClubbers e Ravers
 

 
 
 
 
 

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A Música Eletrônica e a Cultura do DJ ( Disk Jockey)
“ A essência da música techno é seu constante estado de fluxo...O DJ mistura duas faixas (ou mais) diferentes e uma nova é criada...Ela (e-music) se alimenta e cresce dela mesma”.(Stiens)
Peter Ilich Tchaikovsky (1840-93), em sua sinfonia “1812” com um tiro de canhão - som, ou timbre, nada convencional e que transgredia os padrões preexistentes, aponta um caminho percorrido pela música eletrônica: a busca de novos timbres e o entendimento de que outros instrumentos, que não os tradicionais, fazem música, produzem ritmo e melodia. 
Cria-se em 1964 o Moog (sintetizador portátil) a fim de desenvolver novas formas investigativas de produção musical. Com essa produção surge uma estética mais popular para a música, com o conceito de música experimental, gerada por timbres totalmente sintetizados e manipulados eletronicamente. Nos anos  70,  a busca por novos timbres continua incentivando outras produções e surgem novos  estilos  (ambient, trip hop, gabba, disco, house, acidhouse, tecno, detroit tecno, trance, tecnopop) e novos grupos musicais como o Can, Faust e Kraftwerk. Disk jockeys (DJs) tornam-se  referência. São esses os  verdadeiros pesquisadores da tantas novidades lançadas em tantos lugares diferentes. 
Além do moog, são criados os samplers - máquinas que tiram amostras de sons para serem coladas ou repetidas infinitamente - e sequencers - sintetizadores que reproduzem tunes (melodias, ritmos e linhas de baixos que podem ser alternados, manipulados) que dão poderes criativos para aqueles que não têm formação de teoria musical. 
Esses novos instrumentos geram uma música experimental que, atualmente, é cada vez mais produzida a partir da amostragem (sampling, em inglês) e da reordenação de sons. A música eletrônica, que é feita a partir de amostragens, pode, por sua vez, ser também objeto de novas amostragens, mixagens e transformações diversas por parte de outras músicas, e assim por diante. Assim, cada músico ou grupo de músicos funciona como um operador num fluxo de transformações permanentes em uma rede cíclica de cooperadores, não havendo, então, uma hierarquia aparente no papel desses músicos. Dessa forma, os criadores estabelecem uma relação íntima uns com os outros, a partir de um laço traçado pela circulação do material musical e sonoro em si, e não pela audição, imitação ou interpretação.(Levy)
 Hoje em dia, esses músicos  podem controlar o conjunto da cadeia de produção da música e inevitavelmente colocar na rede produtos de sua criatividade sem passar pela intermediação que havia sido introduzida  pelos sistemas de notação e de gravação (editores, intérpretes, grandes estúdios, lojas). 
A partir disso, a produção musical, da e-music, que não é propriedade de poucos eleitos, questiona o artista virtuoso e resgata o principal ideário punk do “Do it yourself” (faça você mesmo). Ou seja, é o fim do estrelato, do pop star. Aliás, essa produção, pode-se dizer, não é propriedade de ninguém: os samplers autorizam a cópia e põem um fim à obra intocável, definitiva, única. O que vale é o processo e é aí que reside o original, o autêntico. A música eletrônica é uma obra inacabada. Ela é, em si mesma, um banco de dados manipulável. Utiliza-se de todos os tipos de música étnica, religiosa, clássica, ou outras que são retiradas de seu contexto original, mixadas, transformadas. 
A música experimental, na sua estrutura, rompe com o padrão de início-refrão-meio-refrão-fim-refrão, ou seja, a música eletrônica não começa, não termina, ela sugere continuidade, infinitude,  hipersonoridade, mixagem, novas colagens, novas conexões (Souza). Esse formato musical é explicado por Levy a partir da expressão “universal sem totalidade” em : “ a música tecno , em geral, cuja matéria prima é digital, ilustra a figura singular do universal sem totalidade”. 
Além dessas características, a música eletrônica, em sua estrutura musical, é marcada pela repetitividade, a qual é um elemento fundamental de sua estética.  Nesse ponto, há uma conexão com o som tribal produzido pelos povos indígenas e, também, com os mantras (estes se baseiam na repetição e buscam uma melhor integração com o Cosmo). Assim, na música eletrônica a repetição pode representar transcendência, liberação do ego, não falta de criatividade. Duarte explica que assim como  o mantra destrói o individualismo, o techno (estilo de música eletrônica) destrói o pop estar. (Duarte)
Nessas condições, a gravação deixa de ser o principal fim ou referência musical. O que não significa que os músicos da xultura da música eletrônica sejam indiferentes ao fato de que suas produções sejam referências. Porém, é mais importante criar um acontecimento no circuito (festas rave, clubs)  que acrescentar um item memorável aos arquivos musicais. 
Mundo Rave
 
A música, por si só, é capaz de empolgar as pessoas, mas o que distingue as raves é o conceito de experiência compartilhada; surge um sentimento de unidade, constantemente, e as pessoas estão abertas e amigáveis umas com as outras. Existe uma quebra da "preocupação de atitude" que é onipresente em boates comuns a até na vida em geral”  (The Official alt.rave FAQ)
A palavra rave sugere um estado existencial físico e psicológico alterado, fundamentado no sobrecarrego sensorial. Nessas festas é claramente observável o esforço coletivo para entrar em transe, para atingir esse estado alterado da consciência. O dj procura criar o clima, o “vibe”, através da música hipnótica, como se fosse um xamã. Mattew Collin, no seu livro Altered State, associa a música eletrônica com o uso da tecnologia para acelerar a percepção e o prazer. Já  Souza explica a experiência em uma rave como: “um esforço  “tribal “ para um prazer hedonista, despolitizado e pagão. Hedonista porque imediato e em função do prazer; despolitizado, porque é uma cultura além-Estado, além-governos, além-instituições, globalizante e universal, sem bases em partidarismos; e pagão, na medida que nenhuma religião é eleita como coletiva, nenhum deus é eleito como norteador. O único deus é a música tribal. 
Como já citado, as primeiras raves  acontecem em Manchester, na Inglaterra, em fins de 1987 e início de 88. Logo após, o fenômeno se espalha pela Alemanha, principalmente Berlim. Nos EUA (New York), as festas raves chegam em 1991/92.

Para compreender melhor o significado destas festas  é preciso entender a noção de cena. Cena é a própria festa, o local em si, o momento histórico do grupo. A cena pode ser comparada a um grande palco onde todos  estão atuando como atores”. Pode-se fazer uma analogia de cena com a vida em nossa sociedade, ou seja, as pessoas trocam de papel conforme o local onde estão, por exemplo: “Durante os dias da semana me visto de terno e gravata, e nas raves me visto de forma colorida.” Maffesoli propõem a substituição da “função” pelo “papel”, do indivíduo pela pessoa (persona –máscara). Assim pode-se concluir que o consumo está na base da representação de papeis, pois conforme troco de figurino troco o papel. 

Mas toda a cena da Inglaterra no final dos 80 era chamada de acid house party, a terminologia "rave" não existia. O conceito rave, nascido no final dos anos 80 e advindo da produção da música eletrônica, foi formatado em festas em espaços abertos fora do perímetro urbano das cidades ou em galpões abandonados da periferia, ao som da música eletrônica. Como idéias principais, os ravers acredita(va)m no dogma dogma Plur - peace, love, unity and respect(paz, amor, unidade e respeito) que teve origem num discurso do dj Frankie Bones em uma de suas festas num galpão abandonado em Nova York em 1992.

Em festas onde a música eletrônica está implicada , como em raves, busca-se conexões com outras linguagens artísticas, notadamente no campo da produção imagética. É o caso dos artistas que geram imagens fractais, clips em 3D e animações em realidade virtual. Para Mizrach, uma rave “...é suposta  ser uma experiência multimídia multisensorial, e assim estar capaz de simular o sentido do cheiro e do toque das raves, com incensos e odor de óleos, gelo seco.... Os ravers sentem que esta ‘sobrecarga sensorial’ serve como uma proposta para esmagar os sensos (comuns) e criar uma experiência sinestética, transcendental.” (Souza)  A música  associada às raves toma uma conotação de experiência coletiva, tribal. Nessas festas, as pessoas se juntam para celebrar, pela dança, pela música o prazer e desprazer de viver. Através de uma experiência multisensorial, funde-se o arcaico e o desenvolvimento tecnológico, com a música computadorizada, som tribal (repetitivo), luzes psicodélicas, drogas, dança primitiva.
O sociólogo Tim Weber em uma pesquisa sobre a cultura Rave, conclui que os jovens buscam em festas raves, uma experiência libertadora, como remédio ao clima estressante em que vivem. “Os jovens vêem as raves como miniférias, pois tem poucas alternativas para diversão”, afirma Weber. Isso é visto, também, no discurso do jornalista Mattew Collen, quando ele explica essa sua definição de e-music:“ é o uso da tecnologia para acelerar a percepção do prazer. É uma forma de se libertar da experiência mundana do dia-a-dia e viver várias visões de drama, vitalidade e alegria.”
 Na busca por um estado alterado da consciência, drogas como Ecstasy e o LSD sempre caminharam paralelamente à cultura da música eletrônica, uma cultura hedônica. Essas drogas assumem o papel de dispertar um estado psicológico único de transcendência coletiva. Porém, raves e festas em clubs não dependem do uso de drogas.
 Vestimentas
 
Os clubbers e ravers distinguem-se dos demais pelas roupas coloridas e irreverentes, pelos acessórios ousados e pelos penteados e cortes de cabelo excêntricos. Essas vestes podem servir de código para expressar uma identidade tribal (tribo clubber, raver, punk, hippies). 
Na cultura da música eletrônica, da qual os clubbers e ravers são representantes, alguns adereços e componentes apresentam uma simbologia. Como: 
- Roupas coloridas: é uma maneira agradável de ver a vida;
- Piercings : é um protesto contra o aborto, desrespeito a vida;
- Tatuagens: é o conhecimento do próprio corpo e a liberdade de usá-lo como vitrine para um novo mundo;
- E.T.s: representa que é uma sociedade pronta para viver em paz com qualquer outra;
- “Chuquinhas”: representam o espírito infantil;
- Raves: geralmente realizadas em meio à natureza, mostrando uma relação do homem como se fosse um só corpo;
- Músicas: não existe letra, na maioria dos estilos musicais, por se tratarem de melodias individuais e universais  são feitas para serem sentidas e não, simplesmente,  ouvidas;
- Cabelos arrepiados: protesto contra as guerras e armamentos nucleares;
- Coturno: movimento contra o serviço militar, “antipatriotismo”;
- Maquiagens fortes: um protesto quanto à falsidade das pessoas, simboliza as máscaras;
- Objetos fluorescentes: cada ser é capaz de imitir bons fluidos, uma luz própria a favor da paz;
- Presença de GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, transexuais) em festas em clubs e raves: o direito da liberdade sexual, a todas formas possíveis de amar.
Em uma lista de discussão, sobre a Cultura da Música Eletrônica, foi encontrado um discurso sobre algumas características da vestimenta dos clubbers e ravers: 
“...Vamos falar de “montaria” na e-music. Tem os clubbers, ravers, gays e drag-queens. Por que a “montaria” nas raves e casa noturnas (clubs)? Porque isso dá mais vida à festa. Uma pessoa “montada” faz parte da decoração, se sente e fica mais ligada à festa. As outras pessoas olham para ela e “sentem mais o clima da festa”, sentem a festa mais viva. Quanto mais pessoas “montadas” estiverem em uma festa, melhor para a festa, pois um dos maiores atrativos das casas noturnas (clubs) e raves é que são sempre festas onde não há espectadores. É aí que entra o “U” do PLUR. Nessas festas, todos fazem questão de fazer parte do show, ou melhor “R”, fazer a sua parte no show.”(J.K.M.)



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Listas de discussão:
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